ilustração

Entrevista: MAFALDA JESUS

8B975246-FF32-4B17-ACCC-E97A056FF206.jpe

CHORA

KIKA

Maria nasceu em Lisboa e mudou-se cedo para o campo, onde aprendeu a plantar couves e a dar cenouras aos cavalos. Apresenta-se como Chora Kika porque, como a própria diz, sempre quis ser chorona de profissão. Os temas do seu trabalho vivem de múltiplas influências e são como que um re-contar das histórias que vive, interpretadas numa espécie de surrealismo líquido que, de uma forte sublime, nos atrai o olhar para cada pormenor, traço e cor.

1) MELANCIA: Quem é a Maria?

CHORA KIKA: É, sou eu. Em 96 fui nascer a Cascais, mas cedinho me mudei para o campo onde aprendi a plantar couves e dar cenouras aos cavalos. Gosto muito do mar e de pôr nele barcos à vela. Gosto de culpar os astros pela forma como me apaixono pelos senhores das padarias. E gosto de escrever cartas para guardar em gavetas. As alterações meteorológicas influenciam de forma drástica o meu humor, mas juro que por norma sou divertidíssima. Tenho uma obsessão descabida por golfinhos. Acho que eles são seres muito bonitos, inteligentes e acima de tudo são de uma perversidade barroca que me assusta e entusiasma. Em termos profissionais sinto que respondo a esta pergunta sempre de maneira diferente. Acho que eu sou e quero ser muitas coisas. Que se por um lado é algo que me deixa nervosa de madrugada, é também uma condição que me dá muita força e vontade.

2) M: Como surge o nome “Chora Kika”?
CK: Chora Kika nasce de um conjunto de circunstâncias. Em primeiro lugar porque senti a necessidade de “separar” de alguma forma as práticas do meu trabalho. Num processo que sofreu (e ainda sofre) muitas mutações, foi um alter ego que criei para mim enquanto ilustradora, que acabou por se tornar a minha marca. Chora porque é um nome que surge numa altura em que eu andava a gritar aos sete ventos a importância da lágrima e da liberdade do choro. E acima de tudo porque sempre quis ser chorona de profissão. Kika está relacionado com uma personagem que criei durante os meus tempos áureos das Caldas, sobre a qual perdi o controlo.

3) M: És licenciada em Artes Plásticas e actualmente estás a estudar Ilustração e Produção Gráfica. De que forma achas que estes cursos fazem a diferença no teu percurso?

CK: Na verdade eu já não estou a estudar. Mas foram dois cursos muito importantes para mim. A licenciatura porque me introduziu a um meio de professores e colegas cujo o trabalho eu admiro muito e me permitiu aprender imenso sobre modos de estar, de ver e de praticar. E produção gráfica foi um curso em que ingressei pós licenciatura, porque achei que fazia sentido no contexto em que eu me queria posicionar enquanto profissional. Deu-me óptimas ferramentas técnicas e práticas.

4) M: O que te levou até às Caldas da Rainha? Como é estudar numa cidade inundada de arte?

CK: Posso confessar que a liberdade de me afastar de Lisboa e da casa dos meus pais foi a grande impulsionadora da minha vontade de ir para as Caldas. Para além disso, a ESAD já me era muito bem vendida por amigos na altura e eu sempre tive muita certeza que era isso que eu queria para mim. Não me arrependo nem um bocadinho. As Caldas, mesmo depois de virmos embora, acompanha-nos com uma saudade e um quentinho no coração, que acho ser uma sensação geral a quem a viveu. Porque, por um conjunto de condições, é uma cidade com um ecossistema muito favorável à prática artística. É um lugar que vive do querer fazer e da força que isso tem. Existe muita vontade, muita entrega, muita entre-ajuda e muita partilha e essa energia faz-se sentir no ar. Está sempre tudo a acontecer e a acontecer com qualidade. É um prazer e um orgulho fazer parte.

5) M: A cor, o brilho e a textura são características que saltam à vista no teu trabalho. O que te inspira e como defines o teu estilo?

