ENTREVISTA: JULIANA LIMA

Fotografias: vários

ROSA

POMAR

Conheci o trabalho da Rosa Pomar há alguns anos por indicação de uma amiga que sabia do meu gosto pelo tricô, crochê e a costura! Ainda me lembro quando a Ana, a minha amiga, me enviou o link do blog “Ervilha Cor de Rosa” acompanhado de uma mensagem muito querida a dizer que eu ia amar. Ela tinha razão, amei. Desde então acompanho as dicas e as novidades. Já comprei muito material na Retrosaria e indiquei às minhas amigas. Nesta entrevista, Rosa conta-nos como tudo começou e fala-nos sobre a importância que o blog teve na sua vida e das suas inspirações e influências.

1) MELANCIA: Sabemos que o teu blog, na época, com outro nome, nasceu em 2001. Qual era o teu propósito na altura? E por que decidiste mudar o nome para “Ervilha cor de rosa”?
ROSA: Inicialmente, foi uma forma de manter um diário de viagem durante um verão que passei em Nova Iorque a fazer um curso na School of Visual Arts. A ideia era manter os amigos ao corrente das minhas aventuras por lá, só que, na altura, poucas eram as pessoas que sabiam o que era um blog, por isso não funcionou lá muito bem! Eu sempre tinha tido o hábito dos diários (escritos, desenhados com colagens) e o blog era uma ferramenta nova para explorar esse meu lado - nunca mais o abandonei. Chamava-se simplesmente @ny (“em Nova Iorque”). O nome mudou mais tarde, aquando do nascimento da minha filha mais velha, e é uma brincadeira com o meu nome e o dela.

2) M: Já lá vai muito tempo desta época, entretanto!! Conta-nos como te sentes a completar 15 anos de partilhas, a ensinar e inspirar tanta gente através de uma plataforma digital?
R: A Ervilha Cor de Rosa é uma parte muito importante da minha vida, acompanhou-me praticamente durante toda a minha vida adulta e registou o meu crescimento como pessoa, como mãe e também todo o meu percurso profissional. Por ser um dos blogs mais antigos em Portugal e também por ter de certa forma lançado vários temas e áreas de interesse, foi, de facto, uma referência para muitas pessoas, sobretudo as que tiveram filhos mais ou menos ao mesmo tempo que eu. Eu tornei-me adulta enquanto autora do blog e do lado de lá uma série de gente cresceu com o que eu escrevia como companhia. Vejo isso como uma coisa muito bonita. O feedback dessas pessoas deu-me imenso. Entretanto, a internet mudou muito e hoje em dia sente-se que o “tempo dos blogs” deu em grande medida lugar ao tempo do Facebook e do Instagram. Como tantos outros bloggers, ainda estou a ajustar-me a essa mudança.

3) M: Lembras-te quando começaste a fazer trabalhos crafts e handmade? Adoraríamos saber como tudo começou...

R: Não me lembro de não fazer. Aprendi com a minha mãe e a minha avó a brincar com fios e tecidos e experimentei um pouco de tudo ao longo da infância, dos bordados ao macramé, tecelagem, trabalhos com missangas, costura, depois o tricô e o crochê... Costumo dizer às minhas alunas que tive a sorte de aprender todas estas coisas com mulheres que não correspondiam de todo à ideia de “fada do lar”. Ambas eram feministas e tinham as suas carreiras profissionais. Talvez por isso nunca achei que fazer malha ou costura fossem incompatíveis com ser uma mulher com outro tipo de interesses.

4) M: Entre os trabalhos manuais que fazes, qual é o teu preferido e porquê?

R: É impossível escolher. Nos últimos tempos tenho-me dedicado sobretudo ao tricô (ter um bebé pequenino é um grande estímulo), mas também adoro fiar, fazer mantas de retalhos, tecer...

5) M: A MELANCIA adora os teus bonecos de panos. Fala-nos um pouco sobre eles e sobre o teu processo criativo.

R: Obrigada! Comecei a fazer bonecos de pano quando a minha filha mais velha nasceu (há 13 anos!). A minha mãe fez-me bonecos de pano que me acompanharam toda a infância, por isso foi uma vontade que surgiu muito naturalmente. Nessa altura, tinha acabado de comprar a minha primeira máquina de costura e estava deslumbrada com as possibilidades. Tinha dado os primeiros passos no universo da ilustração, algum tempo antes, e os bonecos de pano permitiam-me, de certa forma, continuar a explorar esse universo, mas agora a três dimensões.

