fotografia

Entrevista: LUÍSA VITORINO

FRANCISCO

NARCISO

Entre o espetro da cor e do espaço vive a fotografia de Francisco Narciso, com narrativas limpas e cruas,
o jovem fotógrafo transporta para o seu rolo a serenidade e também o caos de ser. Francisco traz-nos miragens do que é ser jovem e sobreposições do que podia ser a vida se tivéssemos uma foto sempre a mais no rolo. A subtileza com que nos traz algo tão algo real é sem dúvida,
a sua carta na manga.

1) MELANCIA: Fala-nos um pouco de ti, quem é o Francisco e como o descreves?
FRANCISCO: 
Olá! O Francisco tem 21 anos e vive em Lisboa. Quando olho para ele com algum distanciamento, vejo um rapaz muito sociável, que adora viajar e estar rodeado das pessoas que gosta. Depois de o conhecer melhor, percebi que não sei bem aquilo que ele é. Já o vi em diversas fases
do seu desenvolvimento, desde desportista de alta competição a estudante universitário na área da saúde. Agora diz ser artista, parece-me bem.

2) M: Desde quando é que a fotografia começou a estar presente em ti e a ser essencial na tua vida?
F: Desde sempre que vejo o meu pai a tirar fotografias, mas na altura gostava mais de ser o seu modelo. Fui observando ao longo dos anos a sua maneira de fotografar e comecei também a experimentar. A ideia de gravar um momento da realidade com um “toque especial” meu sempre me interessou. Mas só me debrucei sobre a fotografia quando tinha 18 anos. Os principais focos da minha vida, até então, tinham apenas sido o hóquei em patins, que jogava desde os 4 anos, e a escola. No ensino secundário estive no curso de ciências e tecnologias e queria ir para a Austrália estudar biologia. Este era o meu pensamento quando entrei no décimo ano. Com o passar do tempo, fui perdendo o interesse nessa área. Acabei o secundário e fui para um curso de saúde, Ortoprotesia, e percebi que não era de todo aquilo que queria fazer. Esse foi momento de rutura no meu percurso. Como o interesse pela fotografia não era novidade para mim, decidi ir para o Curso de Fotografia e Cultura Visual no IADE. A partir daí a minha vida virou-se de pernas para o ar.

3) M: O foco de muitas das tuas fotografias é a figura humana, um corpo, uma cara, fragmentos da personalidade do teu sujeito. Como descreverias o teu estilo?

F: O meu estilo é um estilo desconstruído com um significado próprio. Gosto de falhas, de erros, de juntar coisas que supostamente deviam estar separadas. O facto de ter um sinal de nascença no nariz, fez-me lidar com essa ideia de “falha” e apreciá-la cada vez mais. O efeito que essa mancha tem em mim reflete-se bastante no meu estilo. Para além disso, inspiro-me muito na maneira em como o ser humano faz as coisas e no porquê. Procuro ter o máximo de experiências possíveis. Mesmo que por vezes não seja na minha área, é uma maneira de sair da minha zona de conforto e entrar em contacto com pessoas com uma realidade completamente diferente da minha. Isso tudo influência a maneira como olho para o mundo e consequentemente o meu trabalho. O meu estilo caracteriza-se principalmente pela minha visão do momento da vida que estou a viver. Por isso, vai alterando ao longo do tempo.

4) M: Em muitas fotografias tuas, as pessoas que fotografas nem sempre se apresentam nas mais típicas situações. Tivemos já oportunidade de ver imagens onde uma melancia é um chapéu numa cabeça, ou um banco, onde plástico funciona como cenário e até como roupa da tua modelo, onde um corpo se molda a uma mesa e bancos de jardim. Como funciona para ti, o processo de fotografar outra pessoa e fazê-la sentir confortável num cenário que à priori só reside na tua cabeça?

