TIPOGRAFIA

Entrevista: JULIANA LIMA

MISS

PRINT

Sabes aquele sentimento bom quando alguém vem até nós mostrar o seu trabalho e, além da arte, encanta-nos com o seu entusiasmo e a sua paixão por tudo o que faz? Miss Print chegou até a MELANCIA mag e apresentou-se. O seu contacto fez-nos lembrar que não importa a dimensão do projeto, mas sim a intensidade e a verdade com que o fazemos. Afinal, projectos criados e geridos com o coração (com talento e muita técnica também, claro!) têm muito para nos ensinar. E, pronto, merecem destaque. Neste caso, nas nossas páginas e na nossa capa, e também em muitas paredes por aí. Encanta-te com esta Miss que nos encantou com as suas prints.

Filha de pais pintores, licenciada em Filosofia e com uma pós-graduação em Edição e mais mil pequenos cursos disto e daquilo, Rita Canas Mendes, 31 anos, iniciou o seu projeto 2012 depois de participar num workshop de tipografia com Amos Kennedy, um impressor americano, na Associação Oficina do Cego.

 

Foi ali que ela conheceu e apaixonou-se pelo processo. Sentiu um vendaval interior. Depois, foi uma questão de tempo; as ideias vinham em catadupa e, à medida que ia reunindo mais materiais e descobrindo novas técnicas, ia podendo fazer coisas novas.

 

Em 2015, registou a marca Miss Print, lançou o seu site e oficializou o seu estúdio de tipografia. Apesar de estar dentro da sua casa, confessa ser o atelier a ocupar mais metros quadrados. Afinal, a tipografia requer espaço para trabalhar, luz natural, janelas para o ar circular e zonas para a secagem dos papéis, porque, segundo Rita, as tintas, à base de óleo, levam vários dias a secar! É de questionar, como ela como consegue se organizar assim? E a resposta de Miss Print é de deixar qualquer um surpreso. Simples e prática: “Quando estou dedicada a outras coisas, compacto o estúdio o mais que posso, arrumando tudo ao melhor estilo matrioska. Quando me dedico às impressões, aí tenho o estendal completo. Consigo gerir bem esse alternar de funções do espaço; é tão fluido quanto essas áreas na minha vida - ora traduzo, ora faço prints, ora descanso, ora escrevo, ora acompanho projectos de clientes, ora recebo amigos para jantar. Como gosto muito da minha casa e tenho tudo relativamente organizado, o facto de trabalhar e viver no mesmo sítio é um prazer. Posso ter uma ideia na cozinha e ir executá-la imediatamente na sala ao lado.” disse Rita.

 

Rita esteve ligada aos livros desde sempre. Há dez anos que trabalha no mundo editorial, tendo cargos em diversas editoras. Em 2011, tornou-se tradutora e consultora em regime independente (www.comtexto.pt). Por isso sempre esteve rodeada de palavras, sejam dos outros ou próprias. Aproveitando esta experiência no mundo editorial, escreveu um guia prático chamado “Como Publicar o Seu Livro”, com a chancela da Bertrand. Investigou, entrevistou, compilou, redigiu e vai apresentá-lo no dia 18 de Maio às 18h30, na Fnac do Chiado.

 

Sabendo que Rita sempre gostou das palavras e que as suas prints são sempre recheadas de letras, tendo base a tipografia artesanal, pedimos-lhe para falar um pouco sobre o seu processo criativo e quisemos saber mais algumas curiosidades sobre a Miss Print.

 

1) MELANCIA: Fala-nos sobre o teu processo criativo.
RITA: 
Gosto muito de palavras, gosto muito de cores, não me importo de ter ideias parvas nem de sujar as mãos. Essa é a base de tudo. Depois, o processo criativo está sempre a acontecer, esteja eu onde estiver. Ocorrem-me ideias constantemente, algumas das quais anoto. Quando a ideia já apurou, quando ela não me larga, vou para o estúdio. Monto tudo, visto roupa de trabalho e, aí, começa o jogo. Tenho de combinar o tipo de letra certo com a cor certa no papel certo, que imprimo com a força certa, na posição certa. Isto leva muito tempo e, claro, saem muitos disparates antes de sair qualquer coisa para a qual não me importo de olhar. Se tiver sorte, sai qualquer coisa para a qual gosto muito de olhar. No fim do processo, o resultado até pode ser bastante diferente do que tinha imaginado ao início. Gosto muito quando isso acontece. Vou deixando que as coisas fluam, vou adaptando, até chegar a um ponto em que me identifico com o que vejo. Aí chegada, missão cumprida, passo para a ideia seguinte (sabendo que posso sempre revisitar ideias antigas).

2) M: Sabemos que produzes impressões tipográficas de autor, originais e únicas.Quais as tuas principais inspirações e referências para fazê-las?
R: Todas as minhas prints são peças únicas. O processo que uso é tão manual que não é sequer possível ter duas impressões iguais. Ninguém leva para casa uma reprodução, todos os trabalhos são originais, pensados e produzidos de raíz por mim – da escolha dos papéis à mistura das cores que obtenho e à aplicação das tintas. Daí falar em impressões únicas. Mas não é só por isso. Aquilo que imprimo sai quase sempre da minha imaginação, salvo excepções claramente indicadas: encomendas ou citações que escolhi. As citações certeiras são uma das minhas inspirações, mas há uma infinidade de coisas que me inspira: a linguagem – seja em português, inglês ou noutra língua qualquer –, os relacionamentos, a pop e a street art, a música, a stand up comedy, o design, a publicidade... Acabo por misturar tudo num grande rebuçado de tutti-frutti visual, que quero o mais saboroso, bonito e divertido que conseguir (sem nunca almejar à perfeição).

3) M: No site sugeres que pessoas com ideias para uma print enviem e-mail com a sugestão. Já fizeste algum trabalho com sugestões enviadas?

R: A Miss Print tem encontrado alguns espíritos afins, e há certamente muitas pessoas com ideias giras que merecem tradução gráfica. O meu estúdio tem a porta aberta a boas ideias que venham de fora. Recentemente, um amigo meu usou a expressão “moscas do tempo” para se referir ao dito inglês “time flies”. A piada dele fez logo luz na minha cabeça e fui fazer uma print com ela. Se alguém tiver uma ideia boa que queira partilhar, sou toda ouvidos. MELANCIA mag: Como foi criar a print para a MELANCIA mag? Gostamos tanto que decidimos fotografá-la para compor a a nossa o nosso conteúdo desta edição! :) Miss Print: Foi muito divertido criar esta print. Soube de imediato qual o papel que queria usar, e lembrei-me logo de recorrer a acentos ortográficos (virados de pernas para o ar) como sementes. Depois, o nome Melancia andou a bailar na minha cabeça até se partir em três: me-lan-cia. Na vertical, por se tratar de uma capa de revista. Me lan... parece o começo de uma frase. Então, como o que a MELANCIA mag faz é lançar talentos, melancei!

www.miss-print.pt

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