intervenção urbana

Entrevista: mafalda jesus

PREENCHER

VAZIOS

Natural de Valongo, Joana Abreu apresenta-nos o seu encantador projeto “Preencher Vazios”. Licenciada em Design de Interiores e a terminar o seu grau de mestre em Arte e Design no Espaço Público, afirma que é feliz a inventar coisas novas e a usufruir dos pequenos momentos que a vida lhe proporciona. Começou por reparar na falta de azulejos nas fachadas do Porto e decidiu que podia ajudar a preencher esses vazios. Encantem-se com o mundo da Joana!

1) MELANCIA: Quem é a Joana Abreu?
JOANA: 
A Joana Abreu, é licenciada em Design de Interiores pela ESAD de Matosinhos e neste momento encontra-se a terminar o grau de mestre em Arte e Design no Espaço Público, na Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto. É natural de Valongo, mas passa a maioria dos meus dias na cidade do Porto. Ao longo dos seus últimos anos, tem desenvolvido alguns projectos que fazem dela uma pessoa mais completa a nível pessoal e profissional. Gosta de estar constantemente a “inventar coisas novas” e a usufruir dos pequenos momentos que a vida nos proporciona. Não quer, nem se vê a sair de Portugal. Ama o Porto e o silêncio misterioso das suas ruas.

2) M: Como surgiu este projeto?
J: O projecto nasceu a partir dos meus percursos diários que faço no Porto. Em meados de Outubro de 2014 comecei a reparar que poucas são as fachadas do Porto que não sofrem a falta de azulejos. E isso inquietou-me. Então, o Preencher Vazios surge com o intuito de preencher esses espaços vazios as fachadas das casas e edifícios (inicialmente) do Porto. O revestimento azulejar português é considerado património nacional e é reconhecido internacionalmente como uma arte secular, afirmando-se até como uma das atracções turísticas de Portugal. O projecto pretende chamar atenção para estes pequenos detalhes que nos rodeiam diariamente, e surpreender os transeuntes com algo que não estavam habitados a ver durante o seu percurso, atribuindo pequenas mensagens de poetas portugueses que nos levam a reflectir durante o caminho que percorremos. Muito mais que uma intervenção artística, o projecto pretende chamar à atenção para a necessidade de preservar o património azulejar português que tem sofrido uma perda progressiva de azulejos nos últimos anos, provocada pelo desgaste natural do tempo, mas principalmente pelo furto que nos últimos tempos tem vindo a aumentar. Não pretendo arranjar solução para este problema, quero chamar atenção para tal, por isso é que o padrão é sempre o mesmo mas com cores chamativas e nunca preencho toda a fachada em falta. Porque antes era “add fuel to the fire” que além de ser extremamente comprido e meio “trava línguas”, toda a gente se enganava e esquecia-se de “to” ou “the”. Ficou “Add Fuel”. É mais pequeno e mais abrangente.

3) M: Desde o momento em que vês um espaço a preencher até ao resultado final, por que processos passas? 

J: No meu dia-a-dia ando sempre com uma fita métrica e com a câmara do meu telemóvel apontar para as fachadas. Quando vejo uma que tem potencial para intervir, tiro as medidas e registo o padrão do azulejo, assim como os azulejos que lá estão partidos para depois encaixar com o meu. Posteriormente, altero as cores do padrão em photoshop, imprimo em papel 80gr, colo no suporte em MDF, que o meu carpinteiro já cortou na medida, e finalizo com um acabamento em acrílico. É um processo muito rápido e seriado. Depois é só colar na fachada com uma cola de exterior de pressão.

4) M: Qual é o feedback das pessoas? 

J: O projecto é tem sido muito bem recebido e é muito gratificante receber o feedback das pessoas, faz-me perceber que o trabalho tem reconhecimento, e que sem a sua visibilidade o projecto não teria significado. Todas as intervenções têm uma hastag #preenchervazios, para que depois se consiga encontrar as fotografias partilhadas pelos transeuntes que são surpreendidos nas redes sociais. É também a partir desta partilha que consigo verificar em que estado se encontra a intervenção.

5) M: Que noção é que um artista não deve perder? 

J: Acho que um artista tem de “ter a noção” de que (quase) tudo já foi inventado, mas que ele um dia vai ter aquela ideia, que à tanto procura. E é a partir dessa ideia que ele tem de trabalhar e batalhar para se vingar neste mundo. O mundo da arte é difícil, temos de estar constantemente a inventar, para que não caiámos no esquecimento.

6) M: Que coisas são essenciais no teu dia a dia? 

J: O meu dia-a-dia é bastante preenchido devido aos horários rotativos do trabalho, mas sempre que consigo tento fugir da minha rotina. Ir à descoberta do meu Porto, é algo que adoro. Ainda no outro dia, sai do trabalho à meia noite e não consegui apanhar o comboio para casa. Fiquei pelo Porto à espera do autocarro. O Porto à noite, sem gente nas ruas, conseguia ver as fachadas, as montras das lojas, o ar da noite quente batia-me no rosto, tudo isto, um misturar de sensações, soube-me bem. Acabei o meu dia de uma maneira diferente.

7) M: Qual é o teu lema? 

J: Acho que não devemos pensar muito no futuro. Devemos sim viver um dia de cada vez e aproveitá-lo ao máximo. Não queiramos tudo de uma vez. Acho que o essencial é aproveitarmos as pequenas coisas que a vida nos proporciona. Eu tenho um trabalho vulgar onde recebo “dinheiro fixo” ao fim do mês. Depois tenho os meus projectos pessoais, o preencher vazios e convites de casamento (www.facebook.com/convitesdecasamentoporto) que trabalho com toda a dedicação e fazem-me uma pessoa mais completa. Ser feliz todos os dias, é o meu lema!

8) M: Deixa uma mensagem à MELANCIA mag e aos seus leitores. 

J: A nossa rotina diária acaba por ser um desafio na medida em que devemos procurar sair da nossa zona de conforto e expormo-nos a novas situações. Enquanto percorremos a cidade, a imagem que vemos e guardamos connosco acaba por se sobrepor às que já temos armazenadas, pois a informação do exterior é tanta que acabamos por não a conseguir filtrar correctamente. Para quem ainda não conhecia o Preencher Vazios, ele procura quebrar essa rotina visual que temos acerca da cidade e sensibiliza-nos a estarmos atentos a estes pequenos detalhes que nos rodeiam diariamente. Da próxima vez que fizeres o teu percurso habitual - lembra-te - vai por outra rua: deixa-te ser surpreendido. O preencher vazios anda pelo Porto e por Lisboa! Encontra-o e partilha as tuas fotografias com a hastag #preenchervazios.

www.facebook.com/preenchervazios

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