Ilustração
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Novembro 2019

Entrevista: RITA ALVAREZ

ilustrações: ALEJANDRA gARCIA

SAD EYES

CLUB

Alejandra Garcia, ilustradora mexicana, traz-nos composições lindas onde domina o uso de tons pastel. Inspirada pela figura feminina, apresenta-nos obras em que quase sempre a mulher é protagonista e, segundo a própria, pretende projectar a ideia de que as mulheres são as melhores do mundo.

1) MELANCIA: Quem é a Alejandra? 

SAD EYES CLUB: Sou ilustradora e designer freelancer. Sou de Monterrey, México, e tenho 27 anos.

2) M: Tens formação artística ou és autodidacta? Conta-nos o teu percurso.
S: Desde pequena que tenho aulas de desenho, pintura ou arte em geral, sempre tive esse interesse. Sempre desenhei, mas no ensino médio comecei a desenvolver o meu estilo e a aprender mais sobre o mundo da ilustração. No ensino médio tive a oportunidade de fazer um curso de desenho e pintura em Nova York no verão, que era como uma pequena janela para saber como seria estudar arte. Depois dessa experiência, percebi que a ilustração era algo que eu realmente queria fazer, mas no México não existe uma carreira tão específica e foi por isso que decidi ir para a faculdade nos Estados Unidos. Comecei a estudar design gráfico porque pensava que era isso que queria fazer mas, depois de 3 anos e de fazer outras aulas - como banda desenhada ou serigrafia -, dediquei o meu último ano de faculdade à ilustração. Depois de me formar, regressei à minha cidade natal e comecei a minha marca.

3) M: “Sad Eyes Club” é mais do que um portfólio... Como surgiu esta página? Porquê o nome?

S: A verdade é que foi tudo muito natural. Quando saí da universidade não estava certa quanto ao desenho, ainda estava a fazer mais trabalhos de design gráfico, mas depois em outubro decidi começar o inktober (2017). Comecei a perceber que as pessoas gostavam do que eu fazia e que me pediam prints ou autocolantes, por isso decidi fazer merchandising. Depois tive uma exposição e comecei a conhecer mais pessoas, comecei a colocar me no mercado e foi aí que tudo começou. Tenho a marca há dois anos.  A razão do nome “Sad Eyes Club” foi porque um amigo do colégio me chamava “a menina dos olhos tristes” e depois apercebi-me que, nas minhas ilustrações, desenhava sempre as pestanas para baixo, o que me dá a ilusão de ter olhos tristes ou caídos. Por isso, foi daí que veio o nome.

4) M: As tuas ilustrações são marcadas por linhas finas, tons pastel e (maioritariamente) pela figura feminina. Como descreverias o teu estilo? 

S: Não sei como definir o meu estilo, sinto que vai evoluindo. A única coisa que posso dizer é que gosto muito de usar repetição e detalhe. Algumas pessoas referem-se ao meu estilo como muito bonitinho ou muito de menina. Às vezes tento tornar as coisas um pouco mais neutras, mas no final o que eu quero sempre projectar é que as mulheres são as melhores do mundo e a minha marca é voltada para mulheres e homens que não são definidos por cores ou estilos.

5) M: Fala-nos do teu processo criativo. 

S: Quando comecei, usava-o como um diário ou uma terapia, nunca fui boa com palavras, por isso uso muito o desenho para me expressar. Mas ultimamente tento não tornar o meu trabalho  tão pessoal, quero apoiar causas, espalhar uma mensagem, por isso penso numa ideia, escrevo-a e depois procuro referências e começo a ilustrar. Às vezes eu ilustro primeiro em lápis e papel e depois passo para o meu iPad e digitalizo. Mas na maioria das vezes, vou directa ao iPad e faço tudo lá.

6) M: David Bowie é uma personalidade muito presente no teu trabalho. Qual o motivo? 

S: Adoro os anos 80, especificamente a música. David Bowie é um dos meus artistas favoritos e eu adoro como ele é andrógino. Identifico-me muito com a mensagem que ele transmite, ele dá muito poder às pessoas que são diferentes ou que querem ser diferentes e eu também quero transmitir essa mensagem.

7) M: O que pretendes despertar nas pessoas? Qual a mensagem que gostarias de passar? 

S: A principal mensagem que eu tento sempre transmitir é para que deixem sentir. No México, os sentimentos são muito tabu. Muitas pessoas pensam que mostrar algum sentimento é um sinal de fraqueza e a verdade é que não é assim. Sentir torna-nos fortes, torna-nos honestos e a vulnerabilidade é a coisa mais bonita do mundo. Só quero que todos tenham um espaço onde possam sentir as coisas e não se sintam restringidos.

8) M: Enquanto ilustradora freelancer, achas que já tens o “poder” de te manter fiel a ti e ao teu estilo ou sentes ainda é necessário fazer algumas cedências? 

S: Ufff, depende muito do cliente. A maioria das vezes são super flexíveis e muito respeitadores do meu estilo. Mas outras vezes tem de se seguir a regra “o cliente tem sempre razão”. O que eu tento fazer é explicar minha ideia e conectá-la com o que me pedem, muitas vezes isso ajuda a que entendam a minha visão e o meu estilo.

9) M: Se alguém pedisse para seres a sua mentora, o que lhe ensinarias? 

S: O medo é inútil. O medo pára, o medo paralisa, e a única coisa que faz é empatar-te. Eu tenho sempre medo, não posso negar, mas percebi que sempre que ultrapassava isso, as coisas tornavam-se muito melhores do que eu pensava. Também ensinaria que o conhecimento é poder, aprendam o máximo que puderem. A práctica real é que ajuda muito.  A verdade é que estes são conselhos que todos dão, mas poucas são pessoas que os seguem e eles fazem toda a diferença. Se aprenderes alguma coisa, tenta aprender entre 80% a 100%.

10) M: Destaca três das tuas maiores referências artísticas. 

S: David Hockney - tanto as suas pinturas como as suas fotografias. Xavier Dolan - a maioria dos seus filmes está muito relacionada com a minha forma de pensar e a mensagem que ele transmite é muito semelhante ao que eu quero transmitir com o meu trabalho. Ani Castillo - a primeira ilustradora da qual me tornei fã.

11) M: Tens algum projecto ou parceria de que nos queiras falar? 

S: Neste momento estou a criar mais produtos para abrir a minha loja online. Trabalho com músicos como Charlie Rodd e com marcas mexicanas como Acapella. A verdade é que me sinto muito feliz por trabalhar no México. Gosto de poder contribuir com algo para o meu país e para as pessoas que vivem aqui.

12) M: Deixa uma mensagem à MELANCIA e aos seus leitores. 

S: Todos podemos desenhar. Trata-se apenas de praticar e ter ideias inteligentes. A técnica muitas vezes não importa muito, é mais a mensagem que se transmite.

alejandragarciap.com

www.instagram.com/sadeyesclub_

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