STREET ART

Entrevista: mafalda jesus

gonçalo mar

A inspiração vem do surf, do mar, da Marvel, do breakdance, do surrealismo… Chega? GonçaloMar, de 41 anos, street artist da Margem Sul, vê em cada parede, em cada equipamento urbano, uma obra de arte em potência. Formado em Design de Moda, não descarta nenhuma influência. Tudo conflui para propagar estas energias boas. À noite, lê O Principezinho às filhas.

1) MELANCIA: Quem é o Gonçalo?
GONÇALO: 
O Gonçalo é uma pessoa perfeitamente normal, que despertou cedo para uma paixão que lhe mudou a vida. A pintura, as cores, as formas, tudo isso me chamava a atenção, sentia e sinto ainda uma enorme vontade de desenhar, de criar. Olho à volta e imagino personagens e situações que gostava de retratar. Enfim, sou a pessoa que dá o corpo ao Artista.

2) M: Porquê “MAR”?
G: O “MAR” vem de 1998, quando comecei no movimento artístico, mais conhecido por Graffiti, precisava de ter um pseudônimo que me identificasse como autor, um nome que ficasse directamente ligado a mim. E que de alguma forma refletisse um pouco da minha pessoa e ao fim de algum tempo de reflexão surge o “MAR”. Como uma das minhas grandes paixões é o surf, desde de muito cedo, quis juntar as duas coisas que me dão um prazer imenso, a pintura e o surf.

3) M: Estudaste Design de Moda. Como é que a street art entrou na tua vida?

G: O StreetArt/Graffiti entrou na minha vida muito sorrateiramente, acho que começou primeiro pela musica (Chaka Khan- I feel for you) e filmes de breakdance que chegavam das Américas e depois o “graff” veio quase como a cereja no topo do bolo, fiquei logo a querer fazer igual, mas isto nos anos 90 e não passaram de experiências com latas de spray da garagem dos meus pais e luvas de dedos cortados a tentar imitar o “snake move”. Só depois mais tarde em 98 é que decidi fazer uma experiência mais séria, quando conheci o Klit e Roket (Almada Writters) num estúdio de animação nas Olaias. Por essa altura tinha entrado na Faculdade de Arquitectura de Lisboa para o curso de Design de Moda que me deu alguma bagagem académica e contacto com outras áreas. Mas sempre senti o impulso de pintar de desenhar, encarava e encaro as paredes e os demais objectos na cidade, como suportes de acções tanto de intervenção como de arte por si só. Acho uma combinação perfeita, as cidades cinzentas com estes rasgos de cores.

4) M: A moda ainda faz parte do teu dia a dia? De que forma é que as duas áreas se cruzam?

G: A moda em si não, já não faz parte do meu dia a dia, tirando alguns projectos mais interessantes, mas fez durante os meus primeiros anos depois de ter completado o curso. O cruzamento que procurei fazer depois de terminado o curso foi direcionar-me para um mercado que de certa forma está, directamente ligado ao mundo do street art. Trabalhei para uma marca ligada ao streetwear, porque no fundo este fenómeno global despoletou um mercado imenso e com uma linguagem muito própria dessa geração. Mas sentia-me mais livre na rua a criar e a estar ligado ao momento e ao que me rodeia. 

5) M: Fala-nos das tuas referências e inspirações.

G: As minhas referências são muitas e boas! Vão desde o que tenho guardado na memória dos meus tempos de adolescente e o percurso que fiz ate aqui, o Universo Marvel, o Mar, a Natureza, as pessoas, até ao sentido mais profundo da cor. Gosto de trabalhar contrastes, formas. Gosto do Surrealismo, do “nonsense”, um bom filme inspira-me, há tantas coisas que nos passam fugazmente, mas se olharmos com atenção a beleza dos detalhes, conseguimos tirar inspiração para o nosso dia a dia.

6) M: Mostra-nos o trabalho que te deixou mais orgulhoso e explica-nos porquê.

