ilustração & street art

Entrevista: RITA ALVAREZ

Fotografia por @_tom.deswork

c'marie

“Ambiciosa, cheia de sonhos e com uma alma antiga”, assim se descreve Constança aka C'Marie.
A sua arte é, no fundo, um contar de histórias diferentes. Uma interpretação de vários rostos, com expressões e gestos muito próprios e em constante mutação, aplicada numa multiplicidade de suportes tão vasta que nos deixa incertos sobre qual o mais forte - quiçá, todos!

1) MELANCIA: Quem é a Constança? 

C'MARIE: A Constança é uma miúda de metro e meio, ambiciosa, cheia de sonhos, com uma alma antiga - à poeta - e que acredita muito no trabalho, na resiliência, nos laços e na família. Costuma brincar e dizer que tem “mau feitio” mas acha que isso, na realidade, se traduz por fazer questão de ter uma voz, uma opinião sempre muito presente, emancipada e por acreditar muito naquilo que é e faz.

2) M: Porquê C’Marie? 
CM: O nome surgiu de uma história engraçada: em miúda eu era uma peste... não parava quieta, sempre a escalar e a subir tudo, destemida, a querer descobrir o mundo. Parti a cabeça 4 vezes como resultado de uma infância super feliz e com espaço para ser livre. Mas quando ouvia a minha mãe dizer “Constança Maria...!”, pronto, estava o caldo entornado! Apesar de, oficialmente, não ter esse segundo nome, já sabia que quando o ouvia era sinónimo de que já me estava a “esticar” um bocadinho demais! Na hora de escolher uma identidade artística, o C’Marie assentou na perfeição!

3) M: M: Telas, paredes, madeira, gesso, iPad... A tua arte co-habita em todos estes suportes e mais alguns! Mas qual o que mais gostas? Porquê? 

CM: Acho que não tenho um que mais goste. Gosto da ideia da multidisciplinariedade, de conseguir dominar vários suportes, de descobrir diferentes soluções para diferentes matérias e corpos, de procurar respostas em gestos diferentes. Esta dança, é algo que me é muito natural porque tem muito que ver como a minha personalidade. Desde criança que “sofro” um bocadinho com a questão de me identificar com muitas actividades ou profissões e, o ter de escolher, sempre me frustrou imenso - estudei música, escultura e artes plásticas mas em miúda fiz ballet, karaté, dança, teatro e equitação, quis ser astronauta, bióloga, médica... Apesar de ter desenhado e pintado a vida toda, nunca achei que ia seguir o caminho artístico. Hoje sinto que é o espaço onde posso ser mais eu e onde tenho palco para estar numa constante demanda – exploração – descoberta. A escolha do media tem muito que ver se há ou não briefing, do momento que estou a viver, do local onde estou e da minha energia e disponibilidade.

4) M: Como descreverias o teu estilo? 

CM: Essa é uma questão difícil para mim. Sou muito exigente, autocrítica e desconfiada com o que crio... estou sempre à procura de algo que me leve a outro patamar e que me melhore, seja a nível do resultado final, seja do processo. Acho que o que faço está sempre em mutação, apesar de já ter um corpo e uma identidade um tanto definida – alguns traços que são muito próprios, as bolas no nariz e nas bochechas, os olhares, alguns símbolos...  Eu e o João (aka Egrito), estamos numa relação há 8 anos e sempre trabalhámos e tivemos projectos juntos. Chegámos a criar uma marca que consistia em aplicar as nossas ilustrações em diferentes suportes, de forma a torná-la mais acessível e democrática, e vendíamos muito em feiras e mercados de Lisboa. Tínhamos um pouco de tudo: cadernos, postais, calendários, stickers... Apesar de sempre termos trabalhado juntos, sinto que só nos últimos anos é que conseguimos mesmo encontrar o lugar da nossa parceria, definindo e delineando de forma muito simbiótica e orgânica, o espaço de intervenção e exploração de cada um: eu procuro os rostos, o figurativo, os gestos, os pequenos detalhes, e ele trabalha o fundo e a ambiência plástica, numa visão de signos e formas. Sinto que temos conseguido encontrar uma linha que complementa muito cada uma das nossas vozes e tem sido bastante gratificante ver nascer o resultado desta união.

5) M: As tuas obras são, na sua maioria, retratos. O que te “puxa” nesse caminho? 

CM: Adoro rostos, gestos, expressões. Adoro como os nossos traços mudam e se mutam de pessoa para pessoa, como podem transparecer vivências, histórias brutais. Apesar de sermos todos um, a mesma espécie, física e emocionalmente somos tão diferentes – acho isso fascinante. Quando estudava na Faculdade de Belas Artes, sentava-me nos bancos do metro a desenhar as pessoas que entravam e saiam das carruagens. Era um exercício super desafiante mas que me dava imenso gozo. Ali, naquele momento, no parar da azáfama do quotidiano, sentia o lado mais real das pessoas - não eram poses em fotografias sorridentes, eram elas mesmas, numa visão mais crua. Ficava muitas vezes a tentar imaginar as vidas, os testemunhos que ali estavam e a forma tão aparentemente aleatória como todos tínhamos acabado ali, naquela carruagem silenciosa. Acho que na altura nem me apercebia de como isso me iria marcar e trazer uma clareza sobre a vida, sobre o outro.. é algo que só agora consigo reconhecer, a importância de nos tentarmos pôr no lugar do outro, de nunca sabermos o que os outros estão a passar a sua história.

6) M: Como é ser freelancer? Consegues planear as tuas economias como conseguirias com um trabalho fixo? 

