ENTREVISTA: mafalda jesus

Fotografias: vários

66 dias

na ásia

Daniela Portugal e Mariana Dias, duas jovens portuguesas de 23 anos, com um espírito aventureiro e generoso. Largaram tudo, pegaram nas poupanças, puseram as mochilas às costas e foram à descoberta do sul da ásia, com objetivos traçados: fazer voluntariado e viajar tanto quanto possível. Garantem que foi uma experiência inesquecível e contam-nos alguns dos episódios que mais as marcaram. Viaja connosco nesta entrevista!

“O que é que estou a fazer a minha vida? A clássica pergunta de quem se veio meter no fim do mundo, em condições precárias e com diarreia do viajante. E vômitos. E muito, muito calor. Chegamos a aldeia de Chiro, passava pouco tempo do meio dia. Estava um calor infernal, o chão estava sujíssimo, semelhante a um aterro sanitário e demos por nós a pensar o quão díspar era tudo aquilo em relação ao site da organização.”

 

Foi esta a situação no início do voluntariado... Mas no fim chorámos. Chorámos baba e ranho por irmos embora, por deixarmos para trás parte de nós e todos aqueles coraçõezinhos tão meigos que gritavam “Mary you go, I cry”.

 

1) MELANCIA: Como descrevem estas duas raparigas?
Somos diferentes mas naquilo que é essencial partilhamos as mesmas ideias. Passar dois meses com alguém em situações, por vezes, de pressão e de limite só funciona se respeitarmos o espaço uma da outra e falarmos abertamente sobre tudo. Sermos das melhores amigas também ajudou claro. Descomplicadas, acho que é a palavra que melhor nos descreve.

2) M: Como surgiu a ideia de embarcar nesta aventura? Foram inspiradas por alguém, algum exemplo anterior?
Ambas fizemos parte da AIESEC, uma associação que proporciona a jovens universitários a possibilidade de fazer estágios de voluntariado de seis semanas em qualquer parte do mundo. Tornámos o sonho do voluntariado realidade para muitos jovens e sempre quisemos fazer o mesmo por nós próprias. O gosto por viajar determinou o mês e meio que se seguiu ao voluntariado.

3) M: Ser voluntário num local remoto do planeta não é para todos. Qual é a característica indispensável para desempenhar esse papel?

DANIELA: Ter a capacidade de nos adaptar à situação em que nos encontramos é fundamental e pensar, acima de tudo, que os problemas só são problemas se não tiverem solução. Sempre que sentia falta do meu conforto ocidental - da sanita à agua potável - pensei sempre “ se estas pessoas vivem assim a vida inteira porque não adaptar-me a isto durante 18 dias?”.

MARIANA: Relativizar. Lembro-me que a Daniela ficou doente assim que chegámos à aldeia de Chiro e eu tive de ser fria. “Não. Isto não é malária e nós safamo-nos desta. FOCA-TE”.

4) M: Como foram acolhidas pelos habitantes locais? Com recetividade, desconfiança, esperança...?

D: A família que nos acolheu fez-nos sentir ‘da casa’ assim que chegámos. O facto desta família ter pessoas da nossa idade tornou tudo mais próximo e sei que fico com amigos para a vida naquela pequena aldeia no Camboja depois de termos partilhado a mesma casa durante aquelas semanas. As crianças adoram conhecer quem chega, brincar e aprender e os adultos oferecem-nos tudo, o que faz com que rapidamente nos sintamos parte da comunidade.

M: Creio que a Daniela disse tudo. Não existe qualquer medo ou desconfiança por parte dos locals. Guardo uma enorme saudade de todas aquelas gargalhas infantis e ensinamentos da “matriarca” da família. Trouxe imensos mimos das meninas (pulseiras, peluches, papelinhos amorosos) que me foram dados no meu aniversário na vila. Chorámos tanto no fim... Dói no coração só de pensar. Espero mesmo que todos aqueles sonhos sejam concretizados.

