pintura

Entrevista: mafalda jesus

alexandre

alonso

Sob o caos aparente, emerge o universo figurativo de Alexandre, plasmado em telas gigantes que procuram retratar a complexidade da condição humana. Não é ligeira a empreitada deste arquitecto de formação mas as suas referências também não o são. Velázquez, El Greco, Rembrandt estão no seu panteão e, entre os contemporâneos, Frank Auerbach ocupa o pedestal. Eis a história de como a vida muda não em três tempos, mas com três retratos.

1) MELANCIA: Quem é o Alexandre?
ALEXANDRE: 
O Alexandre é alguém que desde sempre esteve ligado ás artes como forma principal de expressão. Sou um Pintor autodidata que vive e trabalha em Lisboa. Sou essencialmente um figurativo, mas com uma base fortemente assente na abstração, onde o aparente caos, através das múltiplas sobreposições de tinta e num processo cumulativo, constrói o sujeito, normalmente em telas de grandes dimensões.

2) M: Conta-nos como chegaste à pintura.
A: Tal como anteriormente referi, todo o meu percurso académico e de vida esteve, de alguma forma ligado às artes e não me lembro da minha pessoa sem um lápis ou uma caneta ao lado todo o tempo. A pintura, no entanto, resultou de uma proposta feita por 3 amigos que me desafiaram a construir 3 retratos, e de repente, toda a minha vida se transformou.

3) M: Qual é a tua maior referência e inspiração?

A: A minha inspiração tem muito mais que ver com trabalho constante do que propriamente com um processo divino de iluminação espontânea. Parafraseando Picasso, “espero que a inspiração me encontre a trabalhar”. Parte desse trabalho é o olhar muito atento para outros artistas. Apesar de todos os dias encontrar artistas novos, tenho alguns que são referências constantes e que admiro e estudo de forma constante. Velázquez pela forma quase sobre humana com que consegue oferecer vida a qualquer elemento da imagem em que toca com uma simplicidade assustadora. No Prado descobri El Greco que se tem vindo a revelar absolutamente crucial no meu entendimento das cores e da distorção/abstração figurativa. E Rembrandt para me relembrar de que não percebo mesmo nada disto. Em termos de contemporaneidade, Frank Auerbach é na minha opinião, o mais importante artista contemporâneo vivo e a forma liberta e aparentemente caótica com que ele constrói (ou desconstrói) os seus trabalhos, é algo que me fascina, e onde encontro muito material investigativo. Daniel Richter tem um trabalho fabuloso e ainda estou a tentar descodificar a forma como ele organiza as cores, tal como Adrian Ghenie, Cecily Brown, entre outros. São mesmo muitos, e absolutamente fundamentais no meu trabalho.

4) M: Porque escolheste representar pessoas? O que têm elas de especial?

A: A complexidade da condição humana, no meu entender é o tema mais desafiante e difícil que existe. Traduzir isso numa imagem de alguém é muito complexo, mas ao mesmo tempo, absolutamente fascinante e imprevisível. Dificilmente neste momento me vejo a pintar uma paisagem.

5) M: Onde fazes a diferença?

A: Espero que no momento em que alguém olha para uma obra que eu fiz e a reconhece como sendo minha. (Uma das razões pelas quais assino as minhas telas no verso)

6) M: Neste momento, que papel tem a arquitetura na tua vida? Sentes que de alguma forma te ajuda no desenvolvimento do teu trabalho?

A: A arquitetura fez parte da minha vida na última década e meia. Será por isso, absolutamente impossível dissociar a minha leitura e análise das coisas, da formação que tive enquanto arquiteto e que certamente serviu para me enriquecer enquanto artista. Não sei se me ajuda ou por vezes dificulta. Mas acredito que me oferece seguramente uma leitura de espaço e proporção muito mais especificas e, nesse aspeto, talvez também mais eficaz. De qualquer maneira, é tremendamente especulativo tentar quantificar essa afetação da arquitetura ao meu trabalho. Uma coisa é absolutamente real e a única certeza que tenho: Só pinto como pinto porque fui arquiteto, e isso, sendo bom ou mau, produz um resultado direto na forma como crio, construo e entendo o corpo do meu trabalho.

7) M: Qual foi a pior crítica que te fizeram e o que tiraste de positivo disso?

A: Não me lembro de nenhuma crítica significativa, apesar de existirem opiniões, algumas completamente divergentes com as opções que eu tomei na construção da obra.

8) M: Existe ingratidão para com a arte?

A: Existe ingratidão em quase tudo, e não me parece que a arte seja diferente nesse sentido. Por oposição acho que a arte também pode ser excessivamente generosa. 

9) M: Destaca um quadro teu e diz-nos porquê.

A: ’Symphony in Blue, Scherzo’. Existem quadros que ganham uma intensidade tão própria que rapidamente nos deixam de nos pertencer (se é que em algum momento nos pertenceram). Foi o caso dessa tela. É impossível ignorar a presença que esse olhar tem no espaço onde for introduzido. Tem uma dinâmica e uma energia muito própria que não sei bem como foram criadas.

10) M: Qual é o teu lema de vida?

A: Neste momento seguramente, “um quadro de cada vez”.

11) M: O que guardaste para 2016? O que vem aí?

A: Vai ser um ano interessante com muitos desafios, onde continuarei a produzir os meus retratos mas talvez o momento de maior destaque seja a realização de uma exposição individual com o intuito de internacionalização do meu trabalho, da qual ainda não posso falar com muito pormenor, mas posso adiantar que as negociações estão quase concluídas. Estou a tentar reunir as condições para a realização de uma outra exposição individual maioritariamente com os trabalhos já pertencentes a coleções privadas e alguns outros completamente novos. E ainda existe uma proposta para a realização em breve, de um mural de 50m2 na cidade de Lisboa, em Maio, com curadoria de Ana Vilar Bravo.

12) M: Onde encontramos o Alexandre a um domingo?

A: No estúdio a trabalhar com a música bem alta.

13) M: Deixa um recado à MELANCIA mag e aos leitores.

A: Não deixem de procurar aquilo que vos faz feliz, ou isto perde todo o sentido.

byalexandrealonso.com

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