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Novembro 2019

ENTREVISTA: rita alvarez

Fotografias: catarina maia

o meu

útero

Catarina Maia é uma mulher como todas as outras mas com um grande objectivo: ajudar as mulheres a perceberem que todas temos corpos e vontades diferentes, que a sexualidade é algo positivo e natural e que, “anormais, só mesmo as dores menstruais”. E foi precisamente esta questão que fez nascer o “O Meu Útero”, um projecto que nos fala tranquilamente e sem tabus do processo mais natural e, ao mesmo tempo, incrível do nosso corpo: a menstruação.

1) MELANCIA: Quem é a Catarina?
CATARINA: A Catarina é uma qualquer jovem de 27 anos que revira os olhos às frases feitas, não tem paciência para pessoas que têm medo de úteros e não quer acreditar que em pleno século XXI ainda se ache que sofrer horrores durante o período é normal. Ainda assim é uma romântica, acha que o amor vence (quase) tudo e sonha em mudar o Mundo.

2) M: Conta-nos a tua história: o que te levou a começar o “O Meu Útero”?
C: Primeiro, descobri que tenho o útero invertido. Depois, descobri que tenho ovários poliquísticos. Depois, que tenho adenomiose e endometriose. Quando falava com amigos sobre isto, dizia que “enfim, o meu útero é especial”. A verdade é que há muitos úteros “especiais” e eu achei que se devia falar mais sobre isso. Esses úteros têm de saber que não estão sozinhos e que não há vergonha nenhuma nisto. Como gosto de escrever, comecei um blog para partilha de informação.

 

3) M: Qual o propósito do teu projecto? O que gostarias de alcançar? 

C: Quero munir de ferramentas quem está no mesmo barco que eu, para que esta jornada possa ser mais tranquila. Quero que as minhas filhas saibam ler o que lhes diz o seu ciclo menstrual e que os ginecologistas delas compreendam o que elas dizem. Quero agitar as consciências para que quem tem de passar por isto possa receber o apoio que merece.

4) M: “Dores menstruais não são normais”. Arrisco-me a dizer que este é o teu lema. Sentes que, actualmente, as pessoas vão ganhando esta noção ou ainda é um grande estigma a abater? 

C: Sim, acho que se pode dizer que esse é o meu lema. Hoje em dia já começa a haver mais informação, sobretudo para quem anda com atenção às redes sociais. Mas ou não é suficiente, ou é desinformação. Ainda impera a ideia de que sofrer na menstruação é normal, de que a mulher nasce para se sacrificar todos os meses. Isso é perpetuado em todo o lado. Não só socialmente como também entre a comunidade médica. Ainda há muito trabalhinho pela frente.

5) M: Como tem sido o feedback ao teu projecto? 

C: O feedback que me chega tem sido sempre muito positivo. Há até profissionais de saúde a recomendarem a minha página a quem tem endometriose. Fico feliz.

6) M: Deduzo que, tal como muitas mulheres, tenhas passado pela experiência de ver as tuas queixas a serem desvalorizadas. Como contornaste essa desvalorização e conseguiste que te levassem a sério?

C: Nunca fui desrespeitada nesse sentido, mas é frustrante ter a certeza de que algo está muito errado com o nosso corpo e sair do consultório médico a achar que se calhar é mesmo suposto ser assim. Vários médicos, em contextos diferentes, negligenciaram completamente os meus sintomas. A certo momento, comecei mesmo a mencionar o nome “endometriose” nas consultas, mas não serviu de nada. Até que pensei que devia haver uma associação em Portugal e, felizmente, depois de alguma pesquisa encontrei a MulherEndo. Pedi-lhes que me ajudassem e encaminharam-me para um médico especialista. E foi aí que obtive as respostas que procurava.

7) M: Revoltou-me muito (infelizmente não posso dizer que me chocou) o episódio que relataste nas tuas stories e que envolveu uns “senhores” que mandavam piropos a quem passava, acabando numa tentativa de agressão falhada para contigo. Que medidas achas que devem ser tomadas para acabar com este tipo de comportamento? 