5) M: Qual foi o maior ensinamento que retiraram desta experiência?

D: Aprendi que, acima de tudo, a felicidade é um conceito que pode ter várias vertentes, algo que o povo do Cambodja me ensinou a ver nas pequenas coisas. E ainda que há mais estilos de vida válidos do que aquele que os ocidentais levam - escola, faculdade, trabalho.

M: A partilha. Não conheci nenhuma criança que não partilhasse aquilo que comia, sendo que temos de nos lembrar que a comida na aldeia era muito escassa. Um peixe grelhado chegou a ser repartido por nove pessoas.

6) M: E a maior dificuldade?

D: No dia em que cheguei a Chiro fiquei realmente doente e confesso que pensei em desistir. Com febre e vómitos, deitada num colchão e rodeada por uma rede mosquiteira, não passava uma brisa naquela tarde com cerca de 40º. Ensinar também foi um desafio, não é fácil ‘cultivar’ algo na cabeça de alguém. A minha admiração pelos professores aumentou muito com esta experiência.

M: Ensinar. Definitivamente que nós não temos noção da criatividade e capacidade que é necessária para todos os dias ensinar crianças tão pequenas que não têm a mesma língua nativa que nós.

7) M: Alguma vez sentiram medo?

D: No voluntariado nunca senti medo. Não há violência, os homens locais comentam mas nunca senti que me pudessem fazer mal. Durante o resto da viagem, foram os ocidentais que me fizeram sentir realmente incomodada. Chegámos a não sair à noite porque estávamos cansadas das investidas desconfortáveis de homens com idade para serem nossos pais, especialmente no Sul da Tailândia.

M: Medo das doenças foi praticamente em toda a viagem! Há Dengue por todo o lado e em muitos sítios onde estivemos imenso tempo há a agravante da Malária. Mesmo com as vacinas e a profilaxia, cada picada de mosquito assusta e as condições precárias da aldeia podiam perfeitamente colocarnos em situações perigosas... Em termos pessoais creio que o sítio onde me senti mais desconfortável foi em Phuket. O típico turista ocidental que procura o mercado sexual da Tailândia não tem filtros e aborda qualquer rapariga na rua. Chegaram-me a perguntar se era menor com um prazer enorme inerente à pergunta. A certa altura o desconforto foi tanto que decidimos mudar os planos da viagem e sair daquele inferno mais cedo do que o previsto.

8) M: Apesar da pobreza, as heranças naturais destes países são evidentes. Conseguem destacar um local?

D: Em termos de beleza natural, o Laos é sem dúvida o país mais rico. As cidades são rodeadas por montanhas verdes, montanhas estas que escondem cascatas deslumbrantes. No Cambodja, o nascer do sol nos templos de Angkor Wat é incrível e, claro, as praias da Tailândia, apesar do lado mais turístico, são verdadeiros paraísos.

M: Honestamente não consigo destacar um local… Koh Rong, uma ilha no Camboja, foi uma incrível surpresa... Mais até do que as ilhas tailandesas. No entanto não dá para esquecer Angkor Wat, a cidade dos tempos no Camboja que é complemente breathtaking, Halong Bay, no norte do Vietname e as paisagens apaixonastes do Laos.

9) M: Deram aulas a estas crianças. Que temas foram abordados? 

D: Aos mais pequenos focámo-nos em ensinar o básico e vocabulário mais acessível, como os animais, a roupa, a comida. Na aula de alunos mais avançados, que estudavam para ser professores assistentes na OBT, quisemos melhorar as suas capacidades de comunicação em inglês e fazíamo-los falar acerca de uma temática escolhida. Chegámos a debater direitos humanos e conceitos como paz e justiça em aula, algo a que nunca aconteceria na escola pública cambodjana.

