Entrevista: mafalda jesus

TIPOGRAFIA: FILIPA JACINTO

SINTO

Filipa, 24 anos, é uma poeta mas não uma fingidora. Gosta de contar e transcrever o que deveras sente. Por palavras, vocábulos gráficos na forma exacta para transmitir a mensagem pretendida. Se ela não escolhesse prestar homenagem à Língua Portuguesa, diríamos que back to basics é o seu lema. Ela gosta de voltar, uma e outra vez, à tipografia, à gráfica, aos materiais que fazem as letras ver e falar.  As palavras somos nós.

1) MELANCIA: Quem é a Filipa?
FILIPA: 
Sou o que sinto. Sinto muito, sinto tanto que resolvi virar um sentimento e o projeto “Já Sinto” nasceu assim, do meu enorme sentir. Além disso sou apaixonada por poesia, arte, design... enfim, sou apaixonada pela vida!

2) M: Como surgiu o “Já Sinto”?
F: Este projeto nasceu de palavras que ficam por dizer, de sentimentos que não acabam, de um enorme amor e de uma saudade interminável. Advém também do que sinto que todos os designers devem ter em consideração nas suas práticas profissionais, aqui falo do enorme poder de comunicação que temos e das inúmeras oportunidades que existem de utilizar o design de forma responsável e de modo a poder marcar uma diferença. Senti essa oportunidade de marcar a diferença com o projeto “Já Sinto” e ao invés de realizar um design que parece bem mas que é superficial, quis utilizar um que pratica o bem! Que comunica valores culturais e sociais à sociedade que urgentemente precisa de ver essas ideias difundidas. A cidade tornou-se num livro aberto onde todos os dias alguém escreve o seu texto. Enquanto designer quero fazer-me ouvir e, para tal, quero ter a minha quota-parte na participação da cultura visual da cidade e no texto que está a ser escrito nela. Por isso, aliei a esta missão o que podemos considerar a expressão artística da atualidade, que denominamos por arte urbana, ela deposita as mais variadas mensagens visuais nas cidades e enquanto designer entendi que nós também fazemos parte dessas mensagens. O que pretendi comunicar com este projeto é que cada um de nós tem um papel importante para fazer do mundo um lugar melhor. Quero aliar o máximo de pessoas que consiga para que todos possamos ter a participação no texto que constitui a cidade e juntos possamos escrever uma história que valha a pena ser lida. Por isso o manifesto deste projeto é — vive, aprende e passa a mensagem!

3) M: Na tua opinião, qual é a importância da tipografia no mundo do design?

F: A tipografia é, inquestionavelmente, um dos elementos mais importantes do design. Cada letra transmite, de acordo com as características da forma, um conceito diferente e o designer deve entender as palavras e dar sua contribuição sobre o conteúdo da mensagem. “A beleza na tipografia vem dela própria quando o compositor traz um certo amor ao seu trabalho. Quem não ama o que faz, não pode esperar agradar os outros.” Jan Tschichold

O designer em que me inspirei para a criação da tipografia deste projeto foi Edward Fella, que afirmou: “A letra vê, a letra fala” (1987). Então, tomei como ponto de princípio que diferentes letras são então, diferentes falas e vozes, e este projeto pedia isso. Ao unir a arte urbana ao design e a construir este projeto sobre diferentes obras urbanas, diferentes artistas, emoções e mensagens distintas, senti como dever incluir isso nas tipografias que iria usar. Diferentes letras, falas, vozes... Cada uma reflete as diferentes personalidades e culturas díspares de quem as escreveu na cidade. Apesar de distintas, há um sentido de união transmitido através da cor, e, para surpresa, ao serem todas diferentes criou-se um sentido de harmonia entre elas. Essa harmonia, o elemento que as une, simbolicamente é a nossa Língua Portuguesa.

4) M: Estiveste no Brasil um ano. Quais são os principais ensinamentos que trouxeste de lá?

F: Essa é fácil: “Gentileza Gera Gentileza!”

5) M: O teu projeto vive apenas da Língua Portuguesa. Porquê?

