ENTREVISTA: JULIANA LIMA

Fotografias: vários

ESCOLA DE DANÇA ANA KHOLER

Ballet, estilo de dança artística caracterizado por movimentos graciosos, saltos e piruetas, em que muitos dos passos são executados nas pontas dos pés.  Ser bailarina de pequenina é algo comum entre as raparigas (até eu fui). Entretanto, fica evidente que quem seguem o ballet para a vida é mesmo apaixonado por esta arte. Toda a delicadeza e leveza das bailarinas que nos fascina em palco exige muita dedicação, dores, disciplina, concentração, força de vontade, empenho entre outras tantas habilidades e qualidades. E foi tudo isto que inspirou este artigo.  Passé! Plié! Jeté! Relevé!

Para conhecer melhor os bastidores deste mundo, conversámos com a Ana Kohler, bailarina profissional com um percurso invejável, que criou em Lisboa uma escola de dança com o seu nome, onde a MELANCIA mag passou uma manhã.

 

1) MELANCIA: Quem é a Ana Kohler?
ANA: Bailarina, coreógrafa e professora de dança, licenciada pela Rotterdamse Dansacademie-Holanda, directora da Escola de Dança Ana Köhler, presidente do Conselho Internacional de Dança da UNESCO- Secção Lisboa e do Centro UNESCO de Dança.

2) M: Qual a tua formação e quando percebeste que serias bailarina profissional e deverias seguir a dança como carreira?
A: Fui aluna da Prof. Anna Máscolo em Lisboa e da Escola Técnica de Bailado do Teatro Nacional de S.Carlos, segui para França para uma das melhores Escolas de Dança Clássica e tive o prazer de ainda ser aluna da Madame Rosella Hightower, entre outros professores da Ópera de Paris. De França segui para a Holanda, onde dancei profissionalmente e me licenciei em Dança Clássica e Moderna na Escola Superior de Dança de Roterdão, que forma bailarinos e professores desde 1952.  A primeira memória que tenho é de começar a dançar espontaneamente ao som de dança clássica e mais tarde uma natural sensação de que era esse o meu caminho, como se soubesse desde sempre que a Dança era a minha vida.

3) M: Como e em que altura da tua carreira de bailarina te surgiu a ideia de ter uma escola de dança tua?

A: A Escola surgiu após um percurso pelo ensino no Conservatório de Dança de Roterdão e escolas de Dança privadas e em simultâneo com a decisão de voltar para Portugal, ou seja, voltando para cá iria criar o meu próprio projecto. Decidi que ficaria dois anos a pôr à prova os meus conceito e visão, caso contrário, voltaria de novo para a Holanda.

4) M: No ano passado, a Escola de Dança Ana Kohler completou 10 anos. Fala-nos sobre esta realização. 

A: São 10 anos de muitas conquistas, de cruzamentos de muitas vidas e troca de experiências e sempre a deixar o caminho aberto para novas aventuras. Para trás fica a nostalgia de grandes momentos vividos com os meus alunos e equipa! O meu dia a dia pertence ao futuro!

5) M: Já estiveste na posição das tuas alunas, hoje és o exemplo para muitas miúdas. Como te sentes com esta responsabilidade?

A: Não é responsabilidade! É missão! Todos ouviram várias vezes no estúdio: “Nesta Escola não se aprendem apenas passos de Dança, aprende-se a viver e a ser um ser humano melhor e mais consciente!” A Arte seja qual for a sua forma, dá-nos o privilégio da visão e de viver “fora do eixo” e quem a vive, tem a obrigação de transformar todos à sua volta.

6) M: A escola oferece muitas modalidades, além da dança clássica. Fala-nos sobre esta diversidade. Com escolhes as aulas da escola e os professores?

A: A Escola tem um projecto próprio na formação do aluno, domina a Dança Clássica aliada com a Dança Contemporânea. As restantes modalidades completam a formação dentro das áreas que considero interessantes e pertinentes.

7) M: Durante este percurso da escola, conta-nos um facto que mais te orgulha e porquê.

A: Orgulha-me sentir que esta Escola não é só um local de ensino de uma Arte, mas a segunda casa de todos que por aqui passam, onde não existe qualquer tipo de discriminação, elitismo ou preconceito. Estes valores acompanham-me ao longo do meu percurso pessoal, pelo que a nomeação para a representação do Conselho Internacional de Dança da Unesco em Portugal e da criação de um Centro Unesco da Dança acabam por ser uma consequência disso mesmo.

8) M: Quais são as tuas inspirações artísticas e principais referências?

A: Coreógrafos de referência: Mats EK, Carolyn Carlson e Jíri Kylian, Música: Michael Nyman, Richard Wagner e Rossini, Bailarinos: Michael Baryshnikov e Ana Laguna, Pintores: Dali, Escritores: Milan Kundera e Eça de Queiroz.

9) M: Sabemos que a escola tem uma parceria com uma escola de dança na Holanda. Qual a importância de estabelecer este tipo de relação internacional?

