ILUSTRAÇÃO & STREET ART

Entrevista: juliana lima

KRUELLA

D'ENFER

É comum encontrarmos artistas que inventam pseudónimos para si com objetivo principal de trabalharem a sua liberdade de expressão. Pois bem, temos aqui mais um destes casos, de sucesso. A Ângela criou uma personagem chamada KRUELLA D’ENFER para sentir-se capaz de fazer tudo o que quisesse num mundo à parte. Pois bem, ao ver a sua arte temos de concordar que de facto Kruella consegue ilustrar com perfeição o lado sonhador de Ângela. Entre connosco neste universo misterioso desta artista de 27 anos que não tem medo de arriscar e anda a espalhar muitas cores por aí.

1) MELANCIA: Antes de falarmos da tua arte, queremos saber: quem é Ângela Ferreira?
KRUELLA: 
Sou uma pessoa misteriosa e essa é a minha melhor característica porque permite a quem não me conhece achar uma coisa e quem me conhece mesmo bem achar outra. Acho piada a isso e gosto de conhecer pessoas que também são assim.

2) M: Queremos saber o porquê de escolher Kruella d’Enfer como o teu pseudónimo?
K: Além de escolher só um nome, queria criar uma personagem que me fizesse sentir capaz de fazer tudo o que quisesse num mundo à parte. A Ângela vive muito num mundo à parte, está sempre a sonhar e tem um défice de atenção enorme. A Kruella consegue ilustrar na perfeição esse lado sonhador e misterioso da Ângela. Complementam-se.

3) M: Qual a tua formação e como começou o teu gosto pela arte? 

K: A minha adolescência foi um período muito confuso na minha vida, no que toca a encontrar e a dedicar-me a alguma coisa com que me identificasse. Tinha alguns elementos que me interessavam, música, desenho, animação, design, moda, mas nunca conseguia juntá-los ou focar-me a 100% e perceber o que é que servia para mim. Em nenhuma das tentativas de encontrar um curso superior ou um primeiro emprego me sentia realizada, mas acredito que isso nunca acontece à primeira, principalmente, nessa fase da vida. Até que descobri a ilustração a meio de um curso superior nas Caldas da Rainha em 2009/2010, decidi arriscar mas com muitas poucas certezas. A única certeza que tinha era de que gostava de desenhar, o resto era uma incógnita.

4) M: E o teu interesse no mundo da arte urbana como surgiu? Conta-nos como foi a tua entrada neste universo.

K: A arte urbana veio por acréscimo, acho que foi crescendo juntamente com a minha carreia na ilustração. Comecei a pintar por diversão nas Caldas, mas não havia qualquer ligação à arte urbana como há hoje em dia... Talvez mais ao graffiti, nunca eu fazendo parte do movimento. À medida que via a arte urbana a crescer em Portugal, ia sendo convidada para projetos desse género ou eu auto-convidava-me para esses projetos porque era algo que me interessava para a evolução do meu trabalho.

5) M: Temos visto o teu nome e os teus trabalhos ganharem cada vez mais espaço na cena da arte portuguesa emergente. Convite de marcas para participação de projetos especiais, exposições, parcerias... Quando começaste, imaginavas atingir tão rapidamente este sucesso? Como é que te sentes?

K: Obviamente que no início as coisas custam a arrancar quando és freelancer. O meu caso não é diferente, mas fui percebendo como funcionava, muito pela forma como divulgava e promovia o meu trabalho. Nas alturas em que há menos trabalho, tinha de ir sempre a correr atrás, mesmo quando não tinha respostas, criava os meus próprios projetos. Muitos deles nunca chegam sequer a ver a luz do dia, mas pelo menos não parava, ia mostrando à minha muito pequena comunidade, nas redes sociais, o meu processo, as minhas ideias, e o mais importante, que estava motivada a criar. Só dessa maneira eu consegui chegar aos ouvidos das marcas com que trabalhei, às galerias, aos festivais, etc. Portanto, isso só me deixa feliz e com a sensação de que todos os esforços e sacrifícios iniciais compensam porque sinto que cada vez mais estou onde quero estar.

6) M: Observamos um toque surreal na tua arte. Fala-nos um pouco sobre este mundo que habita nas tuas ideias e que colocas cá para fora através das muitas cores e traços bastante característicos nos teus trabalhos. 

