Ilustração
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Novembro 2019

Entrevista: mafalda jesus

ilustrações: franciSco fonseca

 

francis.co

Uma combinação de imaginação e realidade, é assim o trabalho de Francisco, e como podia não ser? Se não viaja em terra, viaja na própria cabeça e são esses devaneios, misturados com o amor à realidade, que nos traz nas suas ilustrações. Paisagens detalhadas e idílicas, que tanto nos dão vontade de voltar aos nossos livros de criança, como de conhecer a cabeça que as criou.

1) MELANCIA: Quem é o Francisco? 

FRANCISCO: Francisco é aquele tipo de pessoa que não se contenta com o que tem e que está sempre a criar novos mundos para poder viajar sem gastar dinheiro... Tudo através da ilustração.

2) M: Neste momento és artista a full-time. De que forma é que a arte entrou na tua vida? E o que fez com que permanecesse até aqui?
F: Sim sou (e ainda bem!). Desde sempre que me lembro de desenhar, não me lembro bem porquê, mas por algum motivo gostava de o fazer. Entretanto disseram-me que tinha “jeito” e foi aí que estragaram tudo. Foram os primeiros elogios em relação a algo que fazia, então continuei, até hoje.

3) M: Que paisagens são estas, que nos fazem sonhar e viajar no tempo? Onde procuras inspiração? 

F: São lugares que gostava de encontrar... Adoro explorar e conhecer o que o mundo tem para nos oferecer. Ainda não conheci muito, mas o que vi até hoje já chegou para me fascinar! Sem dúvida que as paisagens do mundo real são a minha “musa inspiradora”. E sim, falo em inspiração porque é mesmo importante para mim. O meu trabalho não seria o que é se não vivesse no mundo em que vivo, por isso: obrigado Planeta Terra! (Especialmente Portugal, que nos oferece uma fauna e flora tão variadas que conseguimos perder-nos facilmente, com inúmeros estímulos visuais, entre outras coisas. A rusticidade de Portugal deixa-me realmente feliz).

4) M: O teu trabalho apresenta imensos detalhes e pormenores. Para além de muita paciência, o que é essencial para ficares satisfeito com um trabalho?

F: Eu sempre fui um amante do desenho e da técnica como ferramentas para criar. Acho que, pelo menos para o meu trabalho, dominar o desenho é bastante importante. O que me deixa realmente feliz com o resultado é a combinação da técnica e de uma boa execução, com um ambiente que me surpreenda e, como disse ao início, que me leve a viajar para um novo lugar. Normalmente não uso uma iconografia fantástica ou irreal, são coisas simples e normais como casas ou campos. Na minha opinião o que importa não é o que é representado, mas sim a forma como o fazemos. Nem sempre corre bem.

5) M: Fala-nos um pouco de como funciona o teu processo criativo e que materiais utilizas. 

F: Eu uso um pouco de tudo. Sou o tipo “artista contente e descontente” porque gosto do que faço, mas farto-me rapidamente. Então estou sempre a mudar algo, e isso nota-se principalmente nos materiais, que são o principal motor dessa mudança. Atualmente estou a usar mais a aguarela e o digital. É rápido... Também tenho feito algumas pinturas com spray e tinta acrílica (técnica que uso constantemente para as pinturas que faço na rua).

6) M: Dizem que a arte é natural e nasce com as pessoas. És a prova viva disso, mas também estudaste muito. De que forma achas que os cursos que tiraste fizeram a diferença no teu percurso?

F: Sem dúvida que no meu percurso artístico fez diferença, sou licenciado em Artes Plásticas- Multimedia pela Faculdade de Belas Artes e sou Mestre em Desenho pela mesma faculdade. Todo o percurso e as pessoas que conheci fizeram-me crescer. Na licenciatura fui mudando muito a minha postura enquanto “artista”. Não sabia muito bem como agir neste mundo, simplesmente fui para a faculdade como um puto que gostava de desenhar. Mas os quatro anos de licenciatura ensinaram-me a pensar e a conhecer-me mais como pessoa e artista. O mestrado foi muito bom para mim num ponto de vista metodológico, tornei-me uma pessoa muito mais organizada e planeada. Algo que hoje em dia vejo como uma competência muito importante! Não sei se seria uma pessoa assim se não fosse todo o projeto desenvolvido neste contexto académico.

7) M: As redes sociais são um meio rápido e eficaz de chegar às pessoas, mas tens marcado presença ativa no mundo real, ao expôr em galerias. Qual é a sensação de ver pessoalmente o público a apreciar o teu trabalho e ouvir o que eles têm a dizer sobre isso?

F: Num caso ou noutro são sempre pessoas, então todo o feedback que recebo tanto nas exposições como nas redes sociais me deixa super feliz. Tenho tido a sorte nos últimos meses de expôr bastante e adoro ver, mesmo que temporariamente, o meu trabalho ganhar uma nova casa. Mais do que ver as expressões e o feedback na cara das pessoas (o que me deixa por si só muito feliz) o que mais me alegra é saber que alguém saiu da sua casinha e perdeu algum tempo para ir ver o meu trabalho, seja numa exposição, numa feira ou onde for. Sem dúvida que dou muito valor a isso, por isso obrigado!

8) M: Na tua opinião, qual é a maior dificuldade existente no mundo artístico? 

F: A maior dificuldade é sobreviver financeiramente! Mesmo estudando muito ou trabalhando para ser um artista, viver só da arte é complicado. Eu acabei  o mestrado há um ano e até agora consegui viver com o meu trabalho, o que sem dúvida é uma grande conquista, mas vivo constantemente com medo... A poupar para os meses seguintes. Mas confesso que até gosto! Motiva a fazer mais e mais.

9) M: Se tivesses oportunidade de voltar atrás no tempo, que artista do passado gostarias de conhecer? 

F: Talvez Caravaggio, sempre fui um enorme fã do tenebrismo, das pinturas sombrias e dos claros escuros. David e Golias é das minhas obras favoritas de sempre.

10) M: Onde encontramos o Francisco quando não está a desenhar? 

F: Muito provavelmente a passar pela Serra da boneca em Penafiel, ou a skatar nas ruas do Porto.

11) M: Deixa uma mensagem à MELANCIA e aos seus leitores. 

F: Se chegaram até aqui já são os maiores! Porque viram a revista e tiveram paciência para ler esta entrevista!! É de valor.

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 PREFERES

- Papel ou Parede? Papel. Uso quase sempre papel mesmo na parede.

- Digital ou Manual? Manual.

- Skate ou Netflix? Skate, nem se questiona.

- Telefonema ou Mensagem? Mensagem, odeio falar ao telefone, ignoro a maioria das chamadas.

- Campo ou Cidade? Não gostaria da cidade se não fosse o campo e não gostaria do campo se não fosse a cidade, por isso os dois!

- Doce ou Salgado? Doce, sou viciado em chocolate e açúcar, (mesmo a sério, tenho de ter cuidado).

- Escadas ou Elevador? Escadas.

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