6) M: Depois do teu sucesso com um espaço virtual, criaste o teu cantinho físico, em Lisboa, para partilhar imensos mimos e tudo aquilo que têm a ver com o teu universo tão inspirador. Como surgiu a Retrosaria?

R: A Retrosaria surgiu, em grande medida, dos inúmeros emails que me enviavam a perguntar onde comprava os materiais que usava nas minhas peças. As coisas mudaram muitos nos últimos anos, mas em 2007 encontrar fios de boa qualidade para tricô e tecidos de algodão com motivos bonitos era uma missão quase impossível. Daí nasceu a ideia de disponibilizar esses materiais para o público português, primeiro apenas online e depois também numa loja “verdadeira”, desde 2009. Pouco tempo mais tarde, teve início o meu projecto de criar fios para tricotar a partir de lã de raças autóctones portuguesas. Primeiro nasceu a Beiroa, que neste momento já vendemos para mais seis países, e desde aí a colecção não tem parado de aumentar. Dentro de tudo o que faço é, sem dúvida, uma das coisas que mais prazer me dão.

7) M: Tens um bebé recém-nascido, e duas meninas crescidinhas que, uma vez ou outra, aparecem nas tuas publicações. Ser mãe inspira-te ainda mais nos teus trabalhos?

R: Claro que sim! Provavelmente, se não fosse mãe, a minha vida teria levado um rumo totalmente diferente. Os bonecos nasceram para a minha filha mais velha e foi deles que nasceram todas as outras coisas.

8) M: E, o contrário é verdadeiro? Achas que influencias e inspiras as tuas filhas a seguirem o mesmo caminho das linhas, máquinas de costuras, lãs e agulhas?

R: Isso não me preocupa nada. É normal que elas tenham familiaridade com esta área porque cresceram a ver-me trabalhar. Ambas sabem fazer malha e a mais velha gosta muito de brincar na máquina de costura, mas espero que sigam o seu próprio caminho, seja ele parecido ou muito diferente do meu. Agrada-me pensar que ganharam estas competências comigo, mas que importa é que se sintam felizes com as escolhas que fizerem.

9) M: Em 2013, lançaste o teu primeiro livro “Malhas Portuguesas. História e prática do Tricot em Portugal, com 20 modelos de inspiração tradicional”. Fala-nos sobre esta experiência.

R: Escrever esse livro foi um pouco como ter mais um filho. Foram vários anos de pesquisa em museus e bibliotecas, muitos quilómetros percorridos para aprender as técnicas tradicionais com pessoas de Norte a Sul do país e nas ilhas. O livro tem tido uma enorme aceitação tanto cá em Portugal como no estrangeiro, onde muitas vezes é adquirido por pessoas que nem sequer leem português, mas que se interessam pelas diferentes tradições e técnicas de fazer malha.

10) M: Estudaste História Medieval. Achas que isso influenciou e contribuíu nas pesquisas e na criação do teu projeto “Lã em Tempo Real”?

R: Com certeza que sim. O meu percurso académico forneceu-me as ferramentas necessárias para fazer esse trabalho de recolha, seja em bibliotecas ou no campo. Quando me perguntam o que estudei, comentam frequentemente que vim parar a uma área profissional completamente diferente, mas, na verdade, a minha formação condiciona em muito a forma como trabalho, os projetos que vou tendo, etc.

11) M: Como organizas os teus dias com tantas atividades para conciliar?

R: Nunca tive um emprego (com patrão, horário, ordenado e essas coisas que sempre associámos às “pessoas crescidas”) e comecei a trabalhar antes dos 20 anos, por isso nem sei como é viver de outra forma. Não sou particularmente organizada nem tenho horas específicas para cada tarefa. Há sempre trabalho menos criativo a que é preciso dar despacho, seja pôr a correspondência em dia ou gerir os stocks da loja, mas isso é compensado com projetos mais estimulantes aos quais todos os dias dou atenção, como planear os meus próximos fios, pensar em paletas de cores, tirar fotografias, visitar um artesão, etc. 

12) M: Qual o teu lema de vida? 

R: Não tenho. Mas há uma coisa que já dei por mim a dizer às minhas filhas muitas vezes: é bom ser diferente (às vezes custa um bocadinho, mas vale a pena).

13) M: E os teus planos para 2016, quais são? 

R: São segredo.

14) M: Para fechar, deixa um recado à MELANCIA mag e aos leitores. 

R: Aprendam com as vossas avós!

retrosaria.rosapomar.com

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