Entrevista: mafalda jesus

ilustrações: ana das aventuras

ana das

aventuras

São as suas aventuras e desventuras que a inspiram.
Ana Ventura procura trazer familiaridade a um público que, tal como ela, se aventura todos os dias no trabalho, na vida, no amor, nos hobbies, na vida real... Ilustradora, modelo e youtuber, sabe que a vida custa mas que, com um pouco de cor e humor, custa menos. E é isso que nos traz nos seus comics.

1) MELANCIA: Quem é a Ana? 
ANA: 
A Ana é ainda várias Anas, com muitas àVenturas pela frente e muita aprendizagem pelo meio. Adoro o mundo do cinema, da animação e da música e vivo diariamente dentro deles, salvo seja. Sou sonhadora mas receosa, insegura mas atrevida. Não aceito uma vida baseada na sobrevivência que é dita a forma normal de viver, isso revolta-me. Criei a Ana das aventuras, um desenho meu que, ao contrário do que aparenta, não vive no mundo fantástico dos desenhos animados mas sim no meu mundo, no mundo real. Criei-a em busca de uma vida feliz com pequenos momentos tristes em vez de uma vida triste com alguns momentos felizes. Faço-o através de comics representativas de medos, obstáculos, sentimentos íntimos, histórias do passado, do futuro, enfim, desventuras da vida por que todos passamos. Porque acredito que talvez seja a partilhar com os outros que as respostas me chegam a mim.

2) M: Vens de uma família de artistas. Conta-nos como foi crescer dentro desse meio.
A: Crescer numa casa de artistas foi, sem dúvida, algo que me proporcionou, desde sempre, a criar em modo non-stop, em qualquer momento livre que tivesse. Em pequena, com a minha mãe desenhava zoos em folhas A2, com o meu pai desenhava ditados populares interpretados à letra. Por exemplo a expressão “Mais depressa se apanha um mentiroso que um coxo” ilustrava numa corrida entre um Pinóquio e um senhor coxo prestes a ficar em primeiro lugar. Com pais separados, consegui fazer tantos tipos de desenhos, pinturas, histórias, colagens que, aos meus 10 anos, os meus pais já me falavam na importância de vender as minhas obras de arte a preços justos. Claro que não nasci uma pro mas fui aprendendo, com muitas birras pelo meio quando não ficava perfeito. Aliás, lembro-me perfeitamente de querer deitar desenhos fora quando a coisa corria para o torto e de o meu pai me dizer que isso nunca se faz, que deitar um desenho fora é crime. Não me lembro quando comecei a ter este amor pela arte porque nasci com ela, pudera, com estes meus pais nem teria outra hipótese. 

3) M: Como surge esta necessidade de ilustrar histórias e sentimentos? 

A: Eu sempre fui uma miúda que pensa demasiado ao ponto de começar a ter enxaquecas, daquelas que só passam mesmo com iboprufeno. E quando digo pensar, é esmiuçar as coisas ao extremo. Questiono tudo constantemente, desde o porquê de ainda existir tanto preconceito e discriminação no mundo a o que poderá vir depois da morte. E eu tenho quase a certeza que este tipo de enxaquecas só acontecia mais vezes porque eu não vomitava os meus pensamentos, as minhas histórias, as minhas opiniões. Então juntei o útil ao agradável e experimentei dedicar-me a isso através do Instagram, desenhando. Antes, já postava desenhos mas não me atrevia a expressar-me como faço hoje, não sei se por vergonha, se por achar que ninguém me ia ouvir. Admito que anteriormente sempre achei que os meus desenhos não eram valorizados nas redes sociais e nas primeiras vezes que tive tanto hype, que recebi tanto amor e tanta admiração pelas minhas comics, fiquei espantada. Não sabia que tanta gente passava pelo mesmo que eu. Isso acalmou-me e acalma-me, saber que não estou sozinha nisto. Como não tenho 50 euros para gastar num/a psicólogo/a por mês, comecei então a usar a técnica do dar e receber, expondo o que sinto e recebendo o que os outros sentem através dos meu desenhos. Somos os psicólogos uns dos outros, ajudamos e deixamo-nos ser ajudados. É mútuo porque nos identificamos.

4) M: O que pretendes despertar nas pessoas? 

