PINTURA & street art

Entrevista: MAFALDA JESUS

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JORGE

CHARRUA

Jorge Charrua é licenciado em Pintura e começou a fazer grafitti desde muito novo. A sua arte é uma harmonia perfeita entre temas contemporâneos e a pintura clássica e navega desde pinturas a óleo, até trabalhos urbanos, aplicados em paredes de grandes formatos de um impacto impressionante. A figura humana é predominante e vai surgindo num jogo de nostalgia e empoderamento.

1) MELANCIA: Quem é o Jorge?

JORGE: O Jorge Charrua nasceu a 9 de Maio de 1991 é do signo Touro. É uma pessoa introvertida, tímida e reservada, mas de bom espírito e bom humor. Cresceu e vive em Vialonga com os seus pais, e criou o seu pequeno mundo desde a infância - rodeou-se de desenhos animados, da Sega Mega Drive e fazia rabiscos no seu canto, hábitos que se mantêm até aos dias de hoje. É um romântico pela vida e apreciador das pequenas coisas, dos pequenos gestos. Curioso incurável por natureza, os seus interesses são o mais variados possível, desde electrónica a pintura clássica a óleo, porque acredita que somos a média daquilo que nos rodeia e que é esse o caminho para enriquecer enquanto pessoa.

2) M: Cresceste rodeado de cultura urbana e começaste a pintar paredes muito novo. De que forma é que esse ambiente te influenciou a ser o artista que és hoje?
J: Comecei a pintar em 2004, a fazer Graffiti com os meus amigos. A proximidade a essa cultura que já então florescia nas freguesias vizinhas, permitiu-me acompanhar e absorver o que já se fazia no Forte da Casa e Alverca. Algumas dessas pessoas acolheramme realmente e pude ver de perto a cultura acontecer e aprender com isso. Foi aí que me incentivaram a prosseguir estudos em Arte e a expandir a minha mente e o espírito. Hoje, dou graças a essas pessoas que me mostraram um caminho possível de ser trilhado e que me tornou naquilo que sou hoje.

3) M: Criaste um estilo de pintura muito próprio e reconhecível, que acaba por ser uma mistura do urbano com o clássico, onde a figura humana predomina. O que te cativa nas pessoas?

J: Têm-me dito isso e sinto-me muito grato; significa que o que faço tem vida própria e cria ressonância nas pessoas. Enquanto autor, não sinto que tenha um estilo, mas sim um conjunto de ferramentas que formam o meu léxico visual e que estão ao serviço daquilo que quero expressar. Essa mistura do urbano e do clássico, vem precisamente na dualidade que sempre me acompanhou, do contacto com cultura urbana pelo graffiti e pelo beatmaking, com os estudos em Artes, desde a António Arroio e as Belas Artes de Lisboa. Entre esses dois polos, algures no meio, há também a influência de situações do quotidiano, referências que trago desde criança, videojogos, desenhos animados e outras que me estimulavam e estimulam criativamente. Nas pessoas, cativa-me conhecer as suas histórias, experiências e perspectivas; por vezes, achamos que são muito diferentes da nossa realidade, mas acabamos por encontrar pontos de contacto e estabelecer uma ligação. Basta dedicar um pouco de atenção e querermos conhecer, através de uma simples conversa. Vejo pedaços de mim espalhados sobre cada uma das pessoas com que me cruzo, tornando essa experiência, em parte, num auto-retrato. Represento-as a elas e a mim indirectamente, quando as insiro no meu trabalho.

4) M: O teu trabalho também é feito de improviso ou é sempre previamente estudado e pensado? Conta-nos como se desenrola o teu processo criativo.