G: Não tenho nenhum trabalho que me deixe mais orgulhoso que outro, acabam todos por ser importantes na altura que os fazemos. Acho que cada trabalho que faço acabo sempre por evoluir um pouco na procura, apercebo-me de questões técnicas, de encaixes, de formas novas e isso consigo levar comigo e para um próximo projecto que vai ser outro passo para melhorar mais um pouco e assim sucessivamente. Não quero dizer que o último é sempre o melhor, mas entendo que o último é sempre o mais apreciado por ser novidade!

7) M: Fizeste parte de muitas exposições individuais e coletivas nacionais e internacionais como:  “Underdogs”,  “WOOL”, “Crono”,  “Walk&Talk”, entre outras. Como lidas com a responsabilidade de surpreender e inovar exposição após exposição?

G: É uma responsabilidade bastante grande, sei que já habituei as pessoas a um estilo muito único, mas o fator surpresa para mim é sempre o fundamental de uma exposição. Gosto que as pessoas fiquem surpreendidas com o que viram e que estejam a fazer uma viagem em cada uma das peças que apresento. Gosto de sentir que as pessoas tenham algum impulso para ver as coisas que vou mostrando.

8) M: Se tivesses que definir o teu estilo, o que dirias?

G: Eu definiria o meu estilo neste momento de Lowbrow/PopSurrealistic/ Figurativo. Sei que é uma definição bastante comprida, mas é um conjunto de movimentos artísticos em que eu me sinto confortável e acho que encaixa no meu estilo.

9) M: Qual o maior obstáculo de um “street artist” em Portugal?

G: Nunca foi tão boa época para se ser “street artist”. Estamos numa época em que já somos aceites, de uma forma geral, com algum valor, ou seja, as pessoas perceberam que podes complementar o espaço urbano. Deixamos de ser marginais, existe uma leitura mais condescendente por parte do publico em geral. Provavelmente o maior obstáculo de um “street artist” é manter a capacidade de continuar num caminho sustentável, apelativo. Continuo a dizer que é uma aventura, e como tal, temos de ter consciência que existem momentos melhores que outros, e o objectivo final é sempre a consagração do trabalho e viver a realização dos sonhos que perseguimos sem nunca desistir.

10) M: E que noção é que um artista nunca deve perder?

G: Um artista nunca deve perder a vontade de se espantar a si próprio. Quer isto dizer que, nunca devemos parar de experimentar, sair da zona de conforto é imperativo. 

11) M: Trabalho de rua ou exposições em galeria?

G: Sinto-me bem com os dois, acho que se complementam. Chegámos a um ponto da nossa história em já nada podemos perguntar se o trabalho de rua pode ser levado para o interior, ou vice-versa. Quando nos afirmamos como Artistas de rua ou Muralistas, não significa que só façamos trabalhos de rua, existe todo um corpo de obra que justifica ser transportado para outros suportes. Temos é que fazer essa passagem de uma forma coerente para ter um trabalho válido.

12) M: Qual é o teu lema de vida?

G: Tenho vários lemas, mas o que tento colocar em primeiro lugar é o de sentir-me bem comigo para estar bem com os outros. Acredito muito em energias, nas suas mais diversas formas e acredito que mantendo uma energia positiva consegues passar essa energia e de certeza que boas coisas acontecem. Simplificar e colocar tudo em perspetiva.

13) M: Onde encontramos o Gonçalo quando não está a pintar?

G: Quando não estou a pintar, estou a cuidar das minhas filhas e a fazer uma série de coisas que me trazem de volta à terra, porque quando pinto fico um bocado desligado de compromissos.

14) M: Com quem gostavas de conversar?

G: Gostava de conversar com uma série de pessoas que, de certa forma, influenciam comportamentos e conseguem ser obstinados no seu percurso, em todas as áreas. Ouvir falar também é inspirador, não propriamente pelo dom da palavra mas pelo relato de um percurso surpreendente.

15) M: Deixa um recado à MELANCIA mag e aos leitores.

G: Gostava que todos fizessem um exercício que podia ser interessante, que se resume à leitura/visionamento de “O Principezinho” e refletissem sobre as prioridades que cada um deve impor a si mesmo para levar uma vida mais feliz na perseguição dos seus sonhos.

goncalomar.com

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