Entrevista: JULIANA LIMA

FOTOGRAFIAS: VÁRIOS

LATA 65

LATA 65 é um projeto que pretende aproximar os idosos da arte urbana, quase sempre associada a jovens. Esta iniciativa é uma parceria do Coworklisboa com o "Wool - Festival de Arte Urbana da Covilhã". Define-se como Workshop de Arte Urbana para Idosos e tende a ser um passo em frente na aproximação entre gerações. Conversámos com a Lara Seixo Rodrigues, coordenadora deste projecto inspirador, e tivemos a oportunidade de acompanhar um  dos tantos workshops que sempre estão a acontecer em Lisboa.

Portugal é um país cada vez mais envelhecido e com altos índices de problemas de saúde na 3ª geração. Entretanto, esta situação pode inspirar iniciativas como o LATA 65, que conjuga o estimulo da saúde física com saúde mental dos idosos.

 

Os workshops do LATA 65 começam sempre com uma introdução à história da arte de rua, passa pelas ilustrações feitas pelos participantes, seguindo para a técnica de stencil e termina nas ruas, com latas de tinta e paredes vazias, onde se dá início a uma verdadeira revolução. Lugares ditos normais, ou até sujos e gastos, passam a ser espaços com cor que fazem parar os transeuntes pelos melhores motivos.

 

1) MELANCIA: Como e quando surgiu a ideia de desenvolver o projecto

LATA 65?
LARA: 
Surgiu de forma bem curiosa e rápida, sentada a uma mesa de café com o Fernando Mendes do Cowork Lisboa, na LXFactory. Ele sempre foi seguidor do trabalho do WOOL – Festival de Arte Urbana da Covilhã e foram variadíssimas vezes que comentei que o “público” que ficava horas a seguir os trabalhos, na Covilhã, Coimbra, Figueira da Foz, ...; aquele público que fazia mil perguntas e queria saber todos os detalhes das pinturas, era o mais idoso. Ele desafiou-me a fazer um workshop, a colocar os idosos em acção e a resposta afirmativa foi imediata. Em 15 dias, montámos tudo para o primeiro workshop de arte urbana para idosos, já em Novembro de 2012.

2) M: Na altura em que o projeto foi idealizado e lançado, qual eram os objetivos e as expectativas?
L: O primeiro LATA 65 “construiu-se” com base em vontades. Vontade de levar este interesse pela Arte Urbana que observara, mais além. Vontade de provar que conceitos como envelhecimento activo e solidariedade entre gerações fazem a cada dia mais sentido; de demonstrar que a Arte Urbana tem o poder de fomentar, promover e valorizar a democratização do acesso à arte Contemporânea; de aproximar os menos jovens a uma forma de expressão artística habitualmente associada aos mais jovens; de demonstrar que a idade é só um número.

3) M: De forma breve, conta-nos no que consiste o projeto.

L: O LATA 65 consiste num workshop de duas tardes, cerca de oito a dez horas, em ambiente bastante descontraído. Começamos por uma parte teórico-visual, em que falamos sobre a origem e história do graffiti e sua derivação para Arte Urbana, as diferenças, quem faz ambas, técnicas, evolução, geografias, etc. É um enorme espaço de diálogo e de muitas perguntas que os idosos têm sobre o que veem diariamente nas ruas das suas cidades, na televisão, nas revistas. Daqui passamos para a parte mais prática, começam por definir o seu ‘tag’ (nome de rua’), trabalham sobre o projecto do mesmo para colocar na parede e depois passamos para o desenho mais livre, que será reutilizado para o corte do stencil. Depois de toda esta preparação, vamos para a rua pintar.

4) M: E, como te sentes com todo o sucesso, a boa aceitação e toda a repercussão que o LATA 65 está a ter pelo mundo?

L: É um misto de sensações. A verdade é que o LATA 65 era para ter acontecido uma vez, mas eu apaixonei-me pelo que vi, pelo resultado e decidi que teria de continuar. O trabalho desenvolvido desde 2012 tem passado muito por procurar formas de dar continuidade ao projecto. Respondemos a convites de festivais, de palestras / seminários, concorri ao Orçamento Participativo de Lisboa, etc. Este ano de 2015, finalmente, conseguimos começar as acções integradas no Orçamento Participativo de Lisboa (que decorre pelas várias juntas da cidade) e da atenção gerada tem resultado mais e maior destaque, principalmente por parte dos media e investigadores sociais internacionais. Obviamente, enche-nos de orgulho todo o sucesso, principalmente porque se alcança um dos nossos objectivos principais, que é o demonstrar e mostrar ao mundo a validade desta geração. Confesso que me deixa algo triste a pouca atenção nacional e o pouco apoio que temos de marcas. Infelizmente. o tema “idosos” não é atractivo.

