MÚSICA

Entrevista: LUÍSA VITORINO

 

TRISTANY

Pelas palavras do próprio, Tristany é um jornalista. A realidade onde está inserido é o tema das suas reportagens. Apresentando trabalhos musicais, cinematográficos e plásticos, o artista multidisciplinar da linha de Sintra traz-nos um cheirinho do que será o seu próximo álbum “Meia Riba Kalxa”.
Um mergulho num projecto que está na panela já há 6 anos e que, finalmente, vamos poder ouvir.

1) MELANCIA: Quem é o Tristany?
TRISTANY: O 
Tristany... olha é um jornalista, foi o que me veio à cabeça e acho que é apropriado (risos).

2) M: Como começaste a fazer música e a querer mostrar a tua arte?
T: A arte sempre esteve presente. Quando era miúdo estudei bateria, mas não foi bem isso que me fez querer fazer música. Os meus pais são ambos músicos e sempre tive essa influência, quer dos ambientes mais eruditos a que íamos, quer da malta que me rodeia, inspira-me muito. Respondendo mais à pergunta, acho que comecei a querer fazer música porque era aquela cena... os rapazes e todo o círculo de amigos iam fazendo som, então era uma sequência fácil. Num dia um fazia o beat, noutro a letra, noutro já tinham comprado um micro e as coisas iam-se compondo. Surgiu assim, a vontade de fazer mais coisas para o pessoal ver e começar a levar mais a sério. Na altura chamávamos-lhe “sintranagem”, era o nome da música da linha de Sintra.

3) M: Começamos a ver-te surgir com os singles Rapepaz e Mo Kassula. Desde aí, cada música que lanças é uma faceta tua diferente, uma mescla de influências e sonoridades. Quais são as tuas influências e como defines o som que produzes? 

T: Como já disse, as influências variam bastante. Os meus pais são ambos músicos e, mesmo não sendo músicos profissionais, sempre me influenciaram muito, assim como a malta da linha de Sintra. Mas definir? Não defino.

4) M: A carga visual que atribuis à tua música, é também um aspeto incontornável no teu trabalho, quer em vídeo, quer em ilustração. A conjugação de vídeo, imagem e música, é importante?  

T: Sem dúvida, acho muito importante. eu já aprofundei temas como design e interesso-me pelo lado mais artístico e sim é muito importante. E a maior parte da estética envolvente tem sempre a ver com malta que produz e que cria também à minha volta. Acho muito importante dar voz e enaltecer o papel de pessoas que sempre fizeram parte do projeto e que são peças essenciais, que são tanto como os outros e não deviam ficar na sombra. Quer o Nuno Trigueiros quer o Diogo Carvalho, assim como outras pessoas. São peças essenciais para criar a estética do projeto.

5) M: Lançaste recentemente uma mini-serie “Baxo ku riba” onde apresentaste o teu mais recente single “Tirante”, um mergulho noutra realidade. Qual a mensagem que pretendes transmitir com estes dois projetos? 

T: A mensagem que pretendo transmitir não é bem uma mensagem é mais para que, cada pessoa que veja, possa tirar a sua própria mensagem. Como ainda agora te disse, posso ser um jornalista que está a retratar uma situação e as interpretações cabem a cada um. Tu podes interpretar de uma maneira, mas outra pessoa diferente de ti interpreta de outra completamente oposta. Não quero impingir a minha a visão para além do que é descritivo.

6) M: A mini-série carrega uma sensação de muita naturalidade. Gravaste momentos reais como o jogo de futebol? Ou foi encenado? 

T: Momentos reais sem dúvida. O jogo de futebol e alturas em que estávamos só a conviver e o objetivo era mesmo esse, retratar a realidade, ter o mais possível de descrição precisa, mas óbvio que houve momentos encenados, tipo a cena dos roubos (risos). Mas o objetivo era mesmo transmitir o mais real possível.

7) M: Ainda na mini-série, em todos os episódios vimos referências a fios de ouro. Qual a simbologia que atribuis a este objecto? 

