Entrevista: juliana lima

fotografias: ACERVO DIAS E INÊS CARDOSO

tipografia

dias

Uma oficina que dá a oportunidade de experienciar um ofício em vias de extinção. Assim é a Tipografia Dias que, apesar já ter mais de 10 anos de existência em Leiria, Portugal, zona de naturalidade do seu fundador, chegou à capital portuguesa apenas no ano passado. Entrevistámos Rúben Dias, 37 anos, e designer de formação.  Abriu-nos as portas do seu espaço e contou-nos sobre a sua paixão e a criação dos workshops que tem sido pensados para ser um primeiro contacto com a tipografia de caracteres móveis. Surpreende-te com esta iniciativa e faz como os designers, arquitectos e fotógrafos que andam a procura de experiências como esta!

1) MELANCIA: Como e quando surgiu a Oficina Tipografia Dias? 
RUBEN: 
Comecei a “respirar” material tipográfico desde o início da faculdade. Sempre que dava com uma oficina, enfiava o nariz e procurava meter conversa com os tipógrafos, muito desconfiados por um miúdo querer saber de um ofício que estava em vias de extinção. O primeiro espaço surge em 2001 numa sala emprestada no centro histórico de Leiria, no quarteirão onde a minha avó vivia. Depois passou para casa dos meus pais, nos arrabaldes da cidade, e apenas no ano passado veio para Lisboa.

2) M: Como apareceu o teu interesse pela tipografia? O que fazias antes de abrir este teu espaço?
R: Por graça, gosto de dizer que desde o Ciclo [5º ano] que copiava as letras de um catálogo da Letraset que o meu pai tinha lá em casa. Aquele livro com uma argola de espiral branca e capa vermelha fascinava-me e sempre que precisava de fazer letras ia lá copiar alguma. Normalmente, alguma coisa por demais decorada. Lembro-me de um tipo que era feito de lápis torcidos e do qual fiz uma réplica para um trabalho do Ciclo. Na faculdade, desde cedo, o tema me dominou a atenção e comecei a vasculhar sobre o assunto, procurando devorar tudo o que encontrava na internet e adquirindo livros avidamente. Normalmente, derretia dois terços da mesada em livros e revistas, logo nos primeiros dias do mês.

3) M: Deste à oficina o teu apelido. Já por aí percebemos a tua dedicação e envolvimento neste projecto. Quando decidiste abrir a oficina?

R: O nome é acima de tudo um piscar de olho, em jeito de homenagem às centenas de tipografias que utilizavam o apelido do seu proprietário para se designarem. Tipografia Mendes, Tipografia Silva, ou Tipografia Dias. Não conheci nenhuma com este nome em concreto, mas acredito que tenham existido várias. Não sei como me ocorreu, mas o meu sobrenome pareceu-me que encaixava tão bem, que desde logo não consegui resistir. O nome foi ganhando força e quando se reuniram as condições para implementar a oficina no mesmo espaço do meu atelier (que era para mim uma condicionante obrigatória para trazer a oficina) era chegada a hora do projeto ganhar uma forma mais pública. E assim que terminei o Doutoramento, abriu-se espaço para poder fazer acontecer o que há vários anos pretendia pôr em prática.

4) M: Fala-nos dos teus objetivos na altura que lançaste o espaço e como te sentes agora com a evolução.

R: A oficina em Lisboa e nos moldes que está actualmente a funcionar é ainda muito recente. Tem pouco mais de meio ano. Estou extremamente surpreendido com o interesse que tem havido pela oficina. Quer na procura de workshops, quer na de pessoas que querem realizar projetos com caracteres móveis.  O entusiasmo que recebo no decorrer dos workshops e novamente no final de cada um desses intensos dias é extremamente gratificante. Poder ensinar algo que me fascina e perceber que isso deixa as pessoas mais ricas é uma grande recompensa.

