ilustração

Entrevista: RITA ALVAREZ

SÉVERINE

ASSOUS

Séverine divide a sua vida profissional em dois ramos: o marketing e a ilustração. Embora pertençam a universos bastante diferentes, a ilustração está sempre presente no seu trabalho publicitário. Cores e formas arrojadas marcam sempre presença nos trabalhos da artista, onde canaliza o seu espírito de criança e as suas influências no que toca ao estudo da cor e do movimento.

1) MELANCIA: Quem é a Séverine? 

SÉVERINE: Sou uma ilustradora francesa e vivo em Paris num vigésimo andar. Adoro esta cidade não só por ter crescido aqui mas, também, porque há imensas coisas para fazer e para ver. Embora também adore ir de férias para fora de Paris. Tenho a sorte de ter uma filha de sete anos e de ser “forçada” a deixar de trabalhar pelo menos durante uma parte das férias escolares. Este ritmo combina perfeitamente comigo! E foi algo que descobri ao ser freelancer: para poder aproveitar o meu tempo como eu quero, só tenho de avisar os meus clientes e de me organizar.

2) M: Fala-nos acerca da tua formação e experiência de trabalho.
S: Fui desde muito cedo encorajada pela minha mãe - que era professora de desenho - a desenhar. Levou-me a museus, mostrou-me os seus pintores preferidos e pendurou desenhos meus pelas paredes da casa. Desde aí, que sempre mantive uma ligação com o desenho. Comecei por ter aulas de desenho na minha adolescência e depois entrei na Ecole Nationale Supérieure des Arts Décoratifs em Paris, onde me licenciei em Gravura e Ilustração. Pensei em fazer gravura ou tornar-me pintora e fazer ilustração em paralelo, como forma de sustento. Mas rapidamente me apercebi de que esse plano não funcionava... é muito difícil viver da ilustração quando não se é conhecido ou não se tem um portfólio profissional. Graças ao ensino prático que recebi na Arts Décoratifs, pude começar a trabalhar numa agência de publicidade onde, pouco a pouco, fui crescendo até me tornar directora de arte. Ao mesmo tempo, vou recebendo comissões de ilustrações que faço à noite e/ou nos fins de semana. Eu adoro trabalhar em universos muito diferentes entre si e é precisamente isso que eu gosto na ilustração: trabalhar num dia e publicar no outro, anunciar a juventude, a identidade de uma marca, um artigo de imprensa, fazer um desenho para uma camisola ou para uma embalagem de chocolate...

3) M: Passaste muitos anos no mundo da publicidade, a fazer direcção de arte. O que te levou a seguir ilustração? Foi sempre o teu sonho? 

S: Muitos directores de arte na área da publicidade, sentem a necessidade de ter uma outra actividade criativa. Uns fazem fotografia, outros pintam, desenham, etc. É algo que, para além de ser interessante, ajuda a que a criatividade não seja completamente sugada pela demanda da publicidade.
No meu caso, eu sempre gostei de ilustração... acho que é um campo muito vivo, vasto e, para mim, menos austero e sério do que o trabalho de um pintor. Sempre fui muito mais capaz de me expressar através da ilustração, do que através do meu trabalho como D.A. (directora de arte), sobretudo em aspectos mais pessoais. A introdução da ilustração no meu trabalho enquanto D.A., foi algo muito natural. Comecei a conseguir os orçamentos para os quais era simultaneamente DA e ilustradora. E, às vezes, também criava o slogan. Foi muito entusiasmante misturar todas estas áreas e, pouco a pouco, comecei a ter encomendas de ilustrações suficientes para poder trabalhar na minha agência de publicidade apenas em part-time. Quando a minha filha nasceu dei o salto e decidi parar o meu trabalho como D.A. e dedicar-me inteiramente ao meu trabalho como ilustradora, o que me interessava muitíssimo mais. Foi uma decisão muito boa! É um verdadeiro prazer poder fazer este trabalho e ser o nosso próprio patrão. Mas estou infinitamente grata por tudo o que aprendi na agência de publicidade, foi extremamente educativo. Em concreto, aprendi a conceptualizar. O que me ajuda muito no meu trabalho como ilustradora..

4) M: Se tivesses de escolher apenas uma das tuas obras, qual delas seria? Porquê? 

