fotografias

Entrevista: RITA ALVAREZ

YELLOW

JACKETS

Da paixão comum por sítios abandonados e por revelar a beleza que, já foi outrora grandiosa nesses mesmos sítios, surge o projecto da Ivy e do Athon, um casal que explora a fotografia em conjunto. O projecto chama-se Yellow Jackets e, incorpora nas suas fotografias, casacos amarelos - luz - em contraste com lugares sombrios, procurando de certa forma dar vida e reanimar esses lugares tão místicos.

1) MELANCIA: Quem são a Ivy e o Athon?
YELLOW JACKETS: 
A Ivy e o Athon são os Yellow Jackets. Um casal que explora e fotografa em conjunto, especialmente lugares abandonados. Sempre com os casacos amarelos!

2) M: Como começou este vosso projecto? Têm formação nesta área? Contem-nos tudo!
YJ: Este projeto surge de uma forma muito natural e espontânea, da paixão um pelo outro e pelo tema em questão. Temos formação nas áreas de Fotografia e Design e antes de nos conhecermos já fotografávamos este tipo de locais. Foi esse “gosto pelo que fica do que um dia foi”, que nos aproximou inicialmente e nos aproxima mais a cada exploração que fazemos juntos. Os casacos têm uma simbologia peculiar uma vez que, além do amarelo nos remeter à luz - a essência da fotografia - , é uma cor alegre contrastando imenso com os sítios que habitualmente visitamos, que são sombrios, tristes, sem vida. Nós tentamos, de certa forma, dar-lhes vida.

3) M: Alguma vez se sentiram receosos por estar a fotografar num determinado lugar?

YJ: Nunca sabemos ao certo o que vamos encontrar nestes sítios, nem quais as dificuldades que vamos atravessar... Além de entradas quase impossíveis, de voltar ao mesmo local imensas vezes até conseguirmos acesso, ao medo de que o chão ou o teto caiam... Temos muitas histórias caricatas, uma das últimas foi numa exploração ao norte do país em que encontrámos uma arca gigante numa moradia abandonada e queríamos tirar uma foto no seu interior, só com o braço de fora. Quando o Athon lá estava dentro apercebemo-nos de que alguém estava a subir as escadas da casa na nossa direção. Os nossos colegas que exploravam connosco apressaram-se a sair, alertando-nos de que tínhamos de ir embora o mais rápido possível. Mas como a Ivy ainda não tinha tirado a fotografia, continuámos a fotografar com a máquina montada no tripé durante alguns minutos e só depois fugimos a correr, ainda com os casacos amarelos vestidos... Mas conseguimos um registo do qual gostamos imenso! O amarelo acaba por representar também esse lado, a superação das dificuldades, a alegria de conseguirmos entrar em sítios difíceis sem saber o que vamos encontrar, e de ver coisas a que a maioria da população não tem acesso.

4) M: Como decidem onde fotografar? Normalmente escolhem o sítio de antemão ou é algo com que acabam por “esbarrar”?

YJ: Ambos. Passamos muito tempo à procura de locais abandonados, quer em páginas diversas da internet, como no Maps e em livros históricos,
mas também encontramos sítios ao acaso enquanto estamos a passear ou a explorar. Vale-nos igualmente a sorte de ter um grupo de amigos que têm a mesma paixão que nós por estes lugares e que nos dão imensas localizações, já é comum dizerem “este sítio têm de lá ir os amarelinhos fotografar!”

E cada vez mais as pessoas que nos conhecem acabam por partilhar este tipo de sítios connosco porque sabem o quanto gostamos e respeitamos os espaços.

5) M: Uma curiosidade: é propositado o facto de partilharem um projecto mas, ao mesmo tempo, não terem uma página única para isso mesmo? Expliquem-nos.

YJ: Sim. Embora sejamos um casal e tenhamos esta paixão e projeto em conjunto, cada um de nós é uma individualidade com a sua própria personalidade e espaço.

6) M: Veem o Instagram como uma ferramenta de trabalho? Como tem sido o feedback?

YJ: O Instagram é uma excelente plataforma para nós. Foi através da mesma que começámos a ter mais projeção internacional, a ter o nosso trabalho divulgado em páginas dos quatro cantos do mundo, a conhecer pessoas de todas as nacionalidades que nos motivam e elogiam imenso a nossa criatividade, e que acabam por também partilhar connosco locais abandonados dos seus países e a convidar-nos para explorar juntos. O feedback tem sido excelente, já vendemos fotografias para países como China e Estados Unidos, e temos conseguido vários patrocínios através desta rede social, portanto sim, consideramos uma ferramenta muito positiva no mercado de trabalho, embora não nos queiramos restringir a ela.

7) M: As vossas fotografias têm tanto de enigmático como de mágico... em algumas, existe quase uma fusão entre fotografia e pintura. Como descreveriam o vosso estilo?

YJ: Nós não temos um estilo definido, o estilo vai-se definindo a si mesmo. Para nós isto é como que um pequeno diário onde guardamos as nossas

memórias e as partilhamos com quem nos segue. Mas a magia destes locais é exatamente essa, nós já visitámos centenas de sítios abandonados e às vezes ainda nos questionamos se são mesmo reais, já que parecem saídos do nosso imaginário! Estes lugares fazem-nos viajar dentro deles e de nós próprios. Acreditamos que todas as pessoas acabam por se identificar de alguma forma com isso, muitas vezes por memórias pessoais, registos de infância, vontades silenciadas de vivenciar experiências e imagens diferentes do quotidiano. Quando fotografamos espaços industriais, por exemplo, que outrora empregaram centenas de trabalhadores e hoje estão ao esquecimento, para quem lá trabalhou essas fotografias são “familiares” e despertam o interesse em recordar o que foi e perceber o que é na atualidade e o estado em que se encontra.

8) M: O que pretendem evocar em quem vê a vossa arte? 

YJ: Aquilo que nós transmitimos e pretendemos evocar é o que realmente sentimos: acreditem no amor e na descoberta, vivam com prazer e em constante auto-desafio.

9) M: Têm uma fotografia preferida? Qual e porquê? 

YJ: Gostamos de tantas... Temos sítios que consideramos mais especiais que outros, seja pelas entradas mais difíceis, pelas situações que se sucedem na própria exploração, pela particularidade do espaço em si... Mas todas as nossas fotografias são as nossas favoritas já que cada uma delas guarda memórias únicas.

10) M: Onde se vêm daqui a 10 anos? 

YJ: Queremos explorar sítios cada vez melhores e conhecer diferentes países e as suas culturas, inclusive ao nível de locais abandonados claro. Pode parecer contraditório, uma vez que o futuro parece ser cada vez mais tecnológico, mas queremos dar mais vida e ênfase ao lado físico. Já temos uma exposição planeada para meados deste ano e temos como objectivo dar a conhecer o nosso trabalho cada vez a mais pessoas e vê-lo exposto em galerias de todo o mundo. Nós queremos marcar a história da história, tanto a nossa história como a história de cada um destes locais e das gentes que os envolvem, bem como a história da fotografia numa vertente única.

11) M: Deixem uma mensagem à MELANCIA e aos seus leitores.

YJ: Depois de lerem esta entrevista na íntegra, larguem os telemóveis e os computadores um bocadinho e vão explorar, há um mundo por descobrir!

www.instagram.com/athon.01/

www.instagram.com/ivyphobs/

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