CK: Então... não sei se me é possível definir um estilo. Eu sou uma pessoa muito inconstante na forma de me comunicar no meu trabalho. Talvez inconstante não seja a palavra, flutuante talvez. Eu farto-me com facilidade e isso obriga-me a uma contínua procura de novas formas de fazer e de me perceber. Para além disso, é-me sempre muito difícil definir uma disciplina, um meio, ou um material de preferência, exactamente porque existem demasiados que me interessam. Mas é verdade que existem características que me vão acompanhando sempre, e essas que apontas são uma forma de eu me encontrar num universo muito meu. Seja na ilustração, na pintura ou na escultura. As temáticas vivem muito das minhas influências, que nada mais são que o meu contexto e as coisas que consumo, os livros que leio, as imagens que vejo, as conversas que ouço. E a internet, que também tem sempre uma presença muito forte no que faço, porque o que lá acontece me fascina de muitas formas. Tenho acesso a vários mundos e sinto que tenho o poder de me apropriar deles. No final de contas é apenas um re-contar de histórias da forma que melhor sei fazer e gosto de acreditar que existe poesia na minha imagem.

6) M: Como funciona o teu processo criativo? Como é “criar do nada”?

CK: A criatividade é uma ferramenta muito peculiar que nós temos e é incrível como ela tem a capacidade de se fazer sentir, e por vezes, quase de controlar o nosso corpo e a forma como nos comportamos. Há momentos em que a criatividade é em nós, uma coisa tão fértil e tão pulsante, que passa a ser urgente materializar. Isso acontece muito comigo. Muitas vezes os meus trabalhos nascem apenas de uma vontade muito grande de os fazer. No entanto temos de ter noção de que é algo muito frágil e que nos cabe a nós procurar o seu estado saudável. A criatividade tem de ser alimentada e exercitada. Principalmente quando estamos a falar dela como a nossa ferramenta de trabalho. E por isso às vezes sinto a necessidade de criar briefings e problemáticas como exercício e propor-me a resolvê-las. Por isso eu diria que, pelo menos para mim, nunca é bem criar do nada. Porque o que eu faço é sempre uma resposta a algo, mesmo que seja a resposta a uma vontade inerente.

7) M: O que ambicionas alcançar no mundo artístico?

CK: Olha, talvez seja uma resposta muito egoísta da minha parte, mas na verdade a minha ambição vai muito de encontro ao alcance da possibilidade de viver como criativa freelancer sem um ataque de ansiedade mensal.

8) M: Destaca três artistas.

CK: Difícil esta. Existem demasiadas respostas certas. Acho que em primeiro lugar tenho de dizer Paula Rego. É a melhor contadora de histórias que conheço e desde sempre uma inspiração. Em segundo, Valter Hugo Mãe, tem um universo muito bonito que me trás um desconforto que adoro e que muitas vezes impulsiona as minhas obras. E talvez Toco-oco, porque são para mim uma referência no trazer para a tridimensionalidade as narrativas que a ilustração carrega.

9) M: O que te mantém acordada durante a noite?

CK: Eu sou noctívaga. Não é uma escolha, se pudesse talvez até escolhesse diferente. A noite tornou-se deste muito cedo o meu momento predileto de pensar e de criar. Sempre fui muito mais produtiva depois do sol dizer adeus. Por isso, na verdade, são sempre vários os motivos que me mantêm acordada à noite. Mas a noite é também o meu momento mais vulnerável, é quando as crises existenciais se juntam e fazem festas. Felizmente eu estou numa fase em que consigo abraçá-las e consigo ter força para acreditar que vai correr tudo super bem.

10) M: Deixa uma mensagem à MELANCIA e aos seus leitores. 

CK: Em primeiro lugar agradecer à MELANCIA por me convidar a fazer parte deste projecto. E a quem lê e acompanha, um obrigada também pelo interesse em querer saber mais sobre os artistas e criativos. Não tenho bem um conselho a dar, é mais um apelo, a que não sejam demasiado duros convosco próprios e que acreditem na força do fazer. Pelo menos é o que digo a mim própria de madrugada, enquanto me auto abraço. Apoiem os artistas que gostam da forma que puderem e para além disso, dancem muito.

@chora_kika

espreita o artigo na revista