ilustração

Entrevista: MAFALDA JESUS

Pedro
podre

Mais do que nunca, vivemos numa era de ansiedade, stress e caos generalizado - assim como as personagens do imaginário de Pedro Podre, ilustrador Portuense de 31 anos que se inspira nas suas próprias experiências e as confessa na sua arte. Pedro brinda-nos com um universo hipnotizante de cenários ruidosos e decadentes onde reina, brilhantemente, o surreal.

1) MELANCIA: Quem é o Pedro?

PEDRO: Sou um pintor e ilustrador de 31 anos do Porto. Gosto de desenhar e cozinhar, ir a tascos baratos e colecionar figuras.

2) M: Porquê “Podre”?

P: Surgiu de um anagrama de Pedro. Adotei este nome por volta de 2012, na altura gostava de desenhar personagens deformadas e monstros (ainda gosto). Achei que era um nome que condizia com o tipo de imagens que andava a produzir.

3) M: Lembras-te do momento em que olhaste para um desenho teu e reconheceste o seu potencial? Conta-nos como começou esta aventura no mundo da ilustração.

P: Em relação ao potencial, não sei bem. Desde pequeno que sempre gostei de desenhar, mas durante muitos anos nunca encarei a cena com seriedade, fazia-o por diversão. Tive, também, fases em que parei de desenhar por insegurança ou insatisfação. Mas houve uma altura em que comecei a receber algum feedback positivo e alguns convites. Acho que me deu algum alento e fez-me perceber que talvez pudesse fazer algo mais com o desenho.

4) M: O teu trabalho apresenta-nos (quase sempre) um rosto surreal e um ambiente caótico. Quem são estas personagens ansiosas e inseguras?

P: Acho que são personagens que me representam sempre um bocadinho, são alegorias ao meu estado de espírito e à minha maneira de ver o mundo. Vivemos numa era de muita ansiedade e incerteza, acho que isso também contribui para o mood das personagens. O meu trabalho pessoal é bastante biográfico e confessional e, mesmo que esteja a ilustrar algo que não esteja diretamente ligado a mim, as personagens têm sempre um bocadinho da minha personalidade nelas.

5) M: Conseguiste criar um estilo muito próprio, em que o real se mistura com o surreal e a luz e a cor têm um papel fundamental. O que te inspira?

P: Gosto muito de Banda Desenhada, Manga, Animação, Graffiti, Lowbrow, Realismo Americano, Expressionismo, entre outros. Também gosto muito de filmes distópicos com cenários decadentes e ruidosos, e de muitos filmes de culto dos anos 80 e 90. Acho que as imagens que produzo bebem todas um bocadinho daí.

6) M: Os detalhes e pormenores também se destacam. Para além de muita paciência, o que é essencial para ficares satisfeito com um trabalho?

P: Para mim é mesmo essencial que conte uma história de forma original (o original é relativo, mas que haja um esforço por não ser óbvio). Tento que a
minha intenção não tenha logo uma leitura imediata mas que, através dos elementos peculiares que insiro, o público consiga ter alguma leitura da minha 06 ideia, das coisas com que me identifico ou com o meu estado de espírito. Quando não gosto da ideia que tive, por muito que me esforce na execução, não vou ficar satisfeito.

7) M: Qual é a sensação de levar o teu trabalho para o espaço urbano e de o partilhar com o mundo?

P: Às vezes tenho sentimentos divididos. Gosto de pintar coisas em grande escala porque me sabe bem ver uma imagem final imponente, que interaja com o espaço que a rodeia. Também gosto muito de pintar em sítios abandonados, gosto de explorá-los. A sua decadência, muitas vezes, completamenta a minha imagem. Em relação ao espaço público, às vezes tenho algumas reticências. Quando aceito uma intervenção sei que, à partida, vou estar um bocadinho limitado a fazer algo com que as pessoas se “identifiquem” de forma mais imediata. É complicado gerir o que deve ou não estar no espaço público porque está sempre à vista de toda a gente e é impossível agradar a todos.

8) M: Consegues viver apenas da ilustração e da pintura? É o teu trabalho a tempo inteiro?

P: Este ano (2020) é o primeiro ano em que estou a fazer só isto, tive sempre outros empregos em paralelo. Mas para já acho que está a correr razoavelmente bem. Nos dois anos anteriores trabalhei a pintar azulejos. Não considero viver da pintura porque era um bocadinho mais impessoal mas, se calhar, também conta.

9) M: O que é essencial no teu dia-a-dia?

P: Café, fumo, pão com queijo e sumo. Se possível, também gosto de ter um bocadinho de tempo só para mim à noite, seja para ler ou ver algum programa, acho que é importante absorver coisas com regularidade.

10) M: Deixa uma mensagem à MELANCIA e aos seus leitores.

P: Quero agradecer muito o convite e a oportunidade de participar, fazem falta publicações destas! Aos leitores desejo muito sucesso, seja qual for a área em que estão empenhados. É importante acreditar e continuar 15 a insistir.

www.instagram.com/pedro.podre

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