Entrevista: MAFALDA JESUS

fotografias: MÁRIO CRUZ

MÁRIO

CRUZ

O trabalho “Talibés, escravos contemporâneos” (sobre crianças escravas em escolas islâmicas do Senegal e da Guiné Bissau) valeu-lhe a distinção no World Press Photo 2016 (patente no Museu de Eletricidade) e o Prémio Fotojornalismo do Estação Imagem Viana do Castelo. Mário Cruz, 28 anos, cria narrativas poderosas sobre o real. Para denunciar, alertar, revelar para além do superficial.

1) MELANCIA: Quem é o Mário?
MÁRIO: 
Sou fotojornalista. Desde 2006 que represento a Agência Lusa que coopera com a EPA - European Pressphoto Agency. Em 2012 decidi dedicar-me a projetos documentais que neste momento são a minha prioridade.

2) M: Como chegaste até ao mundo da fotografia?
M: O meu pai é fotógrafo e devido a esse facto o “mundo da fotografia” sempre fez parte da minha vida. Ao receber a minha primeira máquina fotográfica, quando tinha 11 anos, não senti uma ligação imediata, sobretudo, por não perceber as capacidades que vinham com ela. Nunca me interessei muito pelo tipo de fotografia que o meu pai desenvolvia. Ele sempre esteve ligado ao corporativismo e ao desporto. Mas o interesse mudou quando me apercebi que ao formar um conjunto de fotografias podia contar uma história ou o que sentia.

3) M: Quando descobriste que o fotojornalismo era o caminho? 

M: O jornalismo foi a escolha natural para aquilo que mais queria fazer. Senti uma necessidade enorme de mostrar coisas que na minha cabeça mereciam atenção mas por motivos que na altura não compreendia não apareciam nos jornais ou televisões. Senti uma grande força da fotografia ligada ao jornalismo. As fotografias seriam a minha voz.

4) M: Trabalhas sobretudo temas sociais e humanos e, por isso, tenho a certeza que tiveste episódios marcantes e inesquecíveis. O que consideras mais importante para se ser um bom fotografo? 

M: Na minha opinião para ser fotojornalista existem 3 bases fundamentais: integridade, honestidade e imparcialidade. Embora todas estas condições possam parecer semelhantes ou, facilmente, interligadas não deixam de constituir um desígnio que hoje em dia parece ausente em muitas das redações de jornais e revistas. Só depois da interiorização destes princípios se pode começar a entrar nos campos técnicos e subjetivos da fotografia. Um fotojornalista deve documentar a realidade com que se depara sendo ao mesmo tempo presente e ausente. Esse equilíbrio difícil tornasse determinante na qualidade do seu trabalho. A mensagem que quer passar tem de ser lida por todos e para todos e o barómetro desse sucesso é precisamente a memória. A memória de quem vê o seu trabalho. No presente em que vivemos este objetivo é particularmente desafiante pela quantidade de informação que temos ao nosso dispor. É uma overdose visual diária sem sentido, daí o desafio de alguma fotografia ficar realmente na nossa memória. A subjetividade da fotografia no que se deve à parte estética e plástica da imagem no fotojornalismo e bem como nos restantes campos fotográficos é o que muitas vezes distingue os vários autores. O fotojornalista que reúna o melhor de cada componente deste processo complexo é o que será mais bem sucedido.

5) M: O que te inspira? 

M: A maior dificuldade, neste momento, é encontrar mecanismos de sobrevivência. Não penso que o fotojornalismo irá acabar, longe disso! Mas, presentemente, o fotojornalismo atravessa por um período de muitas restrições económicas e até existenciais. A fotografia que dá prova e testemunho não tem espaço nos jornais que lemos e nas revistas que compramos. A narrativa é substituída pelo superficial. A exigência pelo facilitismo. O tempo é hoje um inimigo do fotojornalismo e por isso a absoluta urgência em encontrar soluções que ponham o fotojornalismo no lugar que é seu e que a sua valorização e necessidade seja de uma vez por todas uma prioridade.

6) M: Na tua opinião, qual é a maior dificuldade no mundo do fotojornalismo? 

M: Acho que nunca senti, nem ouvi, nenhuma história estranha. Nem mesmo aquelas que as pessoas pedem para não falar delas. São histórias do dia-a-dia, a vivência de cada um. Algumas histórias são tristes. Outras são tristes, mas de alguma forma foram ultrapassadas. E outras são mesmo felizes. Eu gosto de ter a sorte de encontrar uma história feliz. E depois aliar isso a uma boa fotografia é o verdadeiro desafio. Por vezes, não conseguimos nem uma coisa nem a outra. Recentemente, aconteceu uma coisa que só dei conta em casa ao tentar escrever o texto. Fiquei tão absorvido pela conversa que acabei por falar muito pouco sobre a “estranha” em questão. Fiquei aborrecido, mas a conversa valeu a pena. Naquele dia ponderei fotografar outro estranho, mas depois pensei que não fazia sentido. Aquela pessoa era a “minha estranha” do dia.

7) M: Já participaste em exposições e publicações nacionais e internacionais e inclusive foste premiado no World Press Photo 2016. Qual é a sensação de ver o teu trabalho a atravessar fronteiras e a ser destacado num concurso tão importante quanto este?

M: O que sinto ao ganhar o World Press Photo, o POYi, o Estacão Imagem ou uma distinção da Magnum é o mesmo e o significado também. Todas estas distinções vão ao encontro do que mais procuro: visibilidade. Visibilidade e atenção para as histórias e temas que documento. É esse o meu objetivo e estes prémios acabam por colmatar a falta de espaço que existe na imprensa nacional e internacional. Naturalmente que existe um sentimento especial quando se ganha um prémio do World Press Photo com um conjunto de 8 fotografias que mostram uma realidade que não devia existir como é o exemplo da realidade Talibé. Um mundo em que milhares de crianças são escravas de falsos líderes islâmicos e que para além de serem obrigadas a mendigar são também torturadas e violadas pelos seus supostos guardiões. Esse sentimento especial ganha ainda mais expressão quando o fotojornalismo mostra o seu poder e foi precisamente isso que aconteceu quando tantas crianças foram resgatadas e o governo senegalês assumiu o compromisso de usar as minhas fotografias para uma campanha nacional de sensibilização.

8) M: Onde encontramos o Mário quando não está a fotografar? 

M: Estou com a minha família e amigos. Mas, sobretudo com a minha namorada que é essencial para o meu equilíbrio e fundamental no apoio que preciso para continuar a fazer os meus projetos pessoais. Ela também é fotojornalista e percebe bem o grau de exigência associado ao tipo de trabalho que faço.

9) M: Qual é o teu lema de vida? 

M: Não tenho nenhum lema de vida. Sinto que sou uma pessoa com muita sorte pela educação que tive e pelas oportunidades que me deram e o que tento fazer é dar sempre o meu melhor na criação de documentos que originem discussão e diálogo em torno de questões essenciais para o desenvolvimento social e humano.

10) M: Deixa um recado à MELANCIA mag e a todos os nossos leitores.

M: Sei que qualquer novo desafio editorial neste momento é sempre fruto de muita vontade e esforço pessoal e por isso espero que a Melancia Mag seja bem sucedida. Um abraço e sorte para toda a equipa.

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