K: Eu nasci numa pequena aldeia perto de Tondela, não havia muitos miúdos da minha idade para brincar, portanto ou brincava com os meus irmãos mais velhos, que nem sempre tinham paciência para mim, com dois ou três amigos ou sozinha. Desde cedo criava as minhas próprias histórias e cenários e sempre me chamou a atenção o surreal, o estranho, as fábulas, os mitos da minha aldeia, as criaturas que imaginava que pudessem existir, criava mundos na minha cabeça e perdia-me na imaginação. Isso é evidenciado nas minhas ilustrações, e é a maneira que uso para criar uma intimidade e ligação com o público, não só pela composição, criaturas ou cenários mas as cores que uso também refletem a forma como eu sonho e penso.

7) M: Como funciona o teu processo criativo? Desde a ideia e inspiração até à escolha dos materiais, cores e finalização da obra.

K: Começo por construir uma imagem mental da mancha que quero criar e a partir daí rabisco qualquer coisa no caderno que normalmente só eu é que percebo. Se tiver de fazer uma ilustração digital, costumo fazer muito mais pesquisa de elementos ou referências em livros ou na internet, nomeadamente, no Pinterest, que é uma das ferramentas que mais uso para pesquisa. Num trabalho original, seja tela ou papel, não costumo perder muito tempo em pesquisas, desenho directamente porque tenho muito mais à-vontade a desenhar à mão do que no computador e costuma ser mais imediato. As cores são quase sempre as mesmas, os amarelos, turquesas, rosas, azuis estão sempre lá, isso é uma das formas que eu uso para caracterizar melhor o meu trabalho e manter uma certa coerência.

8) M: Sabemos que já participaste em exposições coletivas e a solo a nível mundial, desde o Brasil à Austrália. A internacionalização é um objetivo teu? Fala-nos sobre estas experiências. 

K: Sem dúvida que sim. Adoro Portugal mas sinto que é como uma aldeia. É super importante para um artista como eu, dar a conhecer o seu trabalho, fazer com que a comunidade que te acompanha não seja só o teu grupo de amigos, não ficar presa ao que já se conhece e aos mesmo clientes ou tipo de trabalhos. Há imensas coisas a acontecer de que gostaria de fazer parte, que ainda estão por descobrir também, e isso é bom porque se criam novas dimensões intelectuais a nível artístico e pessoais ao fazer e mostrar o teu trabalho em qualquer parte do mundo. A exposição coletiva no Brasil acaba por ser uma dessas situações em que o meu trabalho chega a um público novo e a partir daí surgem novos convites para outros trabalhos, outras exposições.

9) M: E, já agora, que objetivos gostarias de alcançar no futuro? 

K: Mais exposições a solo, murais pelo mundo, residências artísticas e muitas colaborações com artistas e marcas que admiro.

10) M: Como todo o artista, imaginamos que também tens as tuas inspirações. Destaca as tuas principais referências. 

K: Coisas relacionadas com a astrologia, astronomia, biologia, mitologia, botânica, ilustrações científicas. Pesquiso e tento comprar, sempre que posso, livros relacionados com estes temas. Hoje em dia a ferramenta mais imediata é a internet e é uma mais valia nos tempos que correm. Consigo ir muito mais além quando faço uma pesquisa mais profunda online sobre algum destes temas e encontrar coisas de que nem estava à espera, com a consequência de gastar o triplo do tempo, portanto tenho que ter sempre algum cuidado quando me perco em pesquisas infinitas. A música também é uma das minhas maiores inspirações porque me faz criar cenários mentais para vários tipos de mood. Para mim, música + visuais é o combo perfeito, quando crio uma ilustração lembra-me sempre uma música ou quando ouço uma música que gosto crio instantaneamente o visual.

11) M: Elege o trabalho que mais te marcou e diz-nos porquê. 

K: O meu primeiro mural a convite de um festival internacional foi o que mais me marcou. Estava super ansiosa com o convite para participar no “Bukruk Festival” que até pensei em recusar. No final, acabou por ser uma das melhores aventuras que tive na minha vida, pela organização que nos tratou super bem, por ter sido em Bangkok, pelo grupo de artistas que eu admirava e com que depois fiz amizade e pelo resultado do meu trabalho. Correu tudo tão bem que hoje penso que não tenho de ter medo de arriscar em fazer coisas deste género, porque só traz coisas positivas: viajar para sítios novos, conhecer pessoas novas, mostrar a mais gente o teu trabalho.

 

12) M: Deixa uma mensagem à MELANCIA mag e a todos os seus leitores. 

K: Não tenham medo de arriscar, mesmo que as vossas decisões não corram da maneira que esperavam, isso levará sempre a algo positivo e faz com que sejam melhores da próxima vez. Não tenham medo de ser diferentes ou estranhos aos olhos das outras pessoas, nem tenham medo das críticas, é a melhor maneira de nos conhecermos a nós próprios e de nos tornarmos cada vez mais fortes. Obrigada MELANCIA! 

www.kruelladenfer.com

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