A: Sinceramente, eu só quero que as pessoas consigam perceber o que realmente deve ser estimado no mundo. É essencial saber como nos podemos polir para sermos pessoas melhores, aquilo a que nos podemos apegar para sermos felizes, o que podemos fazer para não cairmos na depressão, ensinarmo-nos mutuamente que nos devemos respeitar e apoiar e não reprimir ou invejar. É urgente desconstruir padrões de beleza, saber que quanto mais puros somos por dentro, menos relevância se dá a superficialidades que têm um impacto estúpido nos dias de hoje. Saber ter amor próprio de modo a poder dar amor ao próximo, proteger quem é considerado diferente, quando para ti é totalmente igual. Reconhecer que somos todos igualmente diferentes. No fundo, sermos pessoas, pessoas felizes e boas. É tão importante acabar com estereótipos. Tudo o que eu quero é despertar consciência limpa, optimista, humanitária e descomplexada. 

5) M: Para além da ilustração, trabalhas no mundo da moda. Onde vais buscar energia e inspiração para alimentar tantas atividades em simultâneo?

A: Na verdade, o que faço profissionalmente é vídeo e edição, naquelas 8 horinhas diárias, 7 dias por semana. Mas sim, muitas vezes tenho castings através da minha agência de moda, a Elite, e sim, pode-se tornar cansativo. É engraçado porque já fui a milhares de castings e o nervosinho miudinho continua sempre lá, todas as vezes. Mas o que me cativa tanto nestas mini aventuras é o facto de este tipo de trabalhos- anúncios, campanhas de moda - me testarem a mim mesma, continuo a frisar a importância de construirmos a nossa confiança ao provarmos a nós mesmos que somos capazes de coisas em que somos desastrosos na nossa mente. É urgente movermo-nos a esse ritmo, focarmo-nos não sempre nas pessoas que adoramos mas também em nós mesmos. E mesmo que corra tudo mal, a diversão deve ser sempre dominante, mesmo que tenha tido uma prestação péssima (felizmente as filmagens dos castings depois são sempre apagadas, graças a deus). Rir-me de mim mesma é rir-me comigo. Para além disso, eu fui feita para o mundo das artes e entretenimento por isso qualquer área artística inspira-me instantaneamente, simplesmente corre-me no sangue. Ah, e muita da minha energia vem também do chocolate preto.

6) M: Sabemos que a realização também é uma das tuas paixões. Vais investir nessa área?

A: Nem que tenha 80 anos, um dia, eu vou ser uma grande realizadora. É daquelas coisas que eu nunca vou deixar passar ao lado e que, no momento em que me dedicar à séria, irei deixar-me prender de tal forma que vai ser um começo sem fim, tenho a certeza. Tenho simplesmente demasiadas ideias, demasiadas coisas para dizer e nada melhor que contar ao mundo o que eu quero tanto transmitir através de um filme. Os filmes mudaram a minha vida, salvaram-me da ignorância. Já desejei muito fazer filmes de animação na Pixar Studios, mas infelizmente e rapidamente descobri que animação bem feita, digna de Óscar, demora demasiado tempo e eu ainda quero ser muitas coisas durante esta vida. Por isso, cinema de acção real, here we go!

7) M: Que coisas são essenciais para o teu dia-a-dia?

A: No meu dia-a-dia o mais importante é não ficar parada. É essencial miminhos da Verinha, refeições que não desiludam, exercício físico q.b., mover projectos para a frente, cantar alto, rir até doer a barriga, as minhas pessoas e ao final do dia, o conforto da minha casa com trash tv ou um bom filme.

8) M: Destaca três artistas, que qualquer pessoa devia conhecer. 

A: Na ilustração, a grande Polly Nor porque é o exemplo perfeito de uma ilustradora de sucesso. A Lykke Li porque quando for cantora quero tocar pessoas como ela me toca a mim. E o enorme Wes Anderson porque um dos meus sonhos dita: “directed by Wes Anderson and Ana Ventura”

9) M: O que te mantém acordada durante noite? 

A: Nervos de um compromisso importante no dia a seguir, uma comic que quero muito terminar, fome, uma bela de uma série que me prende até ao fim da temporada ou a junção disso tudo.

10) M: Na tua opinião, que noção um artista nunca deve perder? 

A: Para mim, qualquer tipo de artista nunca se deve esquecer daquilo que o incentivou a criar inicialmente, daquilo que adorou em si como artista ao ponto de se querer mostrar aos outros. Um artista deve ser sempre fiel a si mesmo e nunca deve perder a sua essência por opiniões alheias ou pouca aprovação. É fundamental orgulhar-se sempre daquilo que faz, do talento que tem e de como decide exteriorizá-lo.

11) M: Deixa uma mensagem à MELANCIA e aos seus leitores. 

A: Pessoas, agarrem a vida, não a deixem passar ao lado. E se nascemos num corpo humano, que usemos a nossa ferramenta melhor- a cabeça - e que façamos isto valer a pena, já agora! Sejam felizes e contagiem os outros com essa felicidade! 

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