fotografia

Entrevista: mafalda jesus

sebastião santana

Na sua lente têm ficado registados grandes momentos do hip-hop em terras lusas. Nerve, Orteum e Colónia Calúnia têm-no escolhido para habitar o fosso aos seus pés nos concertos, mas Sebastião Santana também já esteve bem próximo de Arderson.Paak, Madlib e tantos outros. Uma carreira ascendente feita de muitos encontrões para furar multidões, mas sobretudo muito “tugastyle” na hora de gerir recursos.

1) MELANCIA: Quem é o Sebastião? 
SEBASTIÃO: 
Um puto que já não é assim tão puto, apaixonado por hip-hop, com a mania que é artista e a tentar ser um profissional de imagem, que definitivamente não sabe responder a uma pergunta destas.

2) M: Como é que a fotografia surgiu na tua vida? 
S: No meu caso, a edição de imagem surgiu antes da fotografia. Antes desenhava bastante e desde muito cedo que aprendi a usar o Photoshop para pintar alguns desenhos, por isso sempre me senti confortável com edição de imagem. Mais tarde comecei a fazer montagens idiotas com colegas da escola, skins para GTA (Lol) e banners para fóruns ou blogs onde discutia hip-hop. No secundário comecei a ganhar gosto por editar fotos que tirava com uma câmara digital básica. É engraçado, pois tu (Mafalda) deves ter sido uma das primeiras pessoas que conheci com uma DSLR digital. Tendo em conta que na nossa geração, a maioria das pré-adolescências foram marcadas por fotos das primeiras câmaras de telemóvel com qualidade terrível, fiquei pasmado com a qualidade de imagem (ou com o simples facto de existir profundidade de campo). Na altura o curso que estava a tirar não me estava a correr muito bem e acabei por mudar para Audiovisual e Multimédia, onde comecei a ter mais contacto com este mundo.

3) M: Podemos dizer que a música está diretamente relacionada com o teu trabalho. Qual é o maior desafio a fotografar um concerto? 

S: Provavelmente encontrar o melhor sítio e ter de furar uma multidão de pessoas para o fazer. Ninguém gosta de ser aquele douchebag que fura crowds e fica de câmara no ar à frente do pessoal, mas felizmente até existe quem seja bastante compreensivo. Nunca gastei muito dinheiro em lentes, por isso acho que é importante estar à vontade com o material que se consegue arranjar, experimentar e entendê-lo bem. No geral, se o concerto for mais agitado é sempre mais difícil: no concerto dos Onyx fartei-me de levar porrada, mas acho que valeu a pena.

4) M: E a gravar um videoclip? 

S: Aí já muda um bocado a situação: não é tão linear. Por muito que gostasse, ainda não arranjei uma fórmula perfeita para fazer um videoclip. Acabo por procurar inovar a cada trabalho com a condição de experimentar algo diferente. Às vezes posso experimentar uma técnica nova para mim e a cena não ficar tão perfeita, mas não me importo de o assumir. Visto que é um trabalho encomendado pelo artista, mas também uma colaboração contigo, que vai ficar eternamente associada à imagem dele, às vezes pode ser tricky para chegar a um consenso. Há artistas que sabem exactamente tudo o que querem, têm o video na cabeça e torna-se difícil chegar a essa mesma visão. Há outros que não têm ideia nenhuma, mas por gostarem do meu trabalho dão-me total liberdade criativa pra fazer o que quiser, à “confiança”. Ambos os casos podem ser complicados de gerir. O ideal para mim é o artista ter umas direcções base, para que juntos consigamos desenvolver um conceito que no final agrade a ambos. E claro, a nível de budget tentar fazer tudo com recursos limitados e ter de pensar fora da caixa, aquele tugastyle com que a maioria de nós se consegue identificar.

5) M: Para um apaixonado de hip-hop, qual é a sensação ao trabalhar de perto com nomes como Nerve, Orteum, Colónia Calúnia (...) e fazer parte do trabalho deles?  

S: Poder fazer parte do trabalho de artistas que cresci a ouvir, é sempre uma honra, apesar de no momento sentir que tenho o peso do mundo nos ombros. Depois há outro caso, que são os artistas da minha geração de quem eu curto, pois para além de ter um papel mais importante no que toca a desenvolver a imagem dum artista, que por vezes ainda não está 100% definida, acabamos por criar uma relação de amizade/trabalho mais duradoura e é sempre uma sensação fixe, pois de certa forma estamos todos na mesma missão.

6) M: É possível viver da fotografia/vídeo em Portugal? 

S: Está aí a million dollar question. Eu já vivo disto há algum tempo, mas às vezes é incerto. Há mil cães a um osso, num país onde está tudo na prega. 

Acho que a dica é mesmo uma pessoa agarrar-se a tudo o que conseguir e depois ir filtrando conforme se possa dar ao luxo.

7) M: O que andas a ouvir ultimamente? 

S: Continuo a acompanhar quase diariamente tudo o que sai da malta que eu gosto do rap lá de fora. Mas actualmente Griselda e Blah Records andam a matar tudo: Conway, Benny The Butcher, Lee Scott e Milkavelli devem ser os artistas actuais que mais sinto.

8) M: Com quem gostarias de trabalhar e ainda não tiveste oportunidade? 

S: Ainda há uns quantos artistas que cresci a ouvir e ainda não tive a oportunidade de trabalhar, mas sendo isto um meio tão pequeno, sei que os nossos caminhos se vão cruzar eventualmente, seja através do meu trabalho sozinho ou com ORTEUM. O que eu gostava mesmo era de trabalhar com alguns artistas maiores lá de fora. Há muitos MC’s lendários, já fora do circuito de major labels, que sinto que podia acrescentar algo ao trabalho deles. Lembro-me de quando tive nos Estados Unidos, ter dado o meu cartão ao Black Milk e ao Bushwick Bill e ter-lhes oferecido vídeos. Ninguém me ligou mas nunca se sabe né? 

9) M: Onde encontramos o Sebastião quando não está por detrás da câmara? 

S: Gostava de passar tanto tempo por detrás da câmara como passo a fazer reperages, planificações, reuniões ou em lojas de chineses. Gosto de acreditar que tenho uma vida, mas nos últimos meses não tenho feito muito para além de trabalho. No entanto se não tiver a trabalhar podes encontrar-me a fazer algo pouco produtivo acompanhado por boa música, seja no estúdio com os ORTEUM ou a vadiar com a o meu pessoal.

10) M: Deixa uma mensagem à MELANCIA e aos seus leitores.

S: Antes de mais nada, obrigado pelo convite e parabéns pelo vosso excelente trabalho que tenho visto crescer. Só tenho uma dica, para o pessoal da fotografia e do vídeo que está a ler: juntem-se,

colaborem, comuniquem. Isto é um meio onde é muito difícil chegar longe e atingir um nível de qualidade desejada sozinho. Temos de parar de nos ver uns aos outros como competição e começar a trabalhar juntos. Eu próprio vou fazer esse esforço.

www.instagram.com/sebaztiao

 PREFERES 

- Vídeo ou Fotografia? Vídeo.

- Cães ou Gatos? Gatos, all day everyday.

 

- Analógico ou Digital? Digital.

 

- Hip-Hop: Português ou Americano? Americano.

 

- Gorro ou Chapéu? Chapéu.

 

- Telefonema ou SMS? Telefonema a horas decentes.

 

- Noite ou Dia? Dia.

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