ILUSTRAÇÃO & STREET ART

Entrevista: JULIANA LIMA

AKACORLEONE

Pedro Campiche, akacorleone, tem 30 anos e diz ser um “gajo contraditório”. Talvez seja... Entretanto, nesta entrevista, revelou-nos bastante coerência no seu percurso artístico e processo criativo. Entra connosco neste mundo cheio de referências, formas e cores e inspira-te.

1) MELANCIA: Antes de falarmos da tua arte, queremos saber: quem é o Pedro Campiche?
AKACORLEONE: 
Sou um gajo descontraído, distraído, focado, parvo, curioso, extrovertido, ambicioso, perfeccionista, desenrascado, não me levo demasiado as sério, contraditório certo?

2) M: Como sabemos que gostas de filmes, imaginamos o motivo, entretanto queremos saber de ti o porque do teu nome artístico ser “Akacorleone”?
A: Como mencionaste, sou um film buff [especialista em cinema], mas acima de tudo sou obcecado pelas subculturas e submundos, sobre os códigos de sociedades paralelas, o mundo do crime organizado sempre me interessou como objeto de estudo. A máfia é um destes submundos cheios de códigos, regras, rituais, linguagens, sempre me interessei pelo tema, muito impulsionado pelo cinema e pelo “Padrinho” em particular. Na altura de escolher um tag de graffiti, achei que era um nome apropriado porque impunha respeito e soava-me bem.

3) M: Como começou o teu gosto pela arte? 

A: Começou desde que me lembro, o meu pai é escultor e professor de artes, logo sempre estive ligado a este mundo, mas nunca me senti “direccionado” para lá, era simplesmente fascinado pelo atelier do meu pai, pelos materiais, pelos desenhos dele, pelos livros, pelas bandas desenhadas, foi tiro e queda.

4) M: E a tua entrada no mundo do graffiti, como aconteceu? 

A: O graffiti foi a minha porta de entrada para a prática artística, mesmo que de forma inconsciente, porque não era o objectivo quando comecei. No inicio, foi, acima de tudo, um ato de rebelião, de fazer algo contra as regras, era a minha forma de expressar a vontade de ser diferente, de fazer parte de algo. Mergulhei neste mundo (já tinha o fascínio pelas subculturas) e foi como uma obsessão durante toda a minha adolescência e início de vida adulta. Foi a minha vida e é ainda um dos meus maiores focos de inspiração nos dias de hoje.

5) M: Sabemos bem que, para ter destaque, tens de ter um estilo muito próprio. Reconhecemos o teu trabalho a andar por Lisboa, no Village Underground ou em algum muro pela Graça. Gostaríamos de saber como foi o teu percurso para encontrar a tua identidade artística? 

A: O meu percurso de procura de identidade artística é constante, não parou desde que comecei e acredito que é a melhor forma de me motivar, no dia em que o meu estilo estiver estagnado é um dia em que terei que encontrar outra identidade. Neste percurso que ainda decorre, procuro sempre estar atento ao que me rodeia, procuro evoluir a minha técnica, tento experimentar o máximo possível, procuro puxar pelos meus limites, aborrece-me ter uma fórmula e repeti-la, gosto da incerteza, da insatisfação, obriga-me a melhorar.

6) M: Cores fortes, geometria, e personagens. Conta-nos com funciona o teu processo criativo na construção de um graffiti. 

A: É importante perceber que o que eu faço não é graffiti. Graffiti é será sempre um acto ilegal, um acto de protesto, faz parte de um movimento que não procura aceitação do público, nem comunica para ele, comunica para quem faz parte da cultura, é como um diálogo privado à vista de todos. O que eu faço é muralismo, é arte no espaço público, sou inspirado pelo movimento do graffiti, foi a minha escola e uso as mesmas técnicas, mas não é o mesmo acto, nem o pretende ser. Acho que tem que haver espaço para várias linguagens, uma não pode “engolir” a outra. O meu processo é simples, passa sempre pelo papel, pelos meus esboços, pelas ideias que vou tendo e que procuro sempre anotar, que depois muitas vezes são passadas para o formato digital, em que exploro as cores, transparências, acumulação e subtração de elementos, até achar que tenho o equilíbrio perfeito entre cor e forma. Depois passo para o formato final, seja numa parede, numa tela, numa instalação ou poster. Este é o processo normal.

7) M: Sabemos que, além de pintar, tens outros gostos engraçados e bastante específicos como: colecionador de brinquedos, biker, amante de viagens e jogador de ping-pong, entre outros. Fala-nos um pouco sobre as tuas outras atividades.

A: Bem, acho que está aí quase tudo resumido... sou um coleccionador compulsivo, gosto de acumular tralha, sou viciado em feiras da ladra, livros antigos, banda desenhada, velharia, objectos kitsch, serigrafias, streetwear, ténis... Quando vejo o programa “Hoarders” fico assustado porque sem autocontrolo transformo a minha casa num junkyard [depósito de ferro velho]. Se seguirem o meu instagram conseguem conhecer-me melhor, para além do meu trabalho.

8) M: Estas tuas atividades influenciam de alguma forma a tua arte? 

A: Tudo influencia a minha arte. Um filme que vejo, uma banda desenhada, um neon na rua, uma conversa de café, um papel no chão... A piada da inspiração é que pode vir a qualquer momento de qualquer lado...temos de estar sempre atentos e abertos a estas influências...

9) M: Que objetivos gostarias de alcançar no futuro? 

A: O objetivo mais imediato é o de conseguir viver da minha arte, de gradualmente deixar de fazer ilustração comercial (que é uma boa escola e em que posso explorar algumas linguagens, mas estou sempre “preso” a um briefing ou caprichos do cliente) e focar-me inteiramente no meu trabalho artístico, em exposições, murais, novos projectos que me dêem liberdade para explorar a minha linguagem e experimentar o máximo possível. Espero poder continuar a viajar e a pintar pelo mundo fora, conhecer outras culturas, interagir com novas realidades, que me influenciam sempre e fazem o meu trabalho evoluir. Continuar a fazer o que realmente gosto, ser feliz com o que faço e com as pessoas que me rodeiam. Conquistar o mundo.

10) M: Como todo o artista, imaginámos que também tens as tuas inspirações. Destaca-nos as tuas principais referências.

A: Esta é a questão mais difícil de responder, as minhas influências mudam diariamente, todos os dias tenho acesso a nova informação que me inspira, há tanto conteúdo, tanta informação, tantas influências, que é injusto enumerar apenas algumas.

11) M: Elege o trabalho que mais te marcou e diz-nos porquê. 

A: O trabalho que mais me marcou foi a primeira exposição a solo que fiz na galeria Underdogs, “Find Yourself In Chaos” porque foi para mim um ponto de viragem no meu trabalho. Foi o início de uma parceria que é hoje um dos maiores pontos de foco do meu trabalho. O Alexandre e a Pauline acreditaram o meu trabalho e deram-me todas as condições para o evoluir, a partir daí, abriram-se portas e surgiram convites que moldaram o meu trabalho para o que é hoje... E agora estou de volta à mesma aventura... Estou a preparar uma nova exposição a solo na galeria Underdogs para o fim de Junho, em que estou a focar toda a minha energia. Under Pressure!

12) M: Deixa uma mensagem à MELANCIA mag e a todos os seus leitores.

A: Encontrem a vossa vocação, paixão, obsessão, o que lhe quiserem chamar e mergulhem de cabeça nesse projecto, não há nada melhor do que lutarmos para fazermos aquilo que realmente gostamos.

akacorleone.com

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