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Entrevista: mafalda jesus

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Através da lente da fotógrafa de moda Cristiana Morais, conseguimos perceber um mundo de luz, cor e igualdade, envolto numa mística retro. Das múltiplas interpretações que podemos fazer ao seu trabalho, talvez as mais cruciais são as de que somos livres, fortes e de que a beleza (como já deveríamos todos saber) não é linear e, muito menos, padronizada.

1) MELANCIA: Quem é a Cristiana?
CRISTIANA: 
Sou fotógrafa de moda, tenho 33 anos e sou natural de Portimão. Curiosa com tudo na vida, adoro cozinhar e encontrar beleza em coisas que à partida não o são para a maioria das pessoas. Tudo o que é peculiar, desconhecido ou único, fascina-me. Segura do que sou e para onde quero ir.

2) M: Compraste a tua primeira máquina analógica aos 11 anos. O que te cativou na fotografia e o que te motiva a continuar a fotografar?
C: O meu pai ofereceu-me uma point and shoot aos 11 anos e fiquei fascinada logo na primeira vez que a usei: a espera pelos resultados e a expetativa de como iriam ficar as fotos. Acho que, o que me motiva a fotografar, são as pessoas no geral e como posso interpretar a sua essência com a minha visão.

3) M: O teu gosto pela moda transparece na forma como te vestes (embora te vejamos muitas vezes sem roupa ahah). Vês a roupa como um meio de comunicação? De que forma é que se relaciona com a tua personalidade?

C: A moda sempre foi algo que me chamou a atenção. Desde muito nova que é um meio para me expressar. Quando tinha 14 anos considerei seguir design de moda e até desenhei alguns sketches de peças que queria fazer. A minha avó materna foi uma influência nisso. Ela costurava as minhas roupas e, em adolescente, pedia-lhe para alterar peças minhas porque era importante para mim destacar-me com as minhas escolhas de roupa.

4) M: Estamos em 2020 mas a sociedade continua a surpreender-nos, principalmente pela falta de aceitação e constante julgamento. Os auto-retratos surgem como um manifesto. Fala-nos sobre isso.

C: Inicialmente, os meus retratos começaram como terapia, porque estava a passar por uma fase diferente na minha vida. Algumas questões corporais, o meu lugar na sociedade e se estava a ser realmente eu própria. Ajudou a conhecer-me mais e melhor e, consequentemente, ajudou outras pessoas que têm body issues a verem-se de outra forma. Não foi a intenção que tinha à partida, mas tornou-se em algo ainda melhor. O facto de saber que posso ajudar alguém com os seus problemas corporais através da forma como me vejo, é muito powerfull e satisfatório.

5) M: Fizeste parte de um projeto chamado “Equality”, do Akacorleone, que surge também como uma declaração de liberdade e igualdade. Foi fácil juntar um grupo de desconhecidos sem roupa? Como correu e qual foi a sensação de fazer parte disso?

C: O projeto “Equality” foi um sonho tornado realidade. Tinha como objetivo poder fotografar um grupo de pessoas nuas já há algum tempo e, na altura em que o Akacorleone me convidou a interpretar a sua peça, foi logo o que me surgiu em mente. Senti que era a oportunidade que tinha para poder concretizar a ideia que tinha e fazia sentido para o conceito que ele criou para a peça. No dia da shoot houve uma vibe linda entre os modelos e correu super bem. Foi muito satisfatório para todos e penso que consegui captar bem a essência daquilo que queria transmitir.

6) M: Hoje em dia o Instagram é uma das maiores plataformas para divulgação de conteúdos e o teu trabalho, muitas vezes, é composto por conteúdos considerados “sensíveis”. Como lidas com o facto de seres obrigada a censurá-lo?

C: Não é fácil de gerir algumas vezes. Sou uma pessoa confortável com o meu corpo mas, com a censura, sinto que não me posso representar por completo. Não se torna possível mostrar o quão livre podemos ser nas nossas escolhas. Para mim a censura não é uma escolha, é uma impossibilidade.

7) M: Como é ser freelancer em Portugal? 

C: Ser freelancer em Portugal a meu ver, tem prós e contras. No geral, as obrigações fiscais podiam ser melhoradas, porque vives de uma forma mais instável, não tens certezas de quando vais ter trabalho e ser pago pelas entidades para quem trabalhas e requer controlo financeiro para estares preparado para uma eventual quebra de trabalho, mas, depois tens mais liberdade e na minha área consegues ter a possibilidade de trabalhar para fora do país ou a experiência de trabalhar com clientes fora de Portugal. Acho que é importante valorizar mais esta vertente de trabalho. A prestação de serviços na área criativa é algo concebido ao cliente de forma mais distinta para ir ao encontro do que te pedem e é necessário destacar isso.

8) M: Com quem gostarias de trabalhar e ainda não tiveste oportunidade?

C: Em Portugal já trabalhei com alguns artistas que admiro e este ano tenho conseguido concretizar alguns objetivos nesse sentido. De momento não tenho uma pessoa/artista em particular com quem gostasse de trabalhar, mas gostava de desenvolver mais o meu trabalho para realização de vídeo e direção de arte e, também poder ter trabalho de editorial de moda publicado internacionalmente.

9) M: Destaca um nome ou um projeto que, na tua opinião, toda a gente devia conhecer.

C: O trabalho da Petra Collins, é uma das minhas maiores referências na fotografia. O trabalho dela é muito focado em moda, mas com uma componente realista e sentimental. Há um trabalho dela em particular

que gosto bastante, “24 hour psycho”, uma série de retratos de mulheres em que explora a sua vulnerabilidade com vários estados de emoções.

 

10) M: Deixa uma mensagem à MELANCIA mag e aos seus leitores. 

C: Quero agradecer pela oportunidade desta entrevista e por poder falar um pouco sobre mim e do meu trabalho. A mensagem que deixo a todos: sejam genuínos e nunca deixem que ninguém diga que não conseguem fazer aquilo que querem. Vivam a vossas escolhas de forma plena e acreditem sempre em vocês e nas vossas capacidades.

www.instagram.com/cristianamorais/

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