J: De início, o meu trabalho era, praticamente, apenas fruto de improviso e imaginação, provindo dos meus diários gráficos que trazia sempre comigo, desde o início. Esses improvisos serviram como mote de experimentação de materiais e técnicas e tinham, como intenção, fazer uma aproximação àquilo que necessitava de expressar. No entanto, não tinha uma metodologia a que pudesse recorrer para que aquilo que queria dizer fosse o mais incisivo possível. Com o passar dos anos, fui tentando incorporar outros meios de expressão como fotografia e vídeo de forma a poder aproximar-me daquilo que queria dizer, deixando também espaço para a improvisação provinda do desenho. Essa bagagem de improviso tem vindo a ser útil em situações em que é preciso ajustes de composição e harmonia na imagem. Actualmente, o meu medium de trabalho é a pintura a óleo porque me permite uma modelação das formas que nos outros materiais teria mais dificuldade. Além disso, como é um material ancestral, permite-me estudar os Mestres do passado e incorporar pequenas partes no meu processo também. Paralelamente ao estudo técnico que faço, faço também muita pesquisa de referências, quer visuais e temáticas, quer de registos escritos e audiovisuais, para poder beber do maior número de fontes possível e tornar o trabalho mais rico. Sinto, cada vez mais, a necessidade de trazer mais pessoas para colaborar neste processo criativo - desde fotógrafos, filmmakers e até os próprios modelos -, pois o input deles tende a enriquecer muito este processo que, habitualmente, é conhecido por ser solitário. Também gosto de falar com pessoas que tenham pontos de vista distintos sobre o que os rodeia porque me permite colocar em perspectiva os meus próprios pontos de vista e considerar outras formas de ver. Tudo isto vai acabar por, directa ou indirectamente, enriquecer o meu processo.

5) M: A produção musical faz parte do teu caminho e até tens alguns projetos lançados em teu nome. De que formas é que essas duas áreas se cruzam?

J: Creio que pouca gente sabe que eu faço produção musical, particularmente Beat Making. Comecei em 2008, apenas 4 anos depois de ter começado a fazer Graffiti, em 2004, e acabaram por seguir caminhos distintos, ainda que provenham da mesma cultura. Isto porque a minha atenção ficou mais direcionada para as Artes Visuais e Graffiti do que para a música. Não me sentia confiante o suficiente porque a minha timidez levava a melhor e, na cultura Hip-Hop, em particular na parte musical, habitualmente é pedida uma grande dose de atitude e presença. Eu não me revia muito nisso, no entanto, não queria deixar de ser competente naquilo a que me propus a fazer. Consegui lançar 2 projectos musicais de instrumentais, com os qual estou muito orgulhoso, pois consegui materializar uma intenção e levá-la até ao fim. Estou muito grato pelas pessoas que me ajudaram nesses projectos. Acabo por adoptar uma postura desprendida em relação à música e isso faz-me sentir bem por não existirem expectativas, nem pretensiosismos; faço-o por puro prazer, quando me apetece fazê-lo, sem sentir pressões. Posso seguir a vibe que me interessar sem me preocupar se está em conformidade com a tendência. Tento fazer o meu melhor, vou evoluindo tecnicamente e melhorando o meu gosto ao meu próprio ritmo. Mas vou estando a par do que se tem vindo a fazer e inspiro-me bastante nisso. Fui fazendo várias tentativas de cruzamento destas áreas através de alguns dos vídeos que fui lançando do meu trabalho. Em boa parte deles, a música é da minha autoria. De resto, fazer um exercício artístico usando essas duas áreas de igual forma, ainda é algo para o qual não estou muito preparado porque não tenho o mesmo nível de maturidade no campo musical que tenho no campo visual. Tenho a certeza que, a seu tempo, acabará por acontecer esse cruzamento de forma mais evidente. Até lá, podem estejam atentos aos vídeos que lanço, provavelmente a música será feita por mim também.

6) M: Na tua opinião, qual é o papel que a street art desempenha no espaço público e na sociedade?

J: É importante perceber que a street art tem pouco tempo de vida quando comparada com outras formas de expressão, mas é, provavelmente, a expressão que mais evoluiu em tão pouco tempo. Nesse período de tempo, também mudou muito a forma como é vista aos olhos do público, tendo começado como algo mal visto, imposto à força à sociedade - mais “in your face” -, seja como forma de protesto ou de reacção à grande ocupação publicitária que habitualmente ocupava e ocupa esse espaço, para hoje ser essa mesma sociedade a requerer que as paredes dos seus prédios ou das suas vizinhanças sejam pintadas. É uma mudança de paradigma muito importante que, mais do que nunca, democratizou o espaço público e o acesso a mais iniciativas que permitam novos talentos emergirem e, por sua vez, enriquecer a cultura. Veio também um aproximar entre as pessoas e a arte, sendo que esta última era habitualmente confinada a museus e a galerias. Ainda que essa aproximação seja um ponto positivo, torna-se num consumo mais superficial e imediato, não prestando, por vezes, sequer atenção ao autor ou ao seu trabalho. Também devido a essa rápida evolução, é difícil não pensar na possibilidade de a street art poder ser vista como uma moda passageira, em que o público acaba, eventualmente, por perder o interesse, resultado do grande volume de murais que existem hoje espalhados pelo globo. No entanto, acho que ainda há muito por fazer e, por isso, ainda vamos ter contacto com a street art por mais algum tempo. É importante haver uma reflexão acerca de como os espaços são ocupados; por vezes, há problemas graves mais imediatos a necessitarem de serem resolvidos, mas é muito comum, hoje em dia, usá-la como uma espécie de penso-rápido para tapar esses problemas. Não obstante, a street art está na linha da frente na denúncia e no apelo à consciência própria e ao sentido crítico de cada um, mas é preciso ter alguma atenção para que esta não seja instrumentalizada por influência alheia e se perca o sentido artístico e de expressão individual.