CM: Ser freelancer... honestamente não me vejo noutro regime. Mesmo sabendo que não há regalias como um salário fixo, aumentos, férias pagas, subsídios, baixas médicas... não trocava. Gosto bastante de ser eu quem gere e decide os meus horários, de sentir que as minhas horas e o meu tempo, é meu. Não quero com isso dizer que trabalho menos, de todo. Trabalharia muito menos horas se estivesse empregada numa firma para um patrão, teria fins de semana! Mas essas horas não seriam minhas, não estaria a construir o meu próprio caminho, a investir em mim, no que pretendo ser e alcançar. Estaria a lutar pelo sonho de outra pessoa... para mim, não me faz sentido. Com a idade valorizo cada vez mais o meu tempo e onde ele é empregue. E, como freelancer, adoro que nunca haja espaço para a monotonia: nunca tenho dias iguais, estou sempre envolvida em projectos diferentes, que me desafiam e me fazem questionar constantemente o meu percurso, a minha linha de trabalho. Quanto à questão do planeamento, diria que é uma questão de encontrar um equilíbrio. Na vida não priorizamos todos o mesmo, nem de forma idêntica! Cá em casa somos os dois freelancers e vamos gerindo consoante as nossas metas e objectivos, e ser freelancer é muito por fases. Sabemos que há meses do ano que exigem um grande compromisso da nossa parte, em que somos muito requisitados e chegamos a ter de recusar propostas, depois há outros mais calmos em que podemos estar numa fase mais exploratória e de menos resposta a pedidos. Aí costumamos reinventar-nos e encontrar outras formas de income, como a venda de prints originais. Felizmente, já nos encontramos numa fase em que trabalho nunca tem faltado, seja para entidades, para autarquias ou clientes privados mas, no início, dávamos também aulas de artes a crianças, trabalhávamos em montagem de exposições ou como assistentes de sala e guias de museus.

7) M: Que conselhos darias a alguém que está a começar ou que quer viver de ilustração? 

CM: Diria que, como tudo, é um processo que exige paciência e tempo mas, acima de tudo, muito investimento próprio, muito trabalho e persistência. É uma dança entre falhar, tentar e repetir, motivação e desmotivação... é saber olhar as falhas e os dias menos bons como uma aprendizagem, é uma descoberta sobre o que nos completa, o que nos faz acordar de manhã, o que dá pica e raiva ao mesmo tempo mas que, no final do dia, deixa aquela sensação de realização, de que vale a pena. A minha maior dica é desenhar todos os dias! Mesmo nos dias em que não está a correr bem. Insistir e não sucumbir à frustração. Aceitar que se vão fazer muitos disparates no que toca a orçamentos e que se vão “perder” potenciais oportunidades ou que se vai muitas vezes trabalhar practicamente de graça. Diria também para não temer as redes sociais e a partilha, ver opencalls e concursos, e estar atento ao que os artistas que admiramos estão a fazer e como o fazem, aprender com o seu sucesso e com as suas falhas. É como dizia Eleanor Roosevelt: “Aprende com os erros dos outros. Não consegues viver tempo suficiente para os cometer todos por ti mesmo”. Não é um percurso fácil, especialmente no início, e os artistas costumam fechar-se muito e partilhar pouco entre si, mas eu acredito que há espaço para todos e que só crescemos com a troca. Hoje, ao fim de uns anos como freelancer, tenho a felicidade de ter uma boa rede de contactos, em que muitos se tornaram inclusive amigos. Partilhamos situações caricatas sobre clientes, trocamos orçamentos e dúvidas, sejam elas mais técnicas ou até de contabilidade!

8) M: Onde te podemos encontrar quando não estás a trabalhar? 

CM: Não é defeito, é feitio, mas sinto que estou/estamos sempre a trabalhar. O meu companheiro de vida é, também, o meu colega de trabalho e temos péssimo controlo no que toca a isso. A linha entre o “trabalho” e aquilo que nos dá gozo fazer é verdadeiramente ténue. Mesmo de férias estamos sempre a falar de novos projectos ou novas técnicas que queremos experimentar. Estivemos 3 meses na Ásia e durante a viagem demos por nós a comprar linóleos, goivas, tintas e pincéis... Mas, podendo, estou ao sol na praia a ler Saramago ou a viajar pelo Mundo com a nossa carrinha ou de mochila às costas.

9) M: Fala-nos da Camões e da Maria Alice! 

CM: A nossa Camões faleceu este Inverno, mas ela e a Maria Alice são as nossas galinhas de estimação. Super meigas e fiéis, animais super sensíveis. A ideia foi do João, há cerca de 5 anos. A casa onde vivemos, mesmo sendo no centro das Caldas da Rainha, tem um terraço enorme, com um galinheiro! Ele sempre quis ter galinhas ali... eu, confesso, não era fã da ideia! Mas quando as fomos buscar ainda pequenitas, passou a ser uma alegria e hoje já não nos imagino sem a presença delas. Em breve vamos mudar de casa e ter um quintal maior, por isso... mais filhotas de penas!

10) M: Alguma obra que queiras destacar ou algum projecto futuro de que nos queiras falar? 

CM: Neste momento, além de muito trabalho comissariado e alguns murais que se avizinham (mas dos quais não posso ainda falar!), estou a trabalhar numa série de telas com o João (Egrito) com o propósito de as vir a expor. Tem sido algo que me tem dado imenso prazer... poder estar de volta ao atelier e poder apenas criar livremente.

11) M: Deixa uma mensagem à MELANCIA e aos seus leitores. 

CM: O tempo é o nosso bem mais valioso, tempo é vida. Só aquilo que te faz feliz, compensa verdadeiramente que invistas o teu tempo e a tua dedicação. Deixa a tua marca em tudo o que fazes, procura revolucionar o mundo à tua maneira.

@cmarie​

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