5) M: Num mundo cada vez mais digital, chamou-nos a atenção um espaço que oferece workshops e dá a oportunidade aos interessados de viver a experiência do processo de impressão com caracteres móveis de madeira e chumbo. Quem consideras o público-alvo destas sessões?

R: Os workshops destinam-se a qualquer pessoa, mas tem sido procurado maioritariamente por designers, arquitectos e fotógrafos. Estamos a acreditar que será uma questão de tempo até aparecerem pessoas de outras áreas, uma vez que não é necessária qualquer experiência para participar. Tal como se pode ir fazer um salto tandem de para-quedas e passar uma boa tarde com uma experiência diferente, ou conhecer outras pessoas que gostem das mesmas coisas que nós. Vários amigos nos têm pedido para fazer workshops para crianças e por isso já estamos a preparar um para o próximo mês de abril.

6) M: Hoje em dia é mesmo raro encontrar alguém que tem um acervo de centenas de tipos de letras como o teu. Como criaste esta tua coleção?

R: Na sua generalidade surgem de horas de “namoro” com os tipógrafos, que têm de uma forma generalizada uma enorme relutância em desfazer-se deste género de materiais. Os tipógrafos começavam desde muito cedo a trabalhar e desenvolvem um carinho especial pelos tipos, pelos prelos, enfim, por todos os materiais necessários numa oficina. Inicialmente, ficam muito desconfiados por acreditar que um rapaz novo está interessado em tipografia de caracteres móveis.

7) M: Para ensinares, tens de dominar muito bem as técnicas todas e ter profundo conhecimento sobre o tema. Onde aprendeste tudo o que sabes sobre tipografia? 

R: Tenho aprendido muito nas longas conversas que vou tendo com os tipógrafos que procuro conhecer nas poucas oficinas que se mantêm em atividade. Estes profissionais possuem um conhecimento que está desaparecer lentamente e, coma parca existência de manuais que temos em Portugal, corremos o risco de não conseguir preservar este conhecimento. O desenvolvimento do doutoramento permitiu-me procurar mais informação e pelo caminho tive a sorte de conhecer vários tipógrafos. Não posso deixar de destacar o sr. Benjamim Godinho, tipógrafo, ex-director da Oficina de composição da Imprensa Nacional de Lisboa, actualmente reformado e com quem tenho aprendido imenso. Volta e meia reunimo-nos aqui na oficina e as histórias e os ensinamentos parecem nunca ter fim, existe sempre mais para aprender. No outro dia, no decorrer de um workshop em que estava presente, ensinou-nos como recuperar uma composição empastelada (desmoronada), utilizando água para dar firmeza aos caracteres. Isto são coisas que não se aprendem nos livros. Só um tipógrafo com prática pode possuir este tipo de conhecimento. Além deste lado prático, para o desenvolvimento do doutoramento, em que estudei os tipos de letra da Impressão Régia no século XVIII, propondo o redesign de um desses tipos, para a actualidade, tornou-se necessário efectuar uma exaustiva investigação que me permitisse escrever sobre estas coisas. Precisava de construir a minha bibliografia e, como amante de livros que sou, acabei por me tornar um habitué nos alfarrabistas, onde, de uma forma errante, fui colecionando tudo o que tenha a ver com tipografia. Fui juntando uma simpática colecção de livros nacionais. Os estrangeiros,  habitualmente, mando vir de fora, mas ambos se têm revelado um complemento absolutamente essencial para solidificar o conhecimento.

8) M: Sabemos que proporcionas uma experiência tipográfica completa aos participantes, oferecendo um processo semelhante à impressão executada por Gutenberg. Como idealizas e estruturas as sessões?

