ilustração & street art

Entrevista: mafalda jesus

TVFER

Nos desenhos de Pedro não falta vida ou morte, mas sobretudo a vivacidade de um traço de quem sabe o que faz há muito tempo e os pormenores de quem está atento ao que rodeia. Tvfer é o nome com que o vemos assinar até, a pedido, desenhos que ficam na pele para sempre e nas paredes muitas vezes por menos tempo do que gostaríamos. Sem que a arte seja “um jardim a brotar flores todos os dias” é ela que se vai plantando por aqui.

1) MELANCIA: Quem é o Pedro?
TVFER: 
O Pedro é um Setubalense com um quarto de século a tentar ser adulto. A insistir naquilo que gosta de fazer, de maneira a fazer só aquilo que gosta. Indo assim ao núcleo da coisa sem tentar ser confuso. Acho que é a melhor resposta que posso dar a esta pergunta existencial sem me prolongar muito.

2) M: Porquê “tvfer”?
T: O “tvfer”, tem sofrido algumas mutações. Acho que começou em 2009, talvez. Quando comecei a desenvolver o gosto pelos letterings e pelo graffiti. Era Tufer, com acentuação no U, para não ser lido como “tougher”, que não passava da junção de 5 letras que eu gostava, organizadas da maneira que melhor me soava.

3) M: O teu trabalho apresenta imensos detalhes e pormenores. Como surgiu esta paixão pelo desenho? 

T: A paixão pelo desenho esteve sempre intrínseca em mim. Eu lembro-me de ser pequeno e de ver os desenhos animados ao fim de semana de manhã e de tentar desenha-los. De desenhar nas aulas em que devia escrever, de desenhar no restaurante com a família. Não o posso especificar, andou sempre cá, e tanto tempo que cá esteve, que acabou por ficar,  e hoje é mais um hábito que uma paixão, julgo. Há pessoas que, sei lá, todos os dias correm, ou vão andar de bicicleta, apostar em coisas... Eu não, eu desenho.

4) M: Os animais são um tema recorrente no teu trabalho. Por alguma razão em especial? 

T: Sem nenhuma em específico. Foi natural. Eu gosto muito da natureza no geral. Gosto de vida e também da morte. Os animais são os donos disto tudo, são seres lindos, alguns fazem coisas que nós só conseguimos fazer com máquinas ou utensílios. Isso é de louvar. E merecem essa atenção porque sei que se hoje desenhar um corvo marinho, amanhã se calhar alguém vê um pássaro desses e mesmo sem saber que é um corvo marinho acaba por se lembrar de mim e reconhecê-lo. Isso é fantástico.

5) M: Consegues viver apenas da ilustração? É o teu trabalho a tempo inteiro? 

T: Não sei. Sobrevivo. Não é um jardim a brotar flores todos os dias. Entre vender prints, pintar paredes aqui e ali, vender isto e aquilo, vai dando. Vou me safando. Mas, para meu pesar, não sou só artista como gostava de ser.

6) M: Tens passado do papel para a pele. Qual é a sensação de gravar o teu trabalho permanentemente em alguém? 

T: Muito boa, na verdade. Confesso que me vejo mais assustado que os clientes às vezes. Mas é muito gratificante, já me pediram mais que uma vez para assinar a tattoo. Estou a gostar da experiência, e é algo que gostava de fazer numa daily basis.

7) M: Hoje em dia, as redes sociais são um grande meio de divulgação. Sentes que dão a mesma importância à arte como aos outros temas? 

T: É relativo. Quem faz as redes é quem as usa. Escolhemos o que queremos ver ou seguir. Tu fazes a montra que queres ver e, se gostas de arte, fixe, tens meios fáceis de a ver. Se gostas de movimentos activistas ou taxidermia, vais ver isso... No fundo acho que hoje as coisas estão ao alcance de quem as quer ver e não de quem as quer mostrar. Se é que isso faz sentido.

8) M: Na tua opinião, qual a noção que um artista nunca deve perder? 

T: Não sei, é uma boa questão. Eu gostaria de não perder o prazer que tiro disto, ou os olhos, ou as mãos. Mas partirá de cada qual. O Beethoven perdeu a audição e ainda compôs “umas coisas”, que alguns hoje descrevem como obras primas.

9) M: O que é essencial no teu dia-a-dia? 

T: O essencial passa pelos meus analgésicos. Sem eles não há Pedro e, mais importante que isso, não há Tvfer.

10) M: Onde encontramos o Pedro quando não está a desenhar? 

T: Possivelmente no estúdio com os meus amigos, no parque com as cadelas ou só pelas ruas da minha cidade.

11) M: Deixa uma mensagem à MELANCIA e aos seus leitores.

T: Bom ano a todos. A todos os que veem no ano novo motivação para se melhorar, vão reduzindo. Melhorem a cada semestre. Depois a cada trimestre, depois mensalmente, até sentirem que se conseguem melhorar todos os dias. Os dias fazem anos. E não há anos sem dias.

Instagram: @tvfer

 PREFERES 

- Cerveja ou Vinho? Vinho.

- Tatuagens ou Piercings? Tatuagens.

- Gorro ou Chapéu? Chapéu.

- Mamas ou Rabo? Mamas.

- Noite ou Dia? Noite.

- Papel ou Parede? Parede.

- Verão ou Inverno? Verão.

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