C: Obrigada pela compreensão, fiquei muito nervosa naquela fase. Eu acho que acabar com estes comportamentos é um processo longo. Na minha opinião, passa por repreender assertiva e respeitosamente quem os faz. A repreensão pode ser feita por quem é alvo do comentário ou quem presencia a situação. Não faríamos o mesmo se, por exemplo, um vizinho atirasse lixo para o nosso quintal? Acho que é um paralelismo interessante de se fazer. Trata-se de civismo. Ninguém morre se os vizinhos estiverem constantemente a atirar lixo para o meu quintal. É chato, tenho de ir lá limpar, podem ficar algumas marcas. Mas é humilhante, sobretudo quando eu acho que é por culpa minha ou que, por ser mulher, é isto que é expectável. “É isto que se tem feito sempre, qual é o mal de se continuar?” O mal é que, de repente, apercebemo-nos de que ninguém tem nada que vir sujar o nosso quintal (ou o quintal dos outros), fartamo-nos de andar sempre a limpar a porcaria ou de fingir que não a vemos e começamos a encarar estes actos invasivos de outra forma. Quem atira o lixo se calhar também nunca questionou porque o faz, por isso vamos fazê-los perceber que é desagradável, que não gostamos, que não existe qualquer consequência desse acto que não seja a inferiorização. O problema desse episódio que referes é que os homens foram muito desrespeitosos quando os repreendi e eu não estava preparada para lidar com isso. Perdi rapidamente o controlo e desatei a espingardar asneiras e insultos. Ia levando uma bofetada na cara mas consegui desviar-me e fui  apresentar queixa à polícia. Também não voltei a passar naquela rua tão cedo, confesso. Para a próxima acho que já consigo manter a calma e levar a minha avante. Vamos aprendendo.

8) M: Ainda no mesmo tópico: existem muitas mulheres que não enfrentam este tipo de situações por medo de algum tipo de retaliação. Se pudesses aconselhar essas mulheres, o que dirias? 

C: Penso que começa a chegar um momento em que já estamos fartas de baixar a cabeça e engolir o sapo. O medo da retaliação faz sentido, porque
é um risco que corremos. Mas já diz o Gabriel o Pensador: “muda, que o medo é um modo de fazer censura”. A música chama-se “Até Quando?”, já é antiga e passa uma mensagem muito forte e actual, que responde à questão que me colocas. Recomendo que toda a gente a oiça. As represálias não passam de censura. É claro que não devemos colocar-nos deliberadamente em perigo, convém que haja gente por perto, que seja de dia. E, se houver tentativa  de agressão física ou verbal, há que chamar logo a polícia. Se possível, tirar fotografia ao agressor e ir até ao fim com a queixa. Às vezes não temos coragem, não nos apetece, não faz mal. É um passo de cada vez. De qualquer maneira, já várias mulheres me contaram que, depois de reagirem, os autores dos comentários pediram desculpa. Eu acho que isso é um óptimo sinal.

9) M: Tens tocado em assuntos fora do panorama inicial do teu projecto, tais como a fertilidade e a sexualidade. O que podemos esperar ver explorado no “O Meu Útero”?

C: É no instagram que me sinto mais à vontade para extravasar. O conteúdo é mais instantâneo, mais pessoal, e a partilha vai sendo recíproca. À medida que as pessoas me vão conhecendo, vão demonstrando maior interesse em saber o que penso sobre temas que, normalmente, estão ligados: não podemos falar de endometriose sem mencionar a infertilidade, o tema da menstruação está relacionado com o da fertilidade. A fertilidade também está ligada à sexualidade e, neste ponto, o erotismo e a censura também podem entrar na conversa. Vou lendo a propósito destes assuntos e apresento os livros e conclusões que vou tirando. Gosto muito de encarar o sexo e o prazer de uma forma leve e descontraída, acho que fez maravilhas não só pela minha vida sexual, como também pela minha saúde mental, e pode fazer o mesmo com outras pessoas. Faz-me sentido colocar em cima da mesa questões relacionadas com orientação sexual, da identidade de género, da igualdade de géneros, de ecologia. Para além destes, creio que o espectro de temas abordados não irá alargar-se muito mais.

10) M: Publicas muitas vezes mensagens de agradecimento de pessoas a quem a tua página realmente ajudou. Lembras-te da que mais te tocou? 

C: Nos primeiros dias deste ano recebi uma mensagem de uma mulher com a fotografia de um teste de gravidez positivo e umas palavras agradecimento. Tratava-se de uma mulher a quem já tinham dito para desistir mas que, com a informação que foi obtendo, foi capaz de recuperar saúde física e talvez até emocional. É claro que há diversas questões a ter em conta para a situação dela em específico e o meu trabalho não é ajudar mulheres a engravidar, embora saiba que isso possa vir por arrasto. Mas é incrível saber que a existência deste projecto fez toda diferença para que ela agora tenha um bebé. Fiquei com um nó na garganta e tudo.

 

11) M: O que não pode faltar no teu dia-a-dia? 

C: Música! Sobretudo italiana e francesa

12) M: Deixa uma mensagem à MELANCIA e aos seus leitores. 

C: Temos tendência para achar que o nosso espaço de acção é muito limitado, mas isso é só impressão nossa. Existem muitos mundos à nossa volta em que a nossa intervenção faria toda a diferença. Escolham um e façam alguma coisa, o que quer que seja, mas façam com intenção.

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