Ilustração & Street Art
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Junho 2020

Entrevista: RITA ALVAREZ

ilustrações: UMA JOANA

UMA
JOANA

Um pouco surrealista, uma nadinha esquisita, introspectiva e… picuinhas! É assim que Joana descreve ao seu estilo. Embora seja ilustradora, reconhece que viver do seu trabalho é ainda uma luta. Desde sempre que a arte esteve presente na sua vida, mas a ilustração é um gosto que foi adquirindo e que é agora inerente ao seu trabalho.

1) MELANCIA: Quem é a Joana? 

UMA JOANA: Alguém que ainda não sabe muito bem quem é, mas sabe que: não (se) vive sem ilustração, plantas e livros nunca são demais, e que não faz mal não sabermos tudo - assim podemos sempre descobrir mais. Inclusive sobre nós.

2) M: Perseguiste a ilustração ou ela surgiu naturalmente na tua vida? Conta-nos o percurso.

UJ: Sempre gostei muito de desenhar, trabalhos manuais e de áreas criativas. No início era só mais uma coisa de que gostava - quando era pequena quis muito ser treinadora de golfinhos, por isso houve uma pequeniiiina evolução nas minhas ambições. Durante muito tempo desenhei só porque sim, por adorar o que sentia ao ver o trabalho de outras pessoas e por me poder perder nos mundos que eu quisesse, só com um lápis e uma folha de papel. Apesar dessa despreocupação - quando desenhava antes de pensar numa eventual aplicação profissional desse gosto - a sensibilidade para as artes e comunicação gráfica sempre existiu, resultando em que acabasse a estudar. Pintura na Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto. Apesar de não ser directamente relacionado com ilustração, consegui fazer algumas cadeiras na área e aprendi muito sobre composição, imagem, investigação e sobre como comunicar visualmente. Daí, frequentei o Mestrado em Ilustração e Animação, no IPCA, onde, pela primeira vez, aprendi realmente o que a ilustração podia alcançar. Também foi aqui que percebi a importância de uma boa ideia e a desvalorizar um bocadinho a “perfeição”, tenho tendência a perder-me em pormenores e a desviar- me da mensagem, por isso foi especialmente importante para me consciencializar dessa falha no meu trabalho.

3) M: Que materiais e técnicas costumas utilizar nas tuas ilustrações? 

UJ: Durante muito tempo, lápis e papel eram, quase cegamente, as únicas coisas que usava - com cor e edição digital, posteriormente. Mas, como sou uma eterna insatisfeita (acho que faz parte de áreas criativas), comecei a sentir que podia ser redutor e que precisava de me obrigar a experimentar mais, nem que fosse para saber aquilo com que - não - gostava de trabalhar. Hoje, adoro combinar desenho, pintura, colagens e/ou bordados, fazer as minhas próprias texturas (desde papel marmoreado a bolhas de detergente com tinta da china, sobre papel) e, acima de tudo, sentir que tenho o controlo sobre todas as áreas da imagem, sem depender de recursos externos.

4) M: Braços alongados, cabeças e mãos flutuantes, botânica misturada com partes do corpo... o teu trabalho gira muito à volta da desconstrução da figura humana. Como descreverias o teu estilo? 

UJ: Surrealista, um bocadinho esquisito, introspectivo, e... (demasiado) picuinhas.

5) M: A mulher é uma figura muito presente nas tuas ilustrações. Explica- nos a razão. 

UJ: Não o faço deliberadamente. Acho que aquilo que criamos é reflexo da nossa realidade e das imagens com que vivemos e por isso, por essa ser a minha realidade, acho natural que seja uma referência inconsciente e quase automática. A figura feminina surge, para mim, mais como “uma pessoa” do que como “uma mulher”. Considero que hoje, mais do que nunca, a ilustração, tal como a sociedade, deve ser capaz de existir além de questões de género, orientação, etnia, etc.

6) M: Tens uma ilustração preferida? Qual e porquê? 

UJ: “Ophelia”. Lembram-se de querer ser treinadora de golfinhos? Acho que era uma combinação de “amor por animais” e “possibilidade de viver dentro de água”. Especialmente de poder viver dentro de água e da paz que isso me traz. A imagem de “Ophelia” tem tudo isso, ignorando a questão trágica de Hamlet, vá. Shakespeare era um nadinha melodramático, íamo-nos dar bem.

7) M: Como é um dia de trabalho da Joana? Fala- nos do teu processo criativo. 

UJ: Não há dois dias nem dois trabalhos iguais. Às vezes passo dias à procura de uma ideia “digna” de pôr no papel, sem coragem de começar. Outras, começo sem ter ideia nenhuma e as coisas materializam-se. Quando estou muito bloqueada, tento trabalhar na minha biblioteca de texturas, fazer cursos online ou workshops, aprender coisas novas e tentar “alterar o ponto de vista”. Às vezes só precisamos de uma mudança de perspectiva.

8) M: Se tivesses de fazer um TOP 3 de criativos, quem elegerias? 

UJ: Sinceramente, acho que não sou capaz. Existem tantas- pessoas que admiro, nacional e internacionalmente, desconhecidos e amigos que, além de injusto, não ia ser verdadeiro. Tenho-os a todos no mesmo patamar. Mas posso dar-vos um nome que está no meu top-de-sempre, por ter um trabalho que mudou profundamente a forma como vejo a relação entre texto e imagem: Isabelle Arsenault. E, se puder sugerir um livro, por favor vejam o Cloth Lullaby, sobre a vida e obra da artista Louise Bourgeois.

9) M: Qual é o teu maior sonho? 

UJ: “Ser ilustradora”. Ainda me sinto uma impostora. Para além do facto de viver de ilustração continuar a ser uma luta, especialmente no panorama actual, onde a cultura sofreu novamente um forte impacto.

10) M: Qual é o teu maior sonho? 

UJ: Tenho projectos “de sonho”, mas ainda nada posto em prática. Acho que espero demasiado que as coisas “aconteçam” e acho que preciso de ser eu a fazê-las acontecer. Mas trabalhar em álbuns ilustrados para todas as idades é um dos meus maiores objectivos.

11) M: Deixa uma mensagem à MELANCIA e aos seus leitores. 

UJ: Bebam água, façam pausas para alongamentos, visitem galerias, leiam livros e revistas, e apoiem a nossa cultura. Não somos nada sem ela.

instagram.com/uma.joana/

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