A: A Dança não tem fronteiras e a parceria com escolas de outros países ou contacto com professores de outras nacionalidades é algo natural no nosso meio e que acontece igualmente na minha escola. Com frequência, convido professores de outros países para benefício na formação dos alunos e para que contactem com o meio artístico internacional. A nossa escola, por via destes contactos, tem sido um trampolim para aqueles que querem fazer da Dança a sua carreira, mas não tiveram oportunidade de passar por um Conservatório...

10) M: Deixa uma mensagem à MELANCIA mag e aos seus leitores.

A: A vida é para se viver com paixão e intensidade. Descubra a sua Arte e entregue-se!

E, para perceber melhor as dores e ambições de quem está a começar, mas já encara o ballet com tanta responsabilidade, conversámos com Maria Azevo, 16 anos, uma das melhores alunas da Escola de Dança Ana Kohler.

1) MELANCIA: Há quanto tempo fazes ballet? E como começaste?
MARIA: O primeiro contacto que tive com dança não foi ballet mas sim hip-hop, num pequeno grupo liderado por uma professora sem qualquer formação. Dois anos volvidos, percebi que queria evoluir nas minhas capacidades como bailarina, então, por vontade própria, pedi à minha mãe para me inscrever no ballet, que pratico há cinco anos. Como tinha já 11 anos quando fiz a minha primeira aula senti algumas dificuldades em adaptar-me, pois nunca tinha feito algo do género, mas passados alguns meses deparei-me com a realidade e vi que o ballet era uma arte tão complexa e tão bela, que me “apaixonei”.

2) M: Como escolheste a escola? E, como é ter a Ana Kolher como professora?
M: Antes de entrar na escola já tinha frequentado uma das colónias de verão e sabia que era boa. É certamente muito desafiante ter a Ana Kohler como professora, devido à sua rigidez e perfeccionismo, mas tudo isso contribui para o nosso crescimento enquanto bailarinas e pessoas.

3) M: Quantas vezes por semana praticas ballet?

M: Por semana, tenho 10h semanais de dança (incluindo outros tipos de dança, tais como hip-hop, dança contemporânea e jazz), mas de ballet tenho 3h30, e em época de espetáculo temos sempre ensaio sábado à tarde.

4) M: Para ser uma boa bailarina tens de ter muita disciplina, concentração, força de vontade, empenho entre outras tantas habilidades e qualidades. Achas que fazer ballet contribui para a tua formação e para a tua vida para além das aulas? Porquê?
M: Ajuda muito, influencia bastante a minha capacidade de concentração, memorização, ser ambiciosa e a ser uma pessoa dedicada.

5) M: Tens apenas 16 anos, entretanto já foste a Nova Iorque para dançar e ganhaste, juntamente com o grupo, prémios em competição. Conta-nos como foi esta experiência.

M: Foi inacreditável! Nova Iorque é uma realidade completamente diferente. Nós nunca pensámos sequer que algum dia íamos lá, quanto mais ganhar um prémio. Mas para conseguirmos alcançar isso, tivemos ensaios intensivos de preparação para a nossa coreografia, todos os dias. Foi super exaustivo, tanto fisicamente como mentalmente. Claro que mais tarde todo esse esforço valeu muito a pena. Depois da competição, tivemos workshops com bailarinos mundialmente reconhecidos, como Nick Lazzarini e Mia Michaels, o que foi absolutamente fantástico e enriqueceu muito a minha técnica e improvisação. E nesta viagem também sinto que fortaleci muito as minhas amizades tanto com o grupo, como com a Ana. Sinto-me muito grata por esta oportunidade!

6) M: Pensas em seguir a carreira de bailarina profissional? Fala-nos um pouco das tuas expectativas e ambições relativamente à dança.

M: Adorava poder participar em musicais na Broadway, como “Rei Leão”, “Grease” , ”Chicago”... No entanto, sei quão difícil isso é, mas tento investir em mim através das aulas na escola de dança, cursos de dança no Conservatório de Dança de Lisboa e workshops, sempre que tenho oportunidade para aumentar a minha técnica aproveito. Este Verão, se possível, vou tentar inscrever-me num curso de verão de dança em Inglaterra ou Holanda. Tenho de agarrar todas as oportunidades e nunca desistir!

7) M: Deixa um recadinho para a MELANCIA mag e para os nossos leitores.

M: Acho que o que é realmente importante é não perder o foco, não desistir, ser persistente e pensar sempre que conseguimos fazer melhor, quando a esperança já é pouca. Deixo aqui também uma das minhas frases preferidas: “É preciso amarmos a dança para nos ‘amarrarmos’ a ela. Não nos dá nada de volta, nem livros para serem publicados, nem quadros para pormos nas paredes ou serem pendurados em museus, nem poemas para serem impressos e vendidos, dá-nos ‘apenas’ aquele momento efémero em que nos sentimos vivos” - Merce Cunning

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