R: Os workshops que temos estado a desenvolver foram pensados como um primeiro contacto com a tipografia de caracteres móveis. Inicia-se com uma breve apresentação sobre o modo como eram realizados os tipos que se irão utilizar de seguida. Depois de apresentadas as ferramentas e o modo de as utilizar, está na hora de pôr a mão nos tipos. Orientamos os participantes a investigar os tipos existentes nos cavaletes, à procura de um tom para a comunicação que pretendem realizar e no desenvolvimento de uma composição. Uma vez terminada a composição, segue-se uma prova e a afinação da composição final, para a realização da impressão, que é realizada por cada participante para que possa levar consigo alguns exemplares. Estamos a preparar workshops avançados (como se de um nível dois se tratasse) contemplando mais horas e permitindo explorar a impressão com várias cores e composições mais complexas.

9) M: O que mais te motiva e encanta nestas tuas atividades com as letras?

R: Costumo dizer que sou uma pessoa extremamente racional. A tipografia permite-me construir objetos gráficos a partir de uma lógica que encontro na tipografia. Por exemplo, habitualmente, quando se desenvolve um objeto gráfico no computador define-se o formato da página, e nesse momento o “branco” (como se fosse uma folha de papel em branco) é um dado adquirido, já está. Quando trabalhamos com caracteres móveis o “branco” é um objecto físico que tem necessariamente de ser colocado para definir as margens, os espaços entre o título, o subtítulo, o texto e as palavras. A métrica de Cíceros, sobre a qual está desenvolvido o material tipográfico, permite um raciocínio extremamente lógico que continua a moldar o modo com vejo o design actualmente. Por outro lado, a partilha da minha experiência, quer em workshops, quer em projectos que temos desenvolvido na tipografia, tem sido extremamente enriquecedora. A colaboração com o Ricardo Dantas, que tem estado comigo desde a chegada da tipografia a Lisboa, tem permitido chegar mais longe quer na visibilidade quer na execução dos projecto e dos workshops. Neste momento, estamos a colaborar no “Manual Prático do Tipógrafo” com a Joana Monteiro do Clube de Tipos, que se revela a cada dia mais enriquecedora. Cada vez tenho mais certezas de que prefiro trabalhar em equipa desenvolvendo projetos em conjunto.

10) M: Conta-nos um episódio que aconteceu na Oficina Tipografia Dias e que marcou a tua vida.

R: Lembro-me de um episódio que não tendo mudado a minha vida é por demais interessante. Pouco depois instalar as coisas aqui na oficina, estava a arrumar alguns catálogos de tipos que se venderam em Portugal, quando abro o da Fundição Tipográfica Manuel Guedes, na folha de rosto, e me deparo com a seguinte morada: Rua João Saraiva 28 A... pensei que me tinha enganado e voltei a ler. Rua João Saraiva 28... por instantes fiquei baralhado, mas... mas... esta é a actual morada da Tipografia Dias. Voltei a ler duas e três vezes para conseguir perceber que não havia nenhuma confusão. Era mesmo isso. Sem ter feito nada para que assim fosse, acabei por ter vindo montar a minha oficina, onde em tempos funcionou a uma fundidora tipográfica! É extraordinário.

11) M: Onde encontramos o Rúben quanto não está na Oficina?

R: Em qualquer lugar, acabo por estar sempre acompanhado pelas letras, porque as vejo em todo lado. Além da oficina, existe o atelier Item Zero que desenvolve essencialmente projetos editoriais, as aulas de tipografia que leciono na ESAD, os Tipos das Letras, que é um colectivo que fundei em conjunto com o Ricardo Santos e o Aprígio Morgado para desenvolvimento de projectos com letras. O último projeto dos Tipos das Letras foi o RUHA – um stencil e uma família de tipos de letra. Desenho os meus tipos de letra em formato digital. Vasculho recorrentemente alfarrabistas, investigo e escrevo sobre tipografia e o desenho de tipos de letra.

12) M: Deixa um recado à MELANCIA mag e aos leitores.

R: Estamos sempre interessados em saber mais sobre letras. Se precisarem  de descobrir alguma coisa que se relacione com as letras ou a tipografia em geral, será um prazer e um desafio conseguir ajudar, basta aparecer pela tipografia.

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