ilustração & street art

Entrevista: juliana lima

guilherme

kramer

Guilherme Kramer, brasileiro, tem 38 anos, é natural de São Paulo e o artista que nos presenteou com a belíssima capa desta edição. Formado em Comunicação Social, assumiu a sua profissão como artista plástico e conta-nos a naturalidade com que decorreu o seu percurso profissional e fala-nos do seu processo criativo, das suas características como “observador andarilho” e a conexão de tudo isso com a sua principal inspiração: o povo brasileiro.

1) MELANCIA: Quem é o Guilherme Kramer? 
GUILHERME: 
Brasileiro, andarilho, caféinômano, inconformado e que sonha todas as noites.

2) M: Quando percebeste que a arte era o caminho a seguir? 
G: Quando percebi que não daria conta de viver somente das coisas reais e banais, que precisava de mais para a minha existência, de uma rota de fuga. A minha arte surgiu dessa necessidade: loucura e cura. Sempre desenhei, e quando era pequeno rabiscava o chão da garagem de casa, quando preenchia tudo, apagava e começava de novo, essa obsessão pelo desenho acompanha-me até hoje. Sou uma pessoa melhor, rabiscando.

3) M: Como começou o teu percurso na street art? 

G: Começou de forma muito natural, pintava muito já, em telas e papel. Conheci amigos do graffiti que me convidaram para pintar na rua, diziam que o meu trabalho ficaria bom nos murais. Um dia saí com eles e pintámos um campo de futebol em São Paulo. Gostei muito. Pintar na rua é diferente, não que seja melhor ou pior do que no ateliê, mas tem outra energia, outra escala e sempre a possibilidade de interagir com a arquitetura local. Tudo depende do meu estado de espírito, as vezes quero a calma do estúdio, às vezes, os ruídos das ruas. Não quero prender-me a estereótipos, hoje em dia tudo está mais aberto, e isso é muito libertador.

4) M: E as tuas ilustrações muitas vezes têm personagens. Fala-nos das tuas referências e processo seletivo. 

G: Sempre fui muito observador da vida quotidiana. O que mais me alimenta é a maneira expressiva e louca do povo brasileiro, a maneira como solucionamos pequenas coisas no nosso dia a dia, a nossa forma criativa e informal. O meu ateliê hoje é no centro de São Paulo, e lá encontro essa grande diversidade caótica. Sobre outras referências: em pequeno, alugava filmes de terror, isso era nos anos 80, e os efeitos especiais eram sempre bem bizarros, eu adorava aquilo. Gosto das coisas feitas com as ferramentas que temos na ocasião, gosto do processo livre e identifico-me com artistas que seguem essa linha. Isso vai desde o Expressionismo alemão, passando pela arte popular brasileira (bonecos, gravuras, cordel), os simbolistas e os desenhos em branco e preto de Van Gogh.

5) M: Consegues destacar uma obra tua que marcou a tua carreira artística?

G: Uma obra inesquecível foi o mural “We see people in the crowd”, em que, durante um ano, pintei as paredes de um escritório. Foi o primeiro trabalho em escala monumental, e que me exigiu um grande esforço, tanto físico como mental, mas o resultado foi incrível. Esse trabalho deu-me boa visibilidade no mundo das artes. Tenho muito carinho por ele.

6) M: És de São Paulo, mas já realizaste exposições individuais e coletivas por muitos cantos do Brasil e do mundo. Fala-nos sobre a tua prática do nomadismo, como fio condutor do teu trabalho.

G: A necessidade de estar em movimento é importante para mim, gosto de sentir o sangue circular, faz-me pensar melhor e a visão fica mais afiada. Caminho pelas ruas para transformar lugares e os seus significados, pois acredito que perdermo-nos é a possibilidade de sermos confrontados com outras realidades, adquirindo outros estados de consciência. Isso transforma paisagens. E eu permito que o espaço me domine, para que então crie novos pontos de referência. Ao desbravar a cidade e suas margens, no grande labirinto de suas periferias, encontro personagens que vivem normas e vidas próprias, que mudam constantemente a cada esquina. Neste processo, o subconsciente é o protagonista. Busco o meu estado contraditório: real e irreal, caótico e ordenado, mundo interior e exterior. A partir dessa investigação e reflexão, durante o percurso pelo desconhecido, surge uma rede de nervos, veias, galhos, raízes, asas, texturas, pelagens, olhos, bocas, expressões, sons e rostos que compõem os meus desenhos.

7) M: Quais são as tuas maiores inspirações? 

G: Com certeza são o ritmo das cidades, as cores, as ruas, as pessoas. Por isso, o caminhar é tão importante para mim, preciso de desbravar os bairros, ir para as esquinas a que nunca fui. Isso mantém-me vivo. Pintar mantém-me vivo. Conversar com pessoas anónimas, que nunca vi na vida, também me inspira muito.

8) M: O que é essencial no teu dia a dia? 

G: Café, tinta e liberdade.

9) M: Que noção é que um artista nunca deve perder? 

G: A noção do olhar inaugural, de olhar as coisas como se fosse sempre a primeira vez.

10) M: Qual é o teu lema? 

G: Quebre o seu próprio sistema.

11 M: Que objectivos gostarias de alcançar? 

G: A liberdade de fazer sempre aquilo que me emocione, que mexa comigo. Envelhecer com um pincel na mão.

12 M: Deixa uma mensagem à MELANCIA mag e aos seus leitores. 

G: Eu ainda acredito na humanidade, na nossa capacidade de renovação. Os tempos são difíceis, mas o essencial tem de ser mantido, as relações humanas que buscam menos egoísmo.

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