Bordado & Street Art
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Junho 2020

Entrevista: MAFALDA JESUS

FOTOGRAFIAS: VÁRIOS

ARQUICOSTURA
STUDIO

Vinda de uma família de artesãos, Raquel arranjou maneira de reinventar e tornar moderno o que é, à partida, tradicional: uma arte como o ponto cruz. Entre linhas e fios, a artista espanhola amplia este bordado típico à medida de prédios, corrimões de escadas e murais de rua, mostrando-nos quão lindo seria o mundo repleto de ponto cruz.

1) MELANCIA: Quem é a Raquel?

RAQUEL: Raquel é uma artista que trabalha entre a arte e o desenho. É positiva, não constrói barreiras e gosta de desafios. Conseguiu viver a criar, a viajar pelo mundo, partilhando com pessoas de diferentes culturas.

2) M: Como surge a arte na tua vida? 

R: Desde pequena, já gostava de desenhar e as bonecas usava-as como modelos para lhes construir móveis à medida para a casa que lhes criava e criar os seus vestidos. Inconscientemente já chegava a
ser designer. É verdade que também venho de uma família de artesãos, onde a minha avó era costureira e o meu pai é carpinteiro. Cresci entre agulhas, retalhos, govias e madeiras...

3) M: Porquê criar um projeto dedicado ao ponto cruz? 

R: Quis recuperar uma técnica que a minha mãe me ensinou quando era pequena e mudá-la de escala para levá-la a outro nível. Sem me dar conta tinha criado peças que despertavam uma emoção nas pessoas, a da lembrança, a de fazê-los sentir em casa e fazê-los felizes. Isto é mais do que suficiente para continuar a criar estas peças: criar uma emoção nas pessoas.

4) M: Apresentas-nos uma nova perspectiva de este tipo de arte, fazendo a união entre o bordado tradicional e a street art, trazendo trabalhos
de grande dimensão. Como chegaste a este resultado?

R: Levar a arte para a rua é para mim maravilhoso porque é uma maneira de chegar a mais pessoas, de partilhar e ter o poder de mudar a maneira de ver e sentir uma cidade. No meu caso, foi uma forma de dar visibilidade a uma arte feminina invisível, uma arte que nunca tinha saído de casa.

5) M: O que te inspira para criar? 

R: Cada projeto é um mundo e vem num instante e num lugar diferente, por isso dependendo do projeto e do momento, encontro inspiração de maneira diferente. Ajuda muito viajar, conhecer diferentes cidades, ter uma mente aberta, sempre com vontade de que aconteçam coisas novas a meu redor.

6) M: Como funciona o teu processo criativo? Como nascem estas enormes instalações? 

R: Primeiro, os clientes contactam-me e explicam-me a ideia e o espaço. Faço várias propostas e definimos juntos. Começa então a parte de planeamento do calendário de execução, das pessoas que vão trabalhar no projeto e a busca e compra de materiais. Como parte do processo, está a convivência de toda a equipa enquanto executa a obra e termino com a direção da montagem, com a correspondente viagem quando se trata de outras cidades ou países.

7) M: Para que as peças se conservem, deve ser importante escolher bem o material. O que usas normalmente? 

R: Depende se é para exterior ou interior, e de cada projeto. Utilizamos cada vez mais diferentes materiais. Trabalhamos com telas metálicas galvanizadas, de aço inoxidável ou banhadas em ouro ou do RAL escolhido e os cordões podem ser de algodão, de seda, de veludo ou fibras naturais.

8) M: Que mensagem gostarias de transmitir com o teu trabalho? 

R: Para mim o mais importante nas minhas obras é criar emoções, e com o meu trabalho pretendo levar os espectadores à lembrança. Fazê-los sentir em casa e consigo-o usando uma técnica familiar para eles de uma maneira mais sensitiva, devido aos materiais que criam esse relevo têxtil.

9) M: Que trabalho te marcou mais até hoje? 

R: Vivo cada projeto de igual forma, por isso todos me marcam de uma maneira ou de outra. E, muito importante, em cada projeto conheço pessoas muito interessantes que se tornam importantes para mim. Mas o projeto que me permitiu crescer foi o de Cerveja Alhambra em 2016. Foi a primeira vez que não consegui bordar porque tinha uma equipa de 16 pessoas e tinha que fazer todo o planeamento. Foi uma oportunidade muito boa poder fazer uma obra tão grande, de exatamente 77 metros quadrados.  A última obra que realizei, a instalação para o claustro do CCCC em Valência, marcou-me também porque foi a primeira vez que fiz uma obra envolvente, uma instalação luminosa e onde desfrutei muito de todo o processo criativo, porque era uma obra mais pessoal.

10) M: Se pudesses mudar alguma coisa no mundo, o que seria?

R: Eu adoraria que desde pequenos nos ensinassem a identificar as nossas emoções e a saber transmiti-las. Permitir-nos sentir mais.

11) M: Deixa uma mensagem à MELANCIA mag e aos seus leitores.

R: Muita gente me diz constantemente que tenho sorte de poder fazer o que faço. A minha resposta é sempre que a sorte que tenho e tive sempre foi graças a ter uma paixão muito clara e apostar nela: CRIAR e compartilhá-la com o mundo. Ser constante, acreditar em ti próprio, saber que o limite és tu mesmo e querer alcançar grandes metas, permitem-te chegar longe. E saber que esta é uma corrida constante a fundo, da qual temos que continuar a crescer sem parar.

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