ilustração & street art

Entrevista: JULIANA LIMA

NINA

PANDOLFO

Com traços suaves e de personalidade, ela consagrou-se como um dos nomes femininos mais fortes da arte contemporânea brasileira. Esta talentosa e doce artista, com obras espalhadas pelas ruas da cidade de São Paulo e em galerias pelo mundo, revela-nos nesta entrevista histórias sobre as suas referências e o seu percurso profissional. Inspira-te e vem connosco nesta viagem lúdica ao mundo da Nina, entre meninas de olhos grandes e expressivos, gatos e vagalumes.

1) MELANCIA: Quem é a Nina Pandolfo?
NINA: 
Uma mulher realizada profissionalmente, pois faz o que mais ama: pintar. Levar alegria, amor, um pouco de nostalgia, um pouco de leveza em tempo em que o mundo corre sem sair do lugar e acaba por perder pequenos detalhes da vida que nos fazem parar para sonhar. Uma mulher também realizada na vida pessoal, por ser quem sou.

2) M: Quando percebeste o teu gosto pela Arte? 
N: Sempre gostei muito de pintar e desenhar. Quando estava no 5º ano (mais ou menos com 11 anos), a minha professora de artes disse que meu trabalho se destacava muito dos outros alunos, e com isto comecei a perceber que realmente era diferente. Quando tinha 14 anos, decidi fazer o colegial técnico para já começar a ter contato com a profissão em que eu iria investir. Mas como uma adolescente fiz a inscrição para o vestibulinho (prova de seleção de alunos) para várias áreas bem diferentes umas das outras, quando chegou o dia de ver o resultado, estava ansiosa e com medo, mas minha mãe disse para eu escolher a profissão em que eu colocasse amor, que eu amasse fazer, pois assim teria a satisfação pessoal e o reconhecimento dos outros, pois o amor é notável, é o diferencial, e que o dinheiro não é o mais importante e sim a felicidade. Foi então que me decidi pela arte.

3) M: Fala-nos sobre o teu início com projetos de street art e como foi fazer parte do grupo que levou o graffiti às galerias de arte e museus. 

N: Bem, na verdade comecei a pintar telas desde pequena. Aos 12 anos, experimentei fazer teatro de rua, foi então que passei a olhar para as ruas de uma forma diferente, como um palco, como um suporte para a arte, independente da linguagem. Isto ocorreu no final dos anos 80, começo dos 90. Comecei a reparar em alguns “desenhos” nas paredes, que, até então, para mim, eram pessoas que pintavam quadros como eu mas que estavam a utilizar o espaço urbano para interagir diretamente com o público. Não tinha noção alguma do universo do Hip hop ou do graffiti e na época não tínhamos internet, revistas especializadas ou lojas do ramo. Foi então que iniciei a minha busca para conhecer a técnica e desenvolver o meu trabalho nas ruas de São Paulo. Como eu pintava telas antes de pintar na rua, para mim foi mais ou menos natural, normal, pois eram duas técnicas que eu já usava, duas linguagens que eu vivia diariamente.

4) M: Tens traços muito únicos, delicados e bastante femininos. Como caracterizas o teu trabalho? 

N: É um pedaço de mim. Muitas vezes vejo uma expressão minha numa das minhas pinturas, um jeito de morder os lábios, ou um sonho que tive, enfim. Eu e meu trabalho somos iguais. Quem me conhece percebe a semelhança. Consegue ver que existe uma ligação. O meu trabalho é feito com todos os sentimentos bons, não consigo pintar ou criar se estou triste ou com problemas. E quando isto acontece, tento mudar os meus sentimentos para que isto não seja transferido para a pintura.

5) M: Observamos temas recorrentes nas tuas obras como a infância e a natureza. Fala-nos um pouco sobre as tuas referências e inspirações.