5) M: Quantas pessoas fazem parte da equipa organizadora? Fala-nos um pouco sobre as tuas responsabilidades com o projeto e sobre as funções de cada integrante do LATA 65.

L: Na organização do LATA 65 e em todas as funções / responsabilidades estou eu. Tenho somente a ajuda do artista Adres durante os workshops.

6) M: Gostaríamos de saber como apresentam o projeto aos idosos e como acontecem as inscrições para cada um dos workshops. 

L: As inscrições dependem do tipo de “contratação”. Nas várias acções integradas no Orçamento Participativo de Lisboa, as inscrições são geridas por cada Junta de Freguesia. Noutras situações, em que somos chamados por instituições / lares / centros de dia, são os próprios que gerem quem participa no LATA 65. Não temos uma apresentação fechada, porque cada grupo é um grupo, depende muito da faixa etária, do dinamismo. Confesso que é um pouco stressante sempre o começo, porque nunca sabemos como será o que vamos encontrar. Adaptamos sempre a cada grupo e dentro dele a cada aluno.

7) M: Com que periodicidade acontecem os workshops?

L: Não têm periodicidade. Respondemos a solicitações. E através da venda do merchandising LATA 65, podemos responder a algumas instituições que não têm capacidade de pagar o valor do workshop.

8) M: Como o LATA 65 encontra os sítios para as sessões graffiti?

L: É somente uma questão de procurar paredes e pedir autorização (aos donos e autarquia).

9) M: Como é dar aulas de graffiti para este público? Os alunos surpreendem com a criatividade e performance?

L: Os idosos são pessoas muito inseguras na generalidade, com pouca autoestima, ou debilitada. O LATA 65 é por isso um projecto mais social e terapêutico do que aquilo que pode parecer. Usamos a arte para os desafiar a experimentar, a experimentar uma nova actividade, na qual todos temos capacidade de fazer, em que não existem errado ou correcto, nem bem ou mal. A cada desafio proposto (desenhar, usar estilete, ...) os alunos transformam-se, a sua autoestima cresce e por isso vemo-los a continuar a pintar nas ruas. Muitas vezes eles dizem-nos que se descobrem, que não se achavam capazes. Obviamente, existem muitos preconceitos e por isso mesmo é muito importante a primeira parte, mais de conversa, de falar sobre a história do graffiti e da arte urbana, em que colocam todas as suas questões e dúvidas. O feedback é sempre: “agora entendo o que vejo na rua”.

10) M: Estivemos num dos workshops de Dezembro, para a realização do nosso primeiro filme da revista. Não podíamos perder a oportunidade de ver, de perto, a reação dos participantes com a prática do graffiti. Encantadora é uma palavra que descreve bem a experiência da MELANCIA mag! Apercebemo-nos da satisfação e empolgação de algumas idosas com a atividade. Conta-nos algo divertido que tenham presenciado e que valha a pena partilhar.

L: Eu creio que o melhor que podemos observar em todos os workshops é a transformação que ocorre em cada um dos idosos. Chegam com dúvidas e sempre a questionar as suas capacidades e possibilidades e, quando acaba, percebem que são capazes de fazer e aprender algo novo, tenham 65, 70, 80, 90 ou 100 anos.

11) M: Sabemos que o projeto LATA 65 esteve no Brasil. Conta-nos de forma breve como aconteceu o convite e como foi esta experiência.

L: Estivemos no centro cultural SESC Santana através de um convite. Uma das suas programadoras descobriu o nosso projecto e nos convidou a marcar presença na semana dedicada ao Idoso. Foi óptima a experiência. Muito semelhante, no resultado, na transformação pessoal que é possível perceber e acompanhar diariamente. A única diferença foi tratar-se de um grupo mais jovem e que se inscreveu desejando aprender sobre aquilo que vê na rua e que já aprecia, mas quer aprender como se faz, quem faz. Em Portugal, costumo trabalhar com pessoas em asilos e que nem sempre “sabem ao que veem”, por assim dizer.

12) M: Para finalizar, deixa um recadinho para a MELANCIA mag e os nossos leitores.

L: Olhem pelos vossos idosos, proporcionem-lhes qualidade de vida, porque um dia nós também chegaremos lá e (de certeza) gostaremos de ser bem tratados. E já agora, apoiem o LATA 65, através da compra das nossas t-shirts e crachás, cujo valor reverte integralmente para a realização de mais workshops!!

 

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