F: O meu casting de modelos funciona de uma maneira bastante pessoal. Quando faço projetos em que o modelo se vai apresentar em difíceis condições, tendo sempre fazê-lo com um amigo próximo. A relação que tenho com as pessoas influência bastante o meu trabalho. Tenho a sorte de ter pessoas à minha volta que me ajudam e que estão dispostas a superar-se a elas próprias. Caso seja um trabalho num âmbito mais profissional e eu não conheça o modelo, tenho a preocupação de lhe enviar um moodboard da sessão, com alguma antecedência, para que se possa preparar. Normalmente, quando estou a fotografar com alguém que não conheço bem, essa pessoa tem conhecimento do meu estilo e está lá porque quer contribuir de uma maneira positiva para o meu trabalho, o que torna tudo mais fácil. Para além disso, gosto de falar bastante com os modelos. Explico-lhes o que preparei e gosto sempre de ouvir as suas opiniões. Assim estamos todos em sintonia e a sessão flui muito melhor.

5) M: Que detalhes acreditas que fazem as melhores fotografias e como os tentas incorporar no teu trabalho? 

F: Sinto que quanto mais pessoal for o trabalho, melhor será o resultado final. Tento transparecer detalhes que provêm de mim, a minha opinião relativamente a um assunto, a maneira como lido com a vida, a minha intuição estética ou até mesmo

o meu estado de espírito no momento
da fotografia. Quanto mais de mim der, mais autêntica será a fotografia, porque no fundo todos olhamos para o mundo de maneira diferente.

6) M: Tu próprio és por vezes o sujeito do teu trabalho, com autorretratos em projetos como o “trans[ação]”. A fotografia é também uma maneira para te conheceres como o observado e não como observador?

F: Auto-retratos, para mim, são projetos de autoconhecimento. Tirar fotografias a mim próprio é um desafio. Todos nós procuramos perceber como é que somos fisicamente na vida real. Sempre que olho para o espelho não fico muito convencido que aquilo seja a verdade. Isso é um pensamento muito comum. Eu penso muito em como é que eu sou e como é que posso ser. Transformar-me numa mulher, por exemplo, foi um teste. Simulei uma experiência de dualidade de género com o objetivo de perceber melhor as barreiras que imponho a mim mesmo. Terminei esse trabalho muito mais enriquecido. Fotografar-me a mim próprio também ajuda a perceber com é estar no lado do observado. Assim, quando sou o observador, percebo muito melhor o meu modelo.

7) M: Como te educas no processo para evoluir e tirar sempre fotos melhores, projeto após projeto?

F: Para o meu trabalho evoluir é essencial ser uma pessoa bastante ativa. Ver o máximo possível de trabalhos de outros artistas, perceber como é que organizam o seu trabalho e como o explicam. Quantas mais imagens vejo, mais ideias tenho para os meus projetos. É muito importante absorver o máximo possível do trabalho dos outros. Assim, quando estou a fotografar, tenho um “banco de imagens mental” muito mais abrangente e tenho

a capacidade intuitiva de ser influenciado por elas no momento do clique. Acho também bastante importante conhecer a história da fotografia, os fotógrafos que tiveram mais impacto, quando e porquê. Já tive uma fase em que me inspirava muito em fotógrafos antigos, como por exemplo o Man Ray, Robert Mapplethrope ou Cindy Sherman. Neste momento sou mais influenciado por fotógrafos contemporâneos ou da minha geração como é o caso da Arielle Bobbb-Willis, Jamie Hawkesworth e Sandro Giordano. Para além disso, também sinto que é importante sentir-me confiante e ser muito ambicioso. Tento sempre imaginar um projeto em grande e super detalhado. Ao longo do tempo, vou acrescentando mais detalhes, os projetos vão ficando mais claros e o que antes parecia ser difícil, acaba por se tornar parte da rotina de uma shooting.

8) M: Fotografas sempre em analógico, porquê? E que equipamento é o teu must have para fotografar em filme seja onde for?

