ilustração

Entrevista: MAFALDA JESUS

 
FIUMANI

QUESTIONAR, SEMPRE. Um lema pelo qual o artista plástico Italiano se rege. O que, naturalmente, faz com que o seu trabalho gire à volta do tema da sustentabilidade, representado através de uma multiplicidade de formatos tais como ilustração, street art e instalações artísticas. Ironicamente e quase como que “uma chapada de luva branca”, Fiumani utiliza nas suas obras muitos dos plásticos que vai recolhendo.

1) MELANCIA: Quem é o Filippo?

FIUMANI: φιλος (philos, “amigo”) e ‘ιππος (hippos, “cavalo”) Filippo é

literalmente um amigo dos cavalos.

2) M: Nasceste em Itália, mas actualmente vives em Portugal. O que te trouxe até aqui e o que te fez ficar?

F: Nasci em Itália e estudei grego antigo e latim durante a minha adolescência, sempre acompanhado de uma boa dose de filosofia, história e literatura. Vim para Portugal em 2012 e foi à procura de ondas que parei em Lisboa, onde senti um bipolarismo entre a cidade e o oceano, que me prendeu. Passado o primeiro ano, apaixonei-me pela cidade, por este povo tão generoso e simpático e pela minha flor: Irma.

3) M: Fazes posters, telas, instalações, roupa, pranchas e ainda praticas skate e surf. Parece impossível para uma só pessoa, como consegues arranjar tempo para tudo? E o que te inspira?

F: Sou hiperativo, adoro fazer coisas e adoro explorar novas técnicas. Arranjar tempo é muito complicado, sobretudo desde que tive o meu filho, razão pela qual estou cada vez mais a tentar tornar-me organizado nas tarefas. Não adoro ter de o fazer, mas ajuda-me a tornar o meu estilo artístico cada vez mais impulsivo e pouco planeado. É complicado definir o que me inspira, às vezes tenho visões noturnas de peças que demoram meses a concretizar, outras vezes simplesmente leio alguma coisa ou questiono algo que me dá um click na cabeça e arranco à procura da sua concretização.

4) M: Apresentas-nos obras compostas por uma grande variedade de técnicas, como a colagem, a pintura, o design, a instalação... Vêm sempre acompanhadas por uma crítica humorada à sociedade. O que gostavas que as pessoas absorvessem do teu trabalho? Que mensagem pretendes passar?

F: Questionar o mundo partindo de nós próprios. Nada é óbvio, a própria natureza mostra-nos isso todos os dias. Os processos biológicos de uma planta ou de um feto a nascer são extremamente complicados, mas com um equilíbrio subtil e frágil. Se começássemos a aplicar esta mentalidade de
nos questionarmos mais do que somos e fazemos, poderemos tornar-nos mais curiosos, conscientes e mais críticos com o que acontece no mundo. Por esta razão também gosto de misturar técnicas e materiais em outputs diferentes.

5) M: A reutilização de materiais é recorrente no teu trabalho, por isso a sustentabilidade e a ecologia são claramente assuntos que te preocupam. Que comportamento simples podemos adotar e que faz a diferença?

F: Como referi anteriormente, questionarmo-nos é a melhor forma que temos para fazer a diferença enquanto seres humanos. Questionar o que fazemos, o que compramos e, quando falo em questionar, digo fazê-lo de forma crítica.

6) M: Há uns anos desenvolveste uma caneta para invisuais. Como surgiu essa ideia?

F: Surgiu ao explorar, de forma menos óbvia, o conceito de caneta que usamos todos os dias até que, ao fim de várias pesquisas e testes, cheguei a um resultado que me levou a imaginar uma caneta que pudesse criar relevos sobre papel.

7) M: “A arte é saber viver com 600 euros por mês”. Como é ser artista em Portugal? Sentes que a arte continua a ser um tema desvalorizado?

F: Acredito que ser artista seja complicado para a maioria das pessoas, sejam elas portuguesas ou italianas, mas acredito também que a dificuldade económica nos torna artistas não só nas telas mas, também, na vida. “Desenrascar” ajuda-nos a crescer enquanto seres humanos, menos dependentes dos vícios ilusórios de uma sociedade onde o supérfluo abunda.

8) M: Dás liberdade e motivas o teu filho a pintar “paredes” gigantes em casa. Na tua opinião, a arte torna-nos melhores pessoas?

F: A Arte e não só. É essencial para todos, numa sociedade onde isso não acontece com frequência, que nos questionemos sobre nós próprios. Portanto sim, diria que a arte nos pode tornar melhores pessoas.

9) M: Destaca três artistas.

F: É difícil destacar três artistas plásticos, mas diria: Szukalski (conheci recentemente através de um documentário “Struggle: The Life and Lost Art of Szukalski”), Francis Bacon e o clássico Leonardo da Vinci.

10) M: Deixa uma mensagem à MELANCIA e aos seus leitores.

F: Bebe água, não tomes medicamentos e questiona o mundo e o seu funcionamento, tanto a nível social e antropológico, como a nível biológico. Sonha.

www.instagram.com/fiumani_/

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