ilustração & street art

Entrevista: MAFALDA JESUS

RITA

RAVASCO

Estivemos à conversa com Rita Ravasco, uma talentosa artista alentejana, que nos falou sobre o seu percurso no mundo da arte e sobre os seus processos de criação. Actualmente vive em Lisboa e colabora com várias entidades como a Sábado, o Gps, Soregra Editores, Book a Street Artist, entre outros… Estudou Artes Plásticas e para o desenvolvimento do seu trabalho utiliza diversas técnicas, começando na ilustração, passando pela fotografia, pintura e vídeo. Acredita que a sua capacidade de lidar com a pressão, o rigor e a exigência que tem consigo mesma, são o segredo para os bons resultados. Perde-te no mundo criativo da Rita.

1) MELANCIA: Quem é a Rita?
RITA: 
O meu nome é Rita Ravasco, nasci em 1989, sou natural de Mourão, uma bela vila no Alentejo onde vivi até aos 14 anos. Segui a área de artes na Escola Secundária Santa Maria em Sintra, ao terminar o ensino secundário ingressei em Artes Plásticas - Pintura e Intermédia no Instituto Politécnico de Tomar, que terminei em 2013. Atualmente vivo e trabalho em Lisboa, onde continuo a desenvolver os meus projetos na área das Artes. Em Abril/Maio de 2015, venci o primeiro lugar do concurso de Ilustração Contemporânea Portuguesa com o tema Passagens. Colaboro com a Sábado, GPS e Puz Color Zen, Jack&Kaos, Soregra Editores, Forbrain Snoezelen Room, Book a Street Artist, Melodraw, Morango Bar, entre outras... Acho que o meu trabalho é a minha carta de apresentação, penso que sou exigente comigo e com o que faço, mas para que aconteça esta exigência tenho que gostar mesmo do que estou a fazer, tem que haver algo que me cative, não vou desenhar um limão só porque sim, vou desenhar o limão porque vejo algo mais, não é apenas um limão.

2) M: O que te levou até ao mundo da arte?
R: O que me levou a este universo foi descobrir que conseguia criar algo novo com base da realidade existente e no meu universo pessoal. Costumo sempre dizer que o que me despertou este interesse e vontade de ir mais longe, foi uma simples brincadeira na primária com plasticina. Nunca fui uma criança muito extrovertida, gostava de ficar no meu canto e nesse dia, quando todos brincávamos com plasticina, acabei por criar um dinossauro, ainda tenho presente na memória a cor e a forma, era amarelo fluorescente e graças aquela “brilhante” criação, todos queriam brincar comigo, acho que neste momento, aos 5 anos de idade tive o primeiro contato com o universo artístico, ainda que de forma inconsciente, encontrei ali o meu lugar no mundo.

3) M: Onde fazes a diferença? 

R: Cada artista constrói a sua expressão, a sua linguagem plástica, neste ponto de vista conseguimos encontrar diferenças deliciosas ao apreciarmos vários artistas. Pode haver linguagem com que nos identificamos mais ou menos, podemos ainda encontrar um artista que veneramos de tal modo que, tudo o que faça nos desperta interesse. No meu entender cada espetador que aprecia, reconhece a linguagem de cada artista, mesmo sem ter certeza que aquele determinado artista que fez aquela obra, ele consegue reconhecer o autor mesmo sem confirmação apenas por observação, consegue reconhecer sinais que liguem aquela obra a um artista. Acho que é isso que diferencia, agora, se o meu trabalho tem esta característica é uma pergunta que só um espetador atento pode responder.

4) M: Destaca um trabalho teu e explica porquê. 

R: Uma missão complicada... Escolhi o Hério, um trabalho recente, no qual usei algumas técnicas pela primeira vez. Este trabalho surgiu por brincadeira, apenas para testar, uma mera curiosidade, aliás como quase todos os restantes personagens que tenho vindo a criar. Estes personagens estão ligados com o meu universo pessoal e artístico. Há um tempo atrás, deparei-me com algo que me chateava, conseguia desenhar e pintar sem dificuldade alguma, mas nunca me tinha confrontado a mim mesma com a criação de algo novo, algo que não tivesse referência em algo existente, criar de raiz, não fazer uma interpretação do que já existia, usar apenas o meu universo e as minha capacidades técnicas, algo que me levasse a sonhar. Desde pequena que sou doida por todo o tipo de colecionismo (principalmente brinquedos, o colecionismo é um elemento presente no meu trabalho). A criação destas personagens surge também em resposta a esta necessidade de colecionismo, crio estas personagens ainda que sem propósito concreto, elas não existem porque um cliente pediu, elas existem para me confortar, é como se estivesse a criar um exército de personagens fictícias, que tencionam aumentar e um dia dar-lhe uma nova forma, passar estas personagens para esculturas pormenorizadas, é algo que tenho vindo a trabalhar e que tenciono evoluir.