F: Sim fotografo. O analógico permite-me fotografar com muito mais calma. O facto de ter um limite de fotografias faz com que tenha de pensar em cada uma individualmente e tirá-las de uma maneira cautelosa. Também gosto muito de não ver as fotografias que estou a tirar. No digital tiras uma fotografia, vês como ficou, e a fotografia seguinte já vai ser influenciada pela anterior. Gosto de ter a minha cabeça limpa. Pensar nas fotografias uma a uma e estar confiante naquilo que vai sair. Há muito uma relação de confiança entre mim e as minhas câmaras e acho muito bonito o processo de fotografar, revelar e ampliar ou digitalizar. Não há comparação entre este método e o modo de fotografar digital, ter tudo num cartão de memória e ficar horas no computador a escolher e editar fotografias, isso não é bem o meu estilo. Mas, por outro lado, para ser mais completo, também é importante saber fotografar bem em digital. Utilizar as técnicas que aprendi no analógico para ter a capacidade de fazer um trabalho digital com qualidade. Ainda não sinto que seja o momento, mas o digital não é algo para descartar da minha cabeça. A minha câmara preferida neste momento
é a Mamiya RZ67. É uma câmara médio formato que tem grandes resultados em termos de qualidade de imagem. Mas é muito grande e pesa à volta
de 3 kilos, por isso, não diria que seja o melhor para ter seja onde for. Para ir comigo para todo o lado levo a minha Canon Canonet QL17, uma câmara pequena, muito fácil de transportar e com bons resultados. Utilizo também a Canon Ae-1 que é muito fiável e fácil de utilizar. Para além destas câmaras gosto sempre de andar com uma “Point and shoot” (Olympus mju II) para tirar fotografias de momentos com amigos e família. Como o nome diz, é só apontar e disparar, o que torna tudo mais fácil. Todas estas câmeras, exceto a Mamiya, têm um preço bastante acessível e resultados muito bons.

9) M: Embora nitidamente não digital e com um caráter bem cru, o teu trabalho é divulgado sobretudo online. A teu ver, quais são os prós e contras de usar uma plataforma como o Instagram para partilhar a tua fotografia.

F: Para partilhar a minha fotografia é o ideal. Olho para o Instagram como uma ferramenta de trabalho. Consigo chegar a muitas pessoas ao mesmo tempo e é importante para divulgar as minhas fotografias. Mas também é importante ter trabalho organizado fora do Instagram, ter um website ou um portfólio físico é essencial.

10) M: O que procuras transmitir a quem vê as tuas fotografias?

F: Na maior parte das vezes, procuro transmitir o que estou a sentir. Por outro lado, as minhas fotografias têm um carácter muito subjetivo e gosto de ouvir
as diferentes interpretações dos outros. Há uma linha de pensamento no meu trabalho, mas é algo muito intuitivo. Quando estou a fotografar não estou sempre a pensar no que quero transmitir. Estou mais a apreciar o momento.

11) M: O processo de desenvolvimento de um conceito é tão importante quanto um clique certo num cenário bonito? 

F: Depende do tipo de fotografias que estás a fazer. Há fotografias muito bonitas que tiras sem pensar em nenhum conceito a priori. Momentos com pessoas que gostas, sítios bonitos a que vais, pessoas bonitas que fotografas. Acho que é importante por vezes libertarmo-nos dessa ideia do “conceito” e fotografar apenas intuitivamente. Já me aconteceu estar a fotografar livremente, sem nada de especial em mente, e depois de revelar as fotografias perceber que ali estava um grande conceito. Por vezes é muito relativo, podes aplicar o teu conceito antes ou depois de fotografares. Contudo, quando estou a fazer um projeto em que quero passar uma mensagem forte, a preparação do conceito é o aspeto mais importante de todos. Nesse caso o clique certo e o cenário bonito são coisas a ter em conta, mas o mais determinante é o quão forte a mensagem que passas.

12) M: De todos os teus trabalhos, consegues destacar um favorito?

F: Provavelmente é o que estou a fazer neste momento. Está a ser bastante desafiante e estou a fazê-lo com pessoas com quem gosto muito de trabalhar. Este projeto já me levou a conhecer pessoas interessantes e está num bom caminho. Também gostei muito de fazer o projeto do plástico porque tive acesso a um estúdio enorme, com muito bom equipamento e juntamente com dois grandes amigos concretizamos um projeto bastante ambicioso.

13) M: O que é podes dizer aos leitores da Melancia? Aos que querem fotografar e aos que gostam só de ver, deixa-nos uma mensagem. 

F: Encontrem algo que realmente vos apaixone. Seja o que for, vai fazer-vos querer estar sempre a evoluir. Funciona como refúgio. Quando tudo parece correr mal há ali algo só vosso que não vos deixa parar. Ter essa força é muito importante.

www.instagram.com/franarciso/

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