7) M: O que gostavas muito de fazer mas ainda não tiveste oportunidade?

J: Gostava muito de poder viajar mais e de poder pintar pelo mundo fora. De poder expandir-me e criar novas ligações. A nível artístico, vejo a componente de instalação a fazer mais sentido com o passar do tempo, e sinto que pode expandir o universo sobre o qual trabalho.

8) M: Consegues viver da arte? Tens esperança que este universo venha a ser mais valorizado?

J: Tenho a sorte de a minha família me apoiar na viagem que escolhi para mim. Não tendo recursos financeiros, recebi algo mais importante deles, que foi acreditarem no que queria fazer. O processo de independência é muito lento e muito incerto para a nossa geração porque, a qualquer momento, pode deixar de ser possível continuar o trilho se as circunstâncias externas assim o obrigarem. Estar a viver com os meus pais e ter o meu espaço de trabalho cedido pelos os meus padrinhos, permite-me viver o suficiente para poder trabalhar no que gosto e que me realiza. Durante muitos anos não fazia dinheiro com a minha arte, fazia-o apenas através do meu side-hobby de restaurar consolas antigas que fui tendo durante algum tempo. Apenas conseguia fazer o suficiente para os meus gastos pessoais, para não ter de pedir aos meus pais. Actualmente, tenho um um emprego que auxilia nos meus gastos e vai aparecendo algum trabalho artístico, mas ainda não com a frequência e a consistência que desejaria. Todas as oportunidades têm sido uma grande ajuda mas, em geral, não me permite ainda atingir certas coisas que alguém que procura a sua independência deseja, por exemplo, uma casa. Tenho esperança que venha a ser um universo mais valorizado, especialmente porque tem estado na base da construção do framework de muita coisa de que hoje usufruimos enquanto sociedade, faz já algum tempo. Infelizmente, é ainda um meio que assenta muito numa base individualista e competitiva, e os danos colaterais disso são o deixar muita gente pelo o caminho. Neste sentido, a resiliência e paciência são fulcrais para se tentar construir algo nesta área. Ainda há muita pedra para ser partida.

9) M: Onde encontramos o Jorge quando não está a pintar?

J: Podem encontrá-lo em Vialonga, no seu atelier, a fazer alguma reparação ou a produzir um beat. Aos sábados ou às terças-feiras, é possível encontrá-lo pela feira da ladra a tomar um café no quiosque enquanto desenha no seu caderno. É fácil encontrá-lo também num concerto de Rap ou a ver alguma exposição. Ou num torneio de Street Fighter ou King of Fighters. Se ainda existissem salões de Arcade, veriam-no muito por lá também.

10) M: Deixa uma mensagem à MELANCIA e aos seus leitores.

J: Queria agradecer à Melancia pelo convite e agradecer por darem voz de forma tão democrática aos vários quadrantes da cultura. Fazem-no de forma igualitária e relevante para que todos possam ser ouvidos e para que contem as suas histórias. E por criarem um registo que representa a colectividade actual no panorama cultural em Portugal. Iniciativas destas são muito importantes para que seja possível olharmos para trás e podermos encontrar depoimentos que servem de registo e documento histórico daquilo que as pessoas fizeram em 2021, por exemplo. Aos Leitores: apoiem as iniciativas independentes como esta e apoiem os artistas - e não só - que mais gostam; nunca esse apoio fez tanta falta como agora.

@jorgecharrua1

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