T: Imagina que tens uma bicicleta e que ta roubam. Depois tu vais e trazes a bicicleta de volta. Estás a roubar? É um bocado sobre isso, mas numa escala diferente. A série retrata a realidade de, principalmente, afrodescendentes da linha de Sintra. Fala do roubo e do “tirante”, que é gíria da street. Eu não sabia, mas no dicionário da língua portuguesa, diz que tirante é quem tira, portanto é mesmo esse o significado. É simbólico sim, mas lá está, eu não quero sobrepor a minha opinião à de quem está a observar.

8) M: Mo Kassula é um tema que reeditaste este ano. Vimos-te na percussão e na voz, com o Ari no beat e a Susana no violino e também na voz, um tema incrível e hipnotizante. Vamos poder ver mais trabalhos do género? 

T: Sim, sem dúvida que vão ver mais cenas do género. Ainda bem que tocaste nesse tema porque, desde já, a participação da Susana e do Ari foram muito importantes para a estética e sonoplastia do projeto, peças fundamentais e pessoas muito talentosas. Mas sim, podemos esperar mais coisas deste género, podemos até dizer: mais musicais.

9) M: Vamos ter oportunidade de ouvir os sons que já lançaste como o Tirante e o Mo Kassula num álbum em breve? Se sim quais. 

T: Sim vamos. Todos os sons que lancei (Rapepaz, Meninu ke Brinkava com Bunekas, Mo Kassula e Tirante) vão estar num álbum que ando a construir e vou lançar no início de junho, o “Meia Riba Kalxa”. É um projeto que anda a ser construído há aproximadamente 6 anos, que me ensinou muito e tem sido uma aprendizagem. Desde o primeiro som que gravei que tenho em mente construir um álbum para lançar. Será um projeto bem cozinhado.

10) M: Tencionas continuar a solo ou podemos esperar colaborações no álbum? Se sim, com quem? 

T: Sim podem esperar colaborações. Tive muito apoio do Chullage e ele foi uma peça fulcral na construção do álbum. Podemos esperar um ou dois sons com ele... Mas no processo de construção do álbum, fui sempre conhecendo pessoal e, epá, podem esperar colaborações desde o rapper mais badalado da tuga, até ao mais lowkey de todos (risos).

11) M: É impossível deixar de notar que a tua música não se prende a nada, já disseste até que é apátrida. Mesmo que não tenhas um estilo próprio, é importante para ti essa distinção de fazeres algo que se destaque, ou é-te simplesmente inato? 

T: Acho que é natural, não me esforço para fazer algo diferente... Mas não quero que venham os puristas e me metam na caixa de que é nova música lisboeta, porque não é. Não faço as cenas a pensar que têm de ser diferentes ou que têm de se destacar. Claro que tem intenção, mas não é propositado, é natural. Acho que podemos dizer que me é inato, mas que tem algum pensamento por trás.

12) M: As tuas músicas têm sempre uma mensagem por trás, como a Tirante ou Menino Ke Brinkava com Bunekas. Consideras a tua arte interventiva ou política de alguma maneira?  

T: Hmm, interventiva não, mas talvez politizada. Obviamente que retrato situações e que ninguém as retrata só por retratar. Mas podemos considerar que é politizada porque, sendo eu, um homem politizado a expor a realidade (como o somos todos), a minha arte é obrigatoriamente politizada. Tal como seria politizada outra realidade exposta por outra pessoa qualquer, pois tomos os homens são politizados. Não quero sensibilizar, quer empoderar, percebes?

13) M: Deixa uma mensagem à MELANCIA e aos seus leitores. 

T: Façam produtos naturais para vosso corpo. Eu fiz para o cabelo uma cena com sementes de chia e é uma cena bacana que as pessoas podem fazer. Não estou a dar uma de naturista, mas ya acho que é fixe e que a malta devia tentar fazer isso (risos).

instagram.com/tristany_122/

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