tatuagem & ilustração

Entrevista: MAFALDA JESUS

bárbara
riddle

O que começou com a simples satisfação de uma curiosidade experimental, levou a um percurso autodidata enquanto tatuadora e, o resultado incrível, está à vista de todos. Influenciada por uma cultura musical alternativa, Riddle faz do seu trabalho uma balança dominada de contrastes de sombras e luz, servindo-se exlusivamente de tinta preta.

1) MELANCIA: Quem é a Bárbara?

RIDDLE: A Bárbara é uma rapariga de 23 anos que reside em Lisboa. Sempre teve interesse em muitas formas de arte diferentes e teve a oportunidade de experienciar várias ao longo do seu percurso académico, mas encontrou aqui a que mais gosta, no mundo da tatuagem.

2) M: Como surge o interesse pela tatuagem? O que foi mais difícil na aprendizagem?

R: O interesse pela tatuagem surgiu nos meus 15\16 anos. Partiu muito da influência musical da subcultura alternativa que eu consumia. Nessa altura, ouvia muita coisa à base do Punk, Metal e Hardcore - estilos que se relacionavam muito o mundo da tatuagem - e o meu interesse começou ao querer ser tatuada. Quatro tattoos mais tarde, quis experimentar fazer umas. Não comecei com uma intenção certa ou objetivo de carreira, na altura só queria experimentar em amigos e ver no que dava, sem expectativas. Não posso dizer que já ultrapassei a fase da aprendizagem, se é que algum dia essa fase se ultrapassa nesta área, mas diria que o mais difícil ao começar foi entender a relação da agulha com a pele e especialmente a questão milimétrica da sua profundidade.

3) M: Qual foi a sensação de tatuar pela primeira vez?

R: Foi uma sensação estranha mas muito positiva. A minha primeira tatuagem foi no braço de uma amiga e lembro-me de chegar ao fim e sentir-me feliz e realizada com o resultado, embora estivesse nervosa durante todo o processo.

4) M: Como funciona o teu processo criativo, desde a marcação até à finalização da tatuagem?

R: Depende um pouco se for um “flash” (desenho meu que eu posto no instagram) ou um “request” (alguém me pede para desenhar uma ideia). Com os meus flashes não existe necessariamente uma regra, é um processo mais natural e espontâneo. Quanto aos requests, os clientes costumam já enviar algumas referências daquilo que querem mas tento sempre redesenhar com o meu toque, de maneira a ser um desenho meu à mesma. Embora eu tenha sempre o desenho impresso ao lado enquanto tatuo, há sempre um pormenor ou outro que altero à medida que vou vendo o resultado na pele.

5) M: Quais são os tatuadores ou ilustradores que mais admiras e que de alguma forma inspiram o teu trabalho?

R: Quando comecei a tatuar, em 2016, o tatuador que mais me inspirava era o Arthur Voss, tive-o como grande referência. Ainda hoje o admiro, se calhar agora até mais, não só como tatuador mas como artista em geral. Neste momento existem muitos artistas pelo mundo que eu adoro e que inspiram
o meu trabalho, mas diria que o meu top 2 são o @ruco__, um tatuador italiano, e a @miedoalvacio, uma tatuadora do chile.

6) M: Já sentiste preconceito relativamente à tua profissão e às tuas tatuagens? Como lidas com isso?

R: Não diria que já senti preconceito quanto a esta profissão, mas sim falta de seriedade. Muitas pessoas olham para isto não como uma profissão séria, mas mais como um hobby ou uma profissão de “fase”, mas é um emprego tão legítimo quanto os outros.

7) M: Qual é o maior desafio profissional nesta indústria?

R: Para mim o maior desafio nesta indústria é o facto de, de certa forma, não haver muito espaço para errar. Em muitos empregos o erro é inofensivo, como por exemplo um bartender partir um copo etc. Ser tatuador é ter a pressão para dar o nosso melhor todos os dias e nunca menos.

8) M: Na tua opinião, o que é preciso para ser um bom tatuador?

R: Para ser um bom tatuador é preciso, acima de tudo, ter amor e respeito a esta arte. Hoje em dia há muita facilidade em comprar material e vejo cada vez mais pessoal a tatuar pelas razões erradas. Não basta gostar de desenhar, mas sim perceber a essência da tatuagem. É algo que não depende só do artista, mas também da pessoa que recebe a arte. É uma troca entre duas pessoas, onde ambas dão parte de si uma à outra. É algo que implica confiança e consciência.

9) M: Se conhecesses a Bárbara no início do seu percurso, que conselho lhe darias?

R: Fiz o meu percurso como autodidata e não é que me arrependa disso mas, se pudesse dar um conselho à Barbara do início, era que pedisse mais ajuda. Sou uma pessoa que tenta fazer tudo sozinha e na altura teria evitado certos erros e avançado mais rápido se tivesse pedido mais ajuda a pessoas experientes nesta área.

10) M: Deixa uma mensagem à MELANCIA e aos seus leitores.  

R: Tatuagem é das formas de arte mais bonitas que existe porque, como referi acima, é sempre uma colaboração entre o artista e o seu público. Não é algo teu nem meu, é nosso. É também das formas de arte mais curtas que existe. Um desenho, uma escultura ou um quadro duram milhares de anos, inúmeras gerações. Uma tatuagem dura o que uma pessoa durar, e morre com ela.

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