Entrevista: JULIANA LIMA

Fotografias: VÁRIOS

ALINE

FRAZÃO

Aline Frazão, 27 anos, veio de Luanda para viver em Lisboa. A cantora e compositora angolana falou-nos sobre como pretende poder dar a conhecer a cultura de Angola através da sua música. Depois de passar pelo Porto e por Coimbra, Aline demostrou-se bastante animada com o concerto que dará em Lisboa no início de Fevereiro para apresentar o seu novo álbum, “Insular”. Conheça um pouco mais desta artista carismática, repleta de influências e de tão boa energia.

1) MELANCIA: Quem é a Aline?
ALINE: Cantora, compositora, angolana, de Luanda, 27 anos.

2) M: Como começou o teu gosto pela música?
A:
Começou muito cedo, quando era criança. Comecei a cantar em público muito nova, na escola. Acho que o facto de ouvirmos muita música em casa dos meus pais também me influenciou muito musicalmente. Ouvíamos mornas caboverdianas, sembas, fados, samba do Brasil, música clássica... Mas começar mesmo profissionalmente na música foi uma decisão mais recente, depois de participar no festival galego “Cantos na Maré”. Foi pouco depois disso que lancei o meu primeiro disco, “Clave Bantu”, em 2011.

3) M: Por que escolheste Lisboa para viver?

D: Por conveniência, porque trabalho com músicos de cá, porque tenho família cá e porque Lisboa acaba por ficar mais perto de Luanda. Antes disso, estive dois anos em Barcelona mas passava quase mais tempo cá, por causa do trabalho.

4) M: És um dos nomes sonantes da nova geração de músicos angolanos. Como te sentes a representar o teu país na cena musical pelo mundo?

A: Gosto de poder dar a conhecer um pouco mais da música e da cultura angolanas. Mas, ao mesmo tempo, sei que o meu trabalho não se limita a esse marco, pois a música que faço bebe de várias influências. Depois há as letras, claro, essas sim muito ligadas a Angola, de uma maneira ou de outra.

5) M: Como classificas a tua música?

A: Normalmente, não gosto muito de o fazer. Mas é música autoral, em que o texto tem um peso importante. Influências variadas e sempre em processo de construção.

6) M: Fala-nos do teu processo criativo de composição, das tuas inspirações e do teu trabalho com tantas influências culturais.

A: O meu processo de criação é muito cambiante. Normalmente começo pelas letras, pelo texto. E depois pego na guitarra, construo um ambiente, uma harmonia que transmita o que a letra pede. Só depois a voz. Mas isto tudo pode acontecer ao contrário também. Posso começar às vezes por uma melodia ou por uma linha de baixo. O que é certo é que, para compor, preciso de tempo e espaço, de silêncio e de recolhimento.

7) M: Sabemos que, além de cantar, também compões, escreves e assinas crónicas no site Rede Angola...

A: Tem tudo a ver com a escrita. Licenciei-me em Ciências da Comunicação e tenho um vínculo forte com o jornalismo. A oportunidade de escrever uma crónica semanal para o Rede Angola foi um grande desafio e uma forma de eu canalizar as minhas preocupações políticas e sociais para um espaço público de debate. Por vezes é difícil conjugar os dois lados, a música e as crónicas. Mas são duas facetas que se complementam, desde a minha vivência.

8) M: Já atuaste em alguns países. No geral, qual foi o feedback? Fala-nos sobre a tua carreira internacional.

A: Sendo eu uma cantora angolana a viver no estrangeiro, a minha carreira é, basicamente, internacional. Toco muito nas zonas da Alemanha, Áustria e Suíça, tenho ido com mais frequência ao Brasil, quero regressar a Cabo Verde e estrear-me em Moçambique. Gosto muito de cultivar novos públicos e, felizmente, tenho tido essa oportunidade, além do público que sempre me recebe tão bem, em Portugal, claro.

9) M: A MELANCIA mag possui duas idealizadoras, somos uma dupla luso-brasileira. E, também por esta razão, gostaríamos de saber como foi a tua experiência no Brasil.

A: Eu adoro o Brasil. É como se fosse uma segunda nacionalidade. Na verdade, a minha avó paterna nasceu no Rio de Janeiro e tenho família carioca. Sinto-me em casa e tenho muitos amigos músicos brasileiros. As experiências que tive de tocar lá foram óptimas. Sinto-me compreendida, bem acolhida. E fico sempre contente com as mensagens que recebo de gente do Brasil, que mesmo à distância segue o meu trabalho. Este ano quero voltar em abril para apresentar “Insular”.

10) M: Elege a música que mais te orgulha e explica-nos porquê.

A: A música minha? Uff... Difícil. Mas vou escolher uma do novo disco, “A Louca”, letra da Capicua, música minha. Porque a letra é magnífica e sinto que a música consegue acompanhar o ambiente e a loucura do texto e da personagem.

11) M: “Insular” foi lançado em Luanda no dia 31 de outubro de 2015 e chegou às lojas em Portugal a 20 de novembro. Entretanto, no começo de Fevereiro, dia 5, teremos um concerto teu em Lisboa. Quais as tuas expectativas para esta apresentação na cidade onde escolheste viver por agora?

A: Estou muito animada. Vai ser bom voltar ao palco de Lisboa, num lugar como a Casa Independente. Este álbum é desafiador e levá-lo para o palco tem sido um processo de muita aprendizagem. Lisboa vai ser o terceiro concerto, depois do Porto e de Coimbra. Acho que vamos estar mais à vontade e com muitas ganas.

12) M: E a tua parceria com a rapper portuguesa Capicua, como correu?

A: Participei no disco dela, “Sereia Louca”, e depois disso ficámos amigas. Não hesitei em pedir-lhe uma letra para “Insular” e ela enviou-me “A Louca”, que é mais um texto fantástico da Capicua, que além de ser uma rapper de referência em Portugal, é uma letrista excepcional para outros projectos que não o seu. Depois de algum tempo, fiz a música. E no final, tornou-se numa das mais marcantes deste disco.

13) M: Qual é o teu lema de vida?

A: Não sei se tenho. Vai mudando.

14) M: E o teu maior sonho?

A: Tenho vários. Gostaria de poder contribuir para o meu país ser um lugar mais justo e com menos diferenças sociais.

15) M: Deixa um recado à MELANCIA mag e aos nossos leitores.

A: Escutem “Insular”. Mas não pode ser só uma vez.

www.alinefrazao.com

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