N: Creio que todas as mulheres têm um pouco da infância dentro delas. Ao mesmo tempo que somos empresárias, donas de casa, adultas... gostamos das coisas doces e meigas da infância, do lúdico, de perfumes, de cores... Acho que as mulheres têm isto mais do que os homens. Todas as minhas inspirações vêm da minha vida, de lugares em que passo, das pessoas ao meu redor, de sonhos, de coisas que vejo na rua, de histórias que outras mulheres contam. Gosto de ver mulheres fortes, guerreiras, que sorrirem ao verem um filhotinho de animal, ou que ficam com os olhos a brilhar perante uma linda caixinha de música com uma bailarina.

6) M: As tuas ilustrações apresentam personagens. Fala-nos sobre o teu processo criativo, se tem referências de pessoas reais e como concilia com o universo lúdico bastante presente nas tuas obras. 

N: Muitas vezes dou por mim a ver as pessoas ao meu redor como personagens. O meu universo mistura-se muito com a minha realidade. Acho que as pessoas criativas são como grandes antenas que a cada momento recebem uma nova influência, uma nova inspiração, independentemente de estares a criar algo ou não. Vivo o que pinto e pinto o que vivo.

7) M: Destaca um projeto teu de que te orgulhes e justifica a tua escolha. 

N: Puxa, eu sinto orgulho de todos os projetos em que me envolvo. Se não for para me orgulhar, não tenho motivos para fazê-los.

8) M: Sendo uma das pioneiras da street art no Brasil, gostaríamos de saber como vês a atuação das mulheres no cenário de street art nos dias de hoje. 

N: Vejo que as mulheres têm-se posicionado em áreas que antes eram consideradas masculinas, e isto também aconteceu no graffiti. A quantidade de mulheres na street art tem aumentado assim como tem subido o número de mulheres como motoristas de camião, ou na política. Somos ainda a minoria, mas já aumentámos a quantidade. As mulheres estão a perder o medo, a assumir os seus gostos e preferências por determinadas profissões e a mostrar que têm tanta capacidade quanto os homens.

9) M: Apesar de teres sido casada com um dos Gémeos [Gustavo e Otávio Pandolfo, pioneiros do graffiti no Brasil], construíste a tua carreira com o teu talento e estilo próprio. Entretanto, gostaríamos de saber como te sentes pelo facto de o Otávio ser um artista atuante no mesmo ramo do que o teu e ser uma referência mundial? 

N: Vivemos 21 anos juntos, mas hoje somos somente bons amigos. Tenho orgulho da pessoa e do profissional que ele é.

10) M: Já participou em diversos projetos e exposições internacionais, em países como Alemanha, Cuba, Escócia, Grécia, Tokyo, EUA e Grécia... quando começaste a graffitar as ruas de São Paulo em 1992, imaginaste todo este sucesso? Como te sentes em relação as tuas conquistas? 

N: Bem, quando decidi ser artista, nunca imaginei onde chegaria. E cada conquista, cada país, cada projeto que faço é um grande presente para mim. Sinto-me mais do que abençoada por Deus por ter conhecido todos estes lugares, por ter levado o meu trabalho a tanta gente, por pessoas importantes admirarem o que faço. Sinto-me muito, mas muito abençoada por Deus e honrada em saber que hoje, algumas escolas do Brasil, estudam o meu trabalho. Ainda é muito estranho também, mas vejo como uma bênção de Deus tanto reconhecimento.

11) M: Na tua opinião, que noção é que um artista não deve perder? 

N: Um artista nunca deve deixar o seu universo ser dominado por críticas. Nunca deve perder aquilo que um dia o motivou a ser artista.

12) M: Que coisas são essenciais no teu dia a dia? 

N: Estar com os meus animais e pintar. Não consigo ficar muito tempo sem pintar ou criar novas histórias.

13) M: Qual é o teu lema? 

N: Viver com amor, independente das circunstâncias.

14) M: Deixa uma mensagem à MELANCIA mag e aos seus leitores. 

N: Se fossemos como as crianças, que não sentem medo de arriscar, de tentar, de olhar de outra forma, com certeza viveríamos com menos stress, menos depressão...

 

www.facebook.com/NinaPandolfoOficial

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