5) M: O que te inspira? 

R: O meu trabalho não segue uma linha única, os temas são diversos dependendo da intenção, uso sempre como referência fotografias tiradas por mim ou na maioria das vezes imagens retiradas da internet. Gosto de unir o real com o imaginário e por sua vez com o meu universo artístico e pessoal. O tema animais é algo sobre o qual gosto de trabalhar, pegar em imagens banais de animais que nos transmitem sempre algo de cómico, meigo, carinhoso e mostrar essa mesma imagem mas com outra mensagem. Os animais parecem com olhares tristes, por vezes cegos, olhos em espiral.... Ainda que os trabalhos aparentem cores alegres e vivas, a sua mensagem não é de alegria... A esta expressão também é comum juntar corpo humano, metade humano metade animal, retirar a alegria e naturalidade inocente de uma animal, aplicando-lhe a sobriedade do homem, talvez por isso eles se tornem tristes. Tal como na utilização de imagens de animais, a utilização da figura humana também é com referência em fotografia. Nós pessoas temos sempre a tendência de esconder algo com os olhos, tal como nos animais os olhos dizem muito sobre cada ser, em algumas das minhas ilustrações surge representações de figuras humanas mas de olhos vendados, há sempre um face oculta em cada um de nós. Tenho também um outro tipo de trabalho onde uso a figura humana, neste caso um projeto onde recorro à utilização de figuras públicas (imagens soltas da internet) e crio sobre as mesmas uma interpretação plástica, não alterando a ideia inicial de retratar um individuo, que no geral é reconhecido por todos, ainda que seja um simples e comum mortal, ganha outra dimensão por fazer parte do nosso senso comum. Um outro ponto relevante no meu trabalho é a expressão plástica que lhe é aplicada, como se o conjunto do trabalho fosse inacabado, apesar de ser um traço bastante expressivo resulta como uma linguagem inacabada, despreocupada e pouco trabalhada, como se tratasse de um registo de diário gráfico, onde vamos colectando imagens, desenhos, bilhetes e tudo um pouco, memórias e influências... Tenho também vários artistas que me inspiram, como Arthur Bispo do Rosário, Gabriel Orozco, Dulk, Etam Cru, Paul Neberra, Jim Mckenzie, Tim Burton, Michael Kutsche, entre tantos outros...

6) M: Que coisas são essenciais no teu dia-a-dia? 

R: A rotina, preciso que a rotina exista, preciso de silêncio, do meu silêncio acompanhado com música e os meus companheiros de trabalho Leonardo Tíbia, Belchior Maria e Gordon’s (cão e gatos, também eles surgem representados nos meus trabalhos). Preciso de estar naquele espaço, a fazer aquelas coisas, se isto não acontecer pode ser grave e durante a semana não há a produção desejada, o que destabiliza bastante.

7) M: Na tua opinião, que noção é que um artista nunca deve perder? 

R: Um artista não deve esquecer os seus ideais, não deve avançar com um trabalho se a ideia base for contra aquilo em que acredita só porque vai ser bem pago. É verdade que nesta área é difícil poder fazer estas escolhas e que todos os “clientes” devem sair impressionados ao máximo, mas o artista não pode envolver o seu trabalho em algo que não acredita.

8) M: Onde encontramos a Rita quando não está a desenhar? 

R: É difícil não me encontrarem a desenhar... Mas há pelo menos duas horas por dia que trabalho também com crianças e aqui nem sempre estou a desenhar, apesar de também o fazer nessas duas horas.

9) M: Qual é o teu lema? 

R: Acredito que consegues tudo o que queres e que as dificuldades só existem se tu quiseres. Basta haver persistência, disciplina, empenho e principalmente acreditares naquilo que mais queres e com o tempo, sem tu dares conta, já aconteceu.

10) M: Deixa um recado à MELANCIA mag e aos seus leitores.

R: Quero agradecer à MELANCIA mag por este desafio e a todos os leitores este momento expositivo, que só acontece por existirem muitos curiosos por aí...

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