fotografia

Entrevista: mafalda jesus

JOÃO

MARQUES

Mais do que o sujeito ou o acontecimento a que aponta a sua objectiva, o que distingue o trabalho de João Marques são as narrativas e os contextos que residem nas suas fotografias. O jovem fotógrafo não só captura momentos, mas também emoções e transporta-nos para ambientes que suscitam sentimentos de nostalgia e melancolia, através de luz e cor, que as tornam em imagens facilmente identificáveis.

1) MELANCIA: Quem é o João?
JOÃO: 
Tenho 22 anos, sou de Lisboa. Vivi dos 8 aos 17 em Vila Viçosa, no Alentejo. Voltei para Lisboa para poder estudar algo mais ligado à minha área de interesse e licenciei-me em Cinema, Vídeo e Comunicação Multimédia na Universidade Lusófona. Actualmente trabalho como freelancer  nas áreas de vídeo e fotografia. 

2) M: Como é que a fotografia surgiu na tua vida?
J: Quando tinha por volta de 13/14 anos comecei a fotografar o meu grupo de amigos. Na altura via muito como um passatempo, era algo que fazia mas não pensava muito na execução ou no que queria atingir, mas rapidamente se tornou parte da minha rotina. A primeira vez que comecei a partilhar fotografias foi por volta de 2012, na rede social Tumblr. Na altura eram só retratos e imagens de mim e dos meus amigos, um pouco da nossa vida. Aos 18 anos fui estudar Cinema na Universidade Lusófona. Descobri a minha paixão pela área e realizei o meu primeiro filme no final do curso em 2018 - ‘Incomum’ financiado através do ICA e de um crowdfunding. No fim do curso decidi que tinha de explorar a fotografia, visto que foi algo que sempre fiz instintivamente e que esteve sempre comigo. Então decidi ir estudar para o Ar.Co em 2018/2019, onde fiz um ano de curso. Foi aí que comecei a fotografar mais conscientemente e até agora não parei.

3) M: O teu trabalho é essencialmente composto por retratos. O que te fascina nas pessoas? 

J: Desde o início que sempre fotografei pessoas, ou melhor dizendo, seres vivos (também sempre fotografei muito os meus animais de estimação). Não sei bem, acho que tento capturar sempre um sentimento/ emoção nas minhas imagens. Dessa forma, como humano que sente, gosto de ter humanos representados nas imagens.

4) M: Qual é o segredo para que elas se sintam confortáveis em frente à câmera? 

J: Na maioria das minhas imagens, costumo usar como modelos pessoas que estão na minha vida. Nesse caso, já existe uma cumplicidade/intimidade prévia, por isso já estão à vontade e já sabem qual o meu “workflow”. Quando estou a fotografar com alguém novo, gosto sempre de conversar um pouco com a pessoa antes da sessão, para ser menos impessoal. Algo que faço por vezes, é dar um objecto ao modelo e criar uma acção, quase como se estivesse a dirigir uma cena. Acho que isso ajuda a quebrar o gelo e faz com que possam entrar em personagem e que não estejam apenas a encarar a câmera. Normalmente as pessoas que eu fotográfo já estão habituadas a estar em frente a câmeras e isso também me facilita o trabalho.

5) M: A cor, a luz e o contraste são factores identificadores e diferenciadores do teu trabalho. O que te influenciou mais na criação da tua identidade artística? 

J: Acho que a minha maior inspiração são o cinema e as minhas emoções. Só mais recentemente é que pessoas me têm dito que tenho um estilo muito próprio e que facilmente percebem que uma imagem é minha sem ver o nome. Isso acaba por ser meramente instintivo, não foi pensado antes ou planeado. A minha identidade artística, pelo menos actualmente, é só o reflexo das minhas experiências e sentimentos, daí a coerência no meu trabalho.

6) M: Contrariamente ao que estamos habituados na fotografia tradicional, o desfoque do primeiro plano é recorrente no teu trabalho. Fala-nos sobre essa opção. 

J: Uso muito a fotografia como meio de expressar como me sinto e a minha visão do mundo. Quase como se fosse a minha tela (só que não sei realmente pintar). O que eu gosto no desfoque, é que por  vezes a identidade da pessoa em si não importa, o objectivo é só a representação da figura humana e o ponto de interesse passa a ser a emoção que a imagem transmite. Quando vemos um retrato em plano fechado, muito provavelmente o ambiente perde-se e focamo-nos no sujeito. Com o fundo em desfoque, sabemos que está ali uma pessoa, um humano que provavelmente está a pensar em algo, no entanto ele encontra-se naquele local, naquele ambiente... Que é o que estamos a ver com mais detalhe. A imagem torna-se mais atmosférica e menos um retrato de x ou y.

7) M: Do teu ponto de vista o que é essencial para a construção de uma boa fotografia? 

J: Acho que o mais importante é ter um ponto de vista forte, um conceito. Ter bom equipamento é sem dúvida uma parte importante também, mas não é propriamente uma necessidade. Podemos criar imagens excelentes com point and shoots de 20 euros. Na minha opinião acaba por ser um equilíbrio entre conceito — ponto de vista — e saber escolher o equipamento adequado para o projecto.

8) M: O que gostarias de ter sabido quando começaste a fotografar?

J: Durante muito tempo fotografei sem ter nenhum objectivo em concreto, sempre foi algo muito experimental e de libertação para mim. Desta forma, acaba sempre por ser um processo de aprendizagem e não se trata de ter todas as respostas de imediato. E é aí que está a magia.

9) M: Analógico ou digital? Porquê? 

J: Acho que não consigo escolher. São ambos importantes para mim e uso-os frequentemente. Gosto muito de fotografia analógica, porque tem um look quase pictórico, que o digital não consegue reproduzir. No entanto, gosto de digital porque não tem limite, podes disparar infinitamente e é mais fácil ter controlo sob o que estás a fazer (por poder ir vendo no momento). Gosto de conhecer e entender os dois meios e usá-los com propósitos diferentes.

10) M: Que coisas são essenciais no teu dia-a-dia? 

J: Música.

 

11) M: Destaca um nome ou um projeto que, na tua opinião, toda a gente devia conhecer.  

J: Mia Novakova (@coughh_syrup on instagram).

12) M: Deixa uma mensagem à MELANCIA mag e aos seus leitores. 

J: Agradeço à MELANCIA mag pelo convite, não conhecia o projeto mas vou passar a acompanhar. Para os leitores, especialmente para o pessoal de vídeo e fotografia: acreditem nas vossas ideias e agarrem-se a elas. Se estiverem a fazer algo que seja verdadeiro para vocês, coisas boas virão.

www.instagram.com/joaomaresque/

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