S: Seria a imagem dos músicos (fig.9), que é um pouco como um marco para mim. E porque me dá uma sensação de alegria, movimento e ingenuidade, valores que me são queridos. Foi também com
esta imagem que estabeleci no meu vocabulário gráfico aquilo a que chamo personagens de pastilha elástica: corpos elásticos, extensíveis ou ondulantes, que dançam ou se contorcem. Também gosto da economia de cores primárias.

5) M: Quais são as tuas principais referências e/ou inspirações? 

S: Penso que os primeiros choques pictóricos que tive foram com a pintura de Henri Matisse, com as suas cores e formas fortes... são pinturas em que gostaria de viver. A cor é super importante para mim, tenho uma queda por cores vivas e densas. É por isso que a descoberta da serigrafia quando era estudante de Artes Decorativas foi uma revelação. Depois disso, quis sempre trabalhar com cores lisas, e não com  a linhas. Adoro representar personagens e, em particular, corpos em posições um pouco extremas. Quando desenho os corpos imagino-me a mim própria naquelas posições, coloco-me no lugar dos meus personagens, mas eles são muito mais flexíveis 05 do que eu!

6) M: Conhecemos o teu trabalho através da La Redoute, um grande cliente. Achas que o teu trabalho se vai propagar cada vez mais depois disto? Qual é o feedback? 

S: É uma oportunidade incrível quando uma marca nos dá carta branca para uma criação e se encarrega da sua distribuição em massa. Como resultado, muitas pessoas já a viram, muitas das quais eu nunca teria alcançado, o que é espetacular. A La Redoute quer colaborar com um artista francês (é uma marca francesa) em cada nova campanha, o que eu acho uma ideia muito fixe. Mostra bem a importância da ilustração no momento da comunicação e na identidade da marca. Espero que esta colaboração abra novos horizontes para mim, porque adoro ser surpreendida no meu trabalho. Actualmente estou a trabalhar para uma marca de pronto-a-vestir, gosto muito, é a primeira vez que trabalho no mundo da moda.

7) M: As tuas ilustrações estão cheias de formas arrojadas, cores vivas e influências dos anos setenta. Como descreverias o teu estilo?

S: Já o descreveste muitíssimo bem! Tento ser o mais sincera e directa possível nas minhas ilustrações. Existe também muita ingenuidade e, espero eu, simplicidade. Acho que a minha alma de criança tem muito a dizer, portanto deixo-a falar.

8) M: Se alguém te pedisse para seres o seu mentor, o que lhe ensinarias? 

S: Ensinar-lhe-ia a ser o mais sincero possível. O que é fácil de dizer! Quando se é um jovem ilustrador que quer ser descoberto, é difícil não ser influenciado pelas toneladas de imagens que se encontram todos os dias nas redes sociais. Mas descobrir o que só nos pertence a nós é precisamente o que vai tornar as nossas ilustrações únicas. Isso e muita perseverança, como é evidente. Eu digo isto mas às vezes copio os desenhos da minha filha... adoro a forma como ela desenha os cavalos, sentados com as pernas dobradas como se fossem um acordeão debaixo da barriga!

9) M: Tens planos para o futuro ou projectos que queiras partilhar?

S: Estou ansiosamente à espera do lançamento do meu próximo livro infantil em Abril de 2020, editado pela Albin Michel. Comecei a escrever esta história há 6 anos! Está muito perto do meu coração e conta a história de uma menina que gostava de ter um gato, encontra um pássaro e, depois, percebe que os animais estão melhor na natureza. Demorei muito tempo a escrever este livro - o tempo é um verdadeiro luxo, mas muda tudo.

10) M: Onde te podemos encontrar quando não estás no teu atelier? 

S: Eu ainda estou no meu atelier! Mas antes de me “fechar” de manhã, vou nadar na piscina ou dar um passeio no parque Buttes Chaumont, porque durante o dia eu sei que não me vou conseguir mexer. À noite, gosto de ir a pequenas salas de concertos de rock com o meu namorado. Há imensos sítios excelentes em Paris, eu adoro o Trabendo. E uma das atividades que me faz feliz é a dança, seja para praticar ou para assistir, na Opéra Garnier, se tiver a sorte de conseguir um bilhete.

11) M: Deixa uma mensagem à MELANCIA e aos seus leitores. 

S: Muito obrigada pela entrevista, tenho muito prazer em aparecer numa revista portuguesa, é a primeira vez! É sempre muito interessante sentarmo-nos e reflectirmos sobre o que estamos a fazer e porquê. Espero que esta leitura (mesmo na diagonal) vos tenha interessado tanto quanto a mim me agradou falar do meu percurso e do meu trabalho.

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