F: “Esqueça as fronteiras, amar nunca foi um país” Pedro Gabriel, em “Eu me chamo António.” Essas mensagens não estavam apenas no Brasil, elas existem em várias partes do mundo, mas os ensinamentos com que lá me deparei disseram algo ainda mais forte, falaram a minha língua, falaram-me em Português. O intercâmbio acabou e regressei a Portugal de forma a poder concretizar este projeto, e o que senti foi saudade. A palavra “saudade”, por mais que se tente encontrar em outras línguas, nenhuma expressão define este sentimento luso-brasileiro. São apenas tentativas de determinar esse sentimento que só são capazes de sentir os povos da cultura portuguesa. Devido a esta saudade sentida, a Língua Portuguesa é o que me permite estar lá, mesmo que de facto não esteja. Isto provocou em mim, uma quebra das fronteiras que nos separam a todos. E se, de alguma forma, eu consegui quebrar essa barreira, penso que encontrei aqui o significado que serve por si próprio como a mensagem mais importante deste projeto: a que está implícita nele, a que simboliza o sentimento que todos partilhamos pela nossa língua. E assim decidi que as mensagens do meu projeto seriam todas em Português.

6) M: A palavra certa diz tudo. Elege uma frase e explica-nos porquê.

F: O que tem de ser, tem muita força. Acredito nesta frase por circunstâncias da vida em que esta me provou ser real! Às vezes, tentamos fugir a algo que nos é destinado, outras, corremos atrás de algo que não é para ser, mas, no final do dia, sem dúvida, que o que tiver de acontecer, aquilo que tiver de ser, ninguém consegue parar.

7) M: Onde fazes a diferença?

F: O mais importante deste projeto não é qual a diferença que estou a fazer, o que quis foi mostrar que todos podemos e devemos marcar a diferença. Por isso, tento chamar a atenção de quem o faz todos os dias na cidade, porque comecei a questionar o que leva alguém a sair de casa às 3 da manha, para ir pintar paredes? Perdes o teu tempo, o teu dinheiro e tudo isso para fazer algo que eu acredito ser muito importante, que creio ser o dever de todo o artista: conectar pessoas, emocionar, surpreender e inspirar. Por admirar quem o faz, quis juntar-me a manifestação silenciosa que ocorre nas cidades através das palavras. Acredito que a melhor arma são as palavras, são um caminho não violento e inteligente quando se quer mudar alguma coisa.

8) M: Qual é a sensação de passar a mensagem para a parede? 

F: O mundo digital, por vezes, torna-se inatingível, por isso quando posso tento sempre regressar às práticas manuais. As oficinas e as questões gráficas do Design fascinam-me. Quando trabalho com materiais e produzo coisas, percebo que é isso que nos permite criar peças únicas e torna tudo muito mais pessoal! Tirar um dia para pintar um mural é voltar às origens, pintar uma frase é espalhar bons sentimentos e ambas as sensações são incríveis.

9) M: És uma pessoa cheia de ideias e energia. Conta-nos como é um dia na tua vida.

F: Ui. Pois sou!!!! Energia não me falta, felizmente! O que me permite estar sempre a produzir trabalho. Um dia normal é ser designer do início ao fim (exceto se for ao fim-de-semana, aí dou-me ao luxo de ser quem eu quiser). Trabalho a full-time em design gráfico e quando saio do meu trabalho, no final do dia, tento gerir outros trabalhos que vou aceitando em regime de freelancing e, à parte de tudo isto, continuo a gerir o projeto “Já Sinto”. É bastante trabalhoso e exige muito tempo da minha vida pessoal gerir tantos projetos, mas realmente faço o que o amo e não posso reclamar. Esta energia toda tem que ser gasta de alguma forma, que seja então a produzir tudo o que imagino!

10) M: Que frase te disseram, que não esqueces? 

F: “Se o passado te chamar não lhe respondas, não tem nada de novo a dizer-te.”

11) M: Qual é o teu lema de vida?

F: “A vida só se dá, Pra quem se deu” - Vinicius de Moraes.

12) M: O que podemos esperar do “Já Sinto” em 2016? 

F: “Já Sinto” a sair do papel e a ganhar novas formas! Vai passar para a cidade em força este ano!

13) M: Onde encontramos a Filipa a um domingo?

F: Ultimamente, em miradouros! Detesto o conceito de domingo ser um dia de descanso! Por isso faço tudo o que puder para fugir a isso, tento sempre ir passear em Lisboa. Não me canso desta cidade, há sempre algo por descobrir!

14) M: Deixa um recado à MELANCIA mag e aos leitores.

F: A vida é um dia de cada vez e não há pressas de chegar ao final da viagem. O segredo é desfrutar da viagem e prestar atenção aos pequenos detalhes, sentir o vento e o sol na cara, desviar uma pedra ou outra do caminho, que faz sempre parte, e dar o máximo.

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