ILUSTRAÇÃO & STREET ART

Entrevista: MAFALDA JESUS

PANTÓNIO

Arte, viagens, conversas, pessoas, conhecimento, descoberta… Este é o António Correia, mais conhecido como Pantónio. Este artista singular, que se intitula um “coelho do mar”, viaja pelo mundo deixando a sua arte por onde passa. O seu trabalho é caracterizado pelas pinturas imponentes e cheias de movimento, em tons de azul, que nos fazem viajar no imaginário do reino animal.

1) MELANCIA: Quem é o António Correia?
PANTÓNIO: 
É o outro, um coelho no mar.

2) M: O que te levou a adotar o nome “Pantónio”?
P: Foi-me posto! Há 11 anos fui iniciar um departamento gráfico numa empresa, e ao ser tão chato com toda a gente para que usassem os catálogos de referências de cores da marca Pantone, uma colega começou a trocar o António por Pantónio. Achei-lhe muita piada, e depois ainda mais a todas as palavras começadas por “pan”.

3) M: Como começou esta aventura no mundo da street art?

P: Pelo princípio - o desenho e depois pela criatividade e ainda mais depois pela participação na comunidade. Claro que quem desenha imagina coisas e vê coisas e figuras nas manchas, nas sombras e em todo o lado. Na escola experimentei stencils. No sítio onde ia nadar pintei um peixe gigante. Depois, há coisa de cinco anos troquei os nomes dos sítios numas placas de sinalética vazias, isso chamou a atenção e deu-me energia para insistir. Depois fartei-me de trabalhar em escritórios e mudei-me para a rua, para a minha caravana e ia deixando marca por onde estacionava. Depois atrevi-me a mostrar melhor o meu trabalho de pintura, em Portugal, depois em Paris e entrei num sistema em que convite leva a mais convites para projectos.

4) M: Tens um estilo único, complexo e inconfundível. Como decidiste que era este o caminho a seguir e que materiais usas?

P: Nas paredes uso tinta acrílica ou, quando muito rugosa, spray, desenho a composição e as formas a tinta preta, e depois desenho a luz e defino as formas. Desenho com a mesma forma de pensar como se estivesse a fazer relevo-gravura, ou seja em negativo. No papel desenho a grafite, ou a lápis chinês branco em papel preto…ou o que melhor me convir. Não decidi um estilo, vai acontecendo e vou-me sentindo confortável para evoluir. Exploro este agora pela economia de tempo e de técnicas que me permite perder tempo a descodificar uma série de confusões no que para mim vai sendo mais importante, que é onde quero chegar e o que estou a comunicar. Também esta técnica me dá prazer e calma no exercício do gesto.

5) M: O teu trabalho também é feito de improviso ou é sempre meticulosamente pensado? Conta-nos como funciona o teu processo criativo.

P: Gosto de pensar bem antes no que vou fazer (sim fazer uma simples diagonal numa parede de 40 metros exige isso), e gostava de um dia executar uma pintura como um profissional de engenharia, chegar com a ideia, esboço, medidas e limpar as mãos no fim e ir beber uma cerveja. No entanto, já na execução, encravo na ideia, procuro mais qualquer coisinha, deixo-me influenciar por alguma coisa que me dizem, entro em ansiedade, não durmo e procuro algo quase até ao final do projeto. Dou muitas voltas ao quarteirão para ouvir uma história que me inspire, vigio a pintura de vários ângulos e procuro acima de tudo ficar contente com a energia que quero para o trabalho.

6) M: Quais são as tuas maiores influências?

P: Na história, carga e tensão são as inter-relações humanas. Figurativamente, é a natureza, o movimento das coisas naturais, e a marca que deixam do seu movimento, crescimento e evolução. As primeiras imagens que vi em casa dos meus pais, foram de artistas russos, através da revista “União Soviética”. Também na estante do corredor estavam bem visíveis as capas de vinis do Zeca Afonso “o coro dos tribunais” e do Bob Dylan com a ilustração de “To Inform and Delight” e vejo bastantes semelhanças nessas duas ilustrações e no que faço hoje.

7) M: Qual o papel que a arte pública deveria ou desempenha na sociedade?

P: Acho que é o de não ter vergonha em expor, brincar, usar, de interagir e de mostrar algum respeito. De ajudar na comunicação entre nós, e combater um sistema vigente em que a imagem é utilizada para convencer e enganar.

8) M: O teu trabalho já chegou a diversos pontos do globo. De todas as exposições e projetos que já fizeste, qual foi o mais gratificante?

P: Há cinco anos. Estava no Porto com a minha caravana e fui à Afurada lavar a roupa no lavadouro público, as senhoras que lá estavam a fazer o mesmo foram simpáticas e a malta mais nova no pontão viu as latas e pôs à disposição os barracos de arrumos para pintar.  Acabei por ficar mais dias, inscrevi-me no curso para licença de pescador, fiquei sete ou oito meses acampado com a caravana no porto de pesca, fiz amigos, fui à pesca na traineira, pintei paredes, retratos para malta que me pediu, e pintei cafés. Foi uma experiência bastante intensa, pessoal, gratificante e energética.

9) M: Qual seria a parede dos teus sonhos e quais os teus planos para o futuro?

P: Um museu de pesca, uma piscina…um cargueiro. A curto prazo, tenho duas exposições para fazer, uma de pintura no estrangeiro e uma de desenhos em Portugal. A ver se consigo editar esses desenhos em livro com uma história que tenho. A médio prazo, gostava de parar um pouco pelos Açores, estou a acusar o cansaço de não ter casa fixa, explorar a minha pintura em desenho animado, pintar barcos e arranjar estúdio e desenvolver trabalho de atelier. A longo prazo, continuar a ter vontade de desenhar e pintar.

10) M: Deixa uma mensagem à MELANCIA mag e a todos os seus leitores 

P: Cuidem bem uns dos outros. Habituem-se a fazer as coisas bem e percam tempo nisso no início, porque depois da carruagem já estar em andamento é mais difícil desfazer erros e vícios, e poupa-se tempo e energia para as coisas importantes... Portanto, não é nada de novo, já todos sabemos isso.

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