M: Depende muito das classes! Eu tive uma turma nível A onde se ensinava o verbo “to be”, a negativa e a interrogativa e palavras simples como os animais, roupas etc. (Muitas vezes a maneira mais divertida para estas idades era encontrar jogos e canções que ajudassem a memorizar). Já a classe B1 era baseada em texto e perguntas de interpretação enquanto que a “advanced class” (alunas que eram também professoras assistentes na organização) a “main subject” era gramática. Contudo abordámos também temas interessantíssimos como os direitos humanos, aulas de geografia e o papel das mulheres no mundo. Por último, tive por vezes uma classe com alunos entre os 18 e os 24 anos, alunos esses quase analfabetos na própria língua khmer, onde o primordial era falar sobre as palavras simples do quotidiano, o alfabeto e as apresentações orais.

10) M: Contem-nos um episódio marcante (imagino que seja difícil escolher). 

D: A Mo Nita, uma das raparigas com quem morávamos, disse-me algo que me inspirará para sempre. Imaginem uma jovem de 21 anos que mora numa aldeia no Camboja onde as raparigas devem casar a partir dos 16 e cujos maridos são muitas vezes escolhidos pelos pais. A Mo Nita disse-me: “ eu não preciso de um homem para nada. Sei fazer tudo o que eles sabem fazer. Quero estudar, melhorar o meu inglês e ajudar os meus pais para poder dar-lhes uma vida melhor e tirá-los do trabalho duro do campo”. A força de vontade e aquele ‘passo à frente’ que ela está em relação a todos os outros faz dela uma das pessoas que mais admiro no Mundo.

M: A visita aos killing fields e à famosa prisão Tuol Sleng S-21...Uma autêntica Auschwitz-Birkenau dois... Para quem não sabe, entre 1975 e 1979, o Camboja sofreu um dos períodos mais negros e tristes da sua história: um GENOCÍDIO em massa que fez desaparecer cerca de 1 em cada 4 pessoas no país. Os responsáveis, tinham o nome de khmer rouge: um movimento comunista (o exército vermelho cambodjano) que a mando do Pol Pot, o ditador, matou mais de um milhão de pessoas no Cambodja. A ideia era “simples”: erradicar todas as pessoas com educação no país. Médicos, professores, advogados, enfermeiros... Todos foram mortos assim como as suas respectivas famílias para que a sede de vingança nunca chegasse. Pol pot estudou eletrónica em França, nunca apareceu em público mas tinha o poder absoluto no país. Morreu velho, provavelmente bem gordo e com filhos e netos à sua volta. Contudo, muitas das suas vítimas nem oito meses de vida tinham. Como slogan defendia a seguinte premissa: é melhor matar um inocente por engano que deixar à solta um inimigo por descuido.

11) M: Voltariam a repetir a experiência? 

D: Voltaria a fazer tudo igual e um dia espero voltar a fazer este género de voluntariado noutra parte do mundo. Há poucas coisas mais recompensantes do que sentires que, por um lado, estás a contribuir para um bem maior, e, por outro, todos os dias sais da tua zona de conforto e te desafias.

M: Sem dúvida! E com mais tempo e menos coisas planeadas! Por vezes encontras outros mochileiros na tua viagem que tiveram ideias ainda melhores que as tuas e com quem gostarias de estar mais tempo. Em relação ao voluntariado... significou o mundo para mim. Sentir-me útil, para quem me conhece, é quase que algo imperativo.

12) M: Deixem um recado à MELANCIA mag e aos leitores. 

D: Se se sentirem inspirados pela nossa aventura façam o mesmo. A força de vontade é tudo o que precisam para partirem neste género de viagem. Nós largámos tudo, pegámos nas nossas poupanças e fomos. E voltámos infinitamente mais ricas com todos os sítios e pessoas que conhecemos.

M: Não invejem a nossa viagem e façam o mesmo. Mais tempo... menos tempo... Não interessa. Desafiem-se a vocês mesmos. Nós não tínhamos um bom ordenado, nós não tivemos ajuda de ninguém. Fomos porque quisemos. Fomos porque decidimos mudar de vida. Pareceu um erro que se tornou na melhor experiência da minha vida.

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