ILUSTRAÇÃO & STREET ART

Entrevista: MAFALDA JESUS

OKER

“Um puto de 30 anos que nasceu na cidade da Maia”, assim se descreve Mário Fonseca, mais conhecido como OKER. Licenciado em Artes Digitais e Multimédia, este artista português, desenvolve trabalhos no âmbito da ilustração, graffiti e street art. Neste entrevista, fala-nos do seu percurso no mundo das artes e conta-nos a influência que a música teve no seu trabalho. Fica a conhecer este artista ousado, com um estilo muito próprio e com um porfólio recheado de vida e cor.

1) MELANCIA: Quem é o Mário Fonseca?
OKER: 
Um puto de 30 anos que nasceu na cidade da Maia, desenvolve trabalhos de ilustração, graffiti e street art, no mundo dele as pessoas chamam-lhe Oker.

2) M: Porquê o nome “Oker”?
O: Ao longo da minha caminhada no graffiti, fui tendo sempre imensos tags, era muito indeciso e mudava quase de semana em semana. Passado uns tempos fartei-me de estar constantemente a mudar e queria manter um que não tivesse significado e que fosse para sempre, então juntei as letras que mais gostava e surgiu o nome Oker.

3) M: Como começou esta aventura no mundo do graffiti?

O: Tudo começou por volta de 1998, no Bairro do Sobreiro da Maia, com um abecedário de tags, juntamente com um amigo. Passado uns tempos, o “bichinho” de tentar saber mais sobre graffiti começava “a comer parte do meu cérebro” e desta maneira ficava de olhos vidrados com as pinturas da rua. Entretanto, conheci pessoal da cultura Hip Hop e passado uns tempos formava a minha 1ª crew CAM (Criminal Art Makers) com um grande artista chamado Óscar Maia, que nos dias de hoje é um excelente designer gráfico.

4) M: E a ligação a outras áreas?

O: Daí para a frente foi uma altura com grandes influências porque estava ligado à cultura Hip Hop, em que surgiu o grupo NM (Novo manifesto). Também estava ligado ao skate e foi mais ou menos nesta altura que surgiu o gosto pelos stickers, ilustrações e posters... Além disto era grande fanático de desenhos animados, como “Ren & Stimpy”, “He-Man”, “Tartarugas Ninja”, “Rugrats”, “Thundercats”, “Moto-Ratos” e muitos outros. O meu fanatismo pela “bonecada” vem muito daí, de mundos de criaturas irreais, a identidade de cada personagem e os estilos de desenho. Tudo isto ia-se acumulando do meu lado da fantasia e dos sonhos.

5) M: Como surge o gosto pelo desenho?

O: Em 2004 entrei para a crew CMK (Crime Make Kings) onde vivi grandes experiências, comecei a pintar com mais regularidade e aqui nasce a vontade de querer fazer mais produções e o verdadeiro gosto pelo desenho. Também comecei a fazer alguns posters e stickers, foi uma fase em que introduzi outras técnicas para além do spray, como marcadores, pincel e tintas plásticas.

6) M: Tiraste um curso superior. De que forma isso te influenciou?

O: Licenciei-me em Artes Digitais e Multimédia, e com a minha passagem na ESAD (Escola Superior de Artes e Design), em Matosinhos, trago na mochila muita educação visual, técnicas de produção, o conceito e idealização de ideias. Uma fase de melhoramento do meu trabalho, levou-me para o lado “mais profissional”, ou seja, tentar dar qualidade ao que fazia. Daí o meu vício de fazer pesquisas de writers, pintores, ilustradores, designers gráficos e outras linguagens visuais, tudo isto através da experiência na ESAD, a pesquisa é muito importante e serve para dar continuidade ao estudo visual.

7) M: Participaste no “Redbull Street Galery”. Como foi essa experiência?

O: 2008 foi a data que mudou o meu percurso, recebo uma chamada do Bruno Santinho (conhecido por Quillograma) para participar na 2ª edição da “Redbull Street Galery”, em Lisboa, fiquei “MEGA” surpreendido porque o meu contacto com pessoal fora do Porto era muito pouco. Convite aceite e resultou numa “lavagem cerebral”. Estava rodeado de bons writers, ilustradores e designers com trabalhos de uma diversidade incrível, e ver o meu trabalho integrado naquele meio foi memorável e muito confortante. Neste evento surge uma grande amizade, Nuno Barbedo (Vulto aka Caver), grande writer e ilustrador, mostrou-me como é o graffiti em Lisboa. Só conseguia pensar: “este pessoal dá-lhe muito!”. Desenhavam constantemente, faziam grandes produções e a qualidade nem se fala. Confesso que quando vou a Lisboa venho em modo “Speedy Gonzalez”.

8) M: Entretanto, recebeste mais convites?

O: Sim. Uns tempos depois, além de fazer parte da crew Bymalodja com Mr.Dheo, surge também o convite para o Colectivo CNJS (Cabidela Ninjas), juntando-me a grandes artistas como Tosco, Ugandalebre e Fossil. Um estilo sombrio com criaturas horrendas, explorando na maioria das vezes preto e branco, estilos semelhantes, expressividade e toque satânico nas criações.Daqui para a frente foram surgindo convites para eventos como “Secret Wars”, “Walk&Talk Azores”, “VSP” (Visual Street Performance), “Underdogs”, “Putrica”, “Street Art Axa – Porto”, etc, assim como trabalhos para algumas marcas, Vandoma design, Redbull, LSH, RTP, Jameson Portugal, etc.

9) M: E actualmente?

O: Neste momento ando bem acompanhado com o meu novo coletivo, os RUA, com os artistas Alma, Draw e Fedor, tem sido um prazer fazer parte de um colectivo com grandes capacidades distintas e, além disso, um grande grupo de amigos, diria até Família. Desde o evento realizado pela Circus em Guimarães e Putrica em Freamunde, que produzimos juntos, convivemos diariamente. Somos unidos pelo que nos une, RUA!

10) M: Tens um estilo muito próprio. Qual foi o segredo para construir uma identidade tão forte?

O: Não tenho nenhum segