tatuagem

Entrevista: MAFALDA JESUS

DAVe

SANTOS

Se quiserem encontrar o David, basta procurarem no Domus Tattoo Art em Setúbal. É no estúdio que este tatuador profissional, discreto e calmo, passa a maior parte do tempo. A atender clientes ou a estudar novas criações. Começou pelo desenho, depois pelo graffiti, mas sempre curioso e fascinado pela tatuagem. Gosta de simbolismo, de geometria sagrada e acredita que o seu estilo não está definido, mas sim em evolução permanente. É sobretudo a noite que o inspira.

1) MELANCIA: Quem é o David?
DAVID: 
É sempre difícil fazer uma auto descrição, mas diria que sou alguém discreto, que não gosta de dar nas vistas. Sou observador, gosto de estar atento ao que me rodeia, aos detalhes e aprendo muito visualmente. Sou paciente e calmo, tanto na minha vida pessoal, como no meu trabalho e no que pretendo desenvolver através dele.

2) M: Há quanto tempo tatuas e como começou?
D: Eu já tatuo há cerca de 5 anos, aliados a 1 ano de gestão de loja e aprendizagem.  Acabei por vir parar ao ramo da tatuagem assim que terminei o 12ºano, apesar de o meu agrupamento ser diferente da área artística, nunca deixei de me sentir ligado às artes. O desenho sempre me ocupou os tempos livres e até chegou a interferir com as aulas. Fiz graffiti durante alguns anos, desenhei retratos a carvão, pintura acrílica e óleo sobre tela. A tatuagem deixava-me muito curioso, queria perceber como se desenrolava o processo e a sensibilidade e destreza que o tatuador tinha que ter para conseguir desenhar numa “tela viva”.  Durante a minha aprendizagem fui picado pelo bichinho de pegar numa máquina e comecei por fazer uns pequenos traços em pele de porco que comprava no talho. Lembro-me de ter feito uns dados com umas chamas com cores berrantes (aquele típico flash tattoo design anos 90), logo numa das primeiras experiências. Obviamente os resultados não eram perfeitos, mas também não eram maus e rapidamente comecei a tatuar amigos e familiares. A confiança que depositavam em mim foi o que me ajudou a evoluir cada vez mais.

3) M: Como classificas o teu estilo/traço?

D: Não consigo rotular o meu estilo, é o que é. Nas minhas tatuagens uso sempre pontilhismo, gosto de simbolismo e de referências alusivas a geometria sagrada, sempre numa onda mais gráfica. Sinto que ainda não me estabeleci, que o meu trabalho está numa constante metamorfose e isso agrada-me. Oiço muitas vezes os clientes referirem-se ao meu traço como sendo diferente dos outros. Como tenho tudo mecanizado, sai-me naturalmente e tento dar sempre o máximo. Tento elevar a fasquia a cada tatuagem.

4) M: Quais são as tuas referências e inspirações?

D: Podia estar a referir vários nomes e, obviamente, sigo o trabalho de vários artistas diariamente, mas a verdadeira inspiração vem de dentro. Sou influenciado pela forma como me sinto no momento em que preparo o desenho, a música que oiço, as pessoas que me rodeiam e na energia que o cliente me transmite quando faço a consulta pessoalmente. Posso ainda dizer que a noite me inspira, os meus projectos são quase todos criados de noite.

5) M: Tens sempre a agenda cheia, qual foi o segredo para este sucesso?

D: A minha agenda nem sempre foi cheia e o meu intuito nem foi trabalhar nesse sentido. Sempre trabalhei para tentar ser melhor e estabelecer-me de acordo com os meus objectivos. Simplesmente aconteceu e continua a acontecer, fico contente por todos os dias ser requisitado e pedirem-me projetos interessantes. Não existe grande segredo, basta acreditar em nós próprios, muito trabalho, dedicação e acima de tudo humildade.

6) M: Com o olhar mais criterioso e treinado de hoje, como classificarias a tua primeira tatuagem?

D: Hoje em dia ainda dou por mim a ver as primeiras tatuagens que fiz e avalio-as tal como as que fiz a semana passada, por exemplo. É um processo continuo, em que temos que estar sempre a evoluir ou a inovar e nunca devemos achar que está bom porque, se isso acontecer, então acaba tudo. Não fico constrangido de ver trabalhos antigos, porque sei que dei o meu melhor naquela altura e só eu e o meu cliente é que temos de gostar e sentir isso. Para mim a tatuagem é pessoal a esse ponto.

7) M: Qual é o cliente ideal? O que chega com um rascunho ou o que te dá liberdade criativa?

D: Deve-se dizer “nem tanto ao mar, nem tanto à terra”. Se for possível gosto de falar pessoalmente com o cliente e saber quais as suas ideias, discutir todos os pormenores e deixar a pessoa à vontade (que às vezes é a sua primeira tatuagem). Dentro disso gosto de ter alguma liberdade criativa, o cliente só sai a ganhar, porque o resultado é um desenho que é original. Acho que ouvir o cliente é bastante importante e deve ser respeitado, porque até pode não perceber nada de tatuagens, mas de uma forma ou outra vai salientar o que considera importante, impedindo o tatuador de errar ou não corresponder às suas expectativas. É importante lembrar que o cliente vive a tattoo na 1ª pessoa.

8) M: Que tatuagem te deixou mais orgulhoso?

D: É sempre difícil eleger uma. Algumas tatuagens que deixaram-me orgulhoso por mais pequeno que o desenho fosse e sem que nunca as tenha partilhado nas diversas redes sociais. São memórias que gosto de guardar para mim. Existem também casos de clientes que terminam tatuagens grandes, que demoram várias sessões a serem feitas e no final se emocionam, seja pelo que a tatuagem significa para eles ou pelo resultado final e eu obviamente fico feliz e orgulhoso. Essa é sem dúvida a melhor recompensa que se pode ter. Não desfazendo de todas as outras, esta tatuagem foi um dos casos, exigiu imenso esforço, paciência e dedicação das duas partes.

9) M: Qual é o maior desafio profissional nesta indústria?

D: Corresponder às expectativas do cliente. Existe sempre pressão, boa ou má, desde o momento em que se dá a primeira picada.

10) M: Qual é o teu lema de vida? 

D: A vida é um dia de cada vez e não há pressas de chegar ao final da viagem. O segredo é desfrutar da viagem e prestar atenção aos pequenos detalhes, sentir o vento e o sol na cara, desviar uma pedra ou outra do caminho, que faz sempre parte, e dar o máximo.

11) M: Onde encontramos o David quando não está a tatuar?

D: Confesso que sou um workaholic e passo grande parte do tempo a desenhar e a ver o trabalho de outros tatuadores. Sempre que consigo, passo tempo com a minha família, que me dá muita força e apoio. Mas se não me virem no estúdio é porque provavelmente estou à porta, a sair ou a entrar. A questão é que gosto demasiado disto para me conseguir cansar. Acabo por pensar “o que vou fazer pela Tatuagem?”, depois de tudo o que a Tatuagem fez por mim.

12) M: Deixa um recado à MELANCIA mag e aos leitores.

D: Sigam os vossos sonhos, lutem e agarrem-se ao que acreditam e gostam. Com trabalho e dedicação conseguem ser o que quiserem, se não tiverem medo de sacrificar outras coisas, isso é certo! Eu chamo ao que faço de trabalho, para ser levado a sério, mas eu não o considero. Gosto do que faço e, se tenho a sorte e oportunidade de o fazer, vou desfrutar desta viagem. Que ela seja bem longa!

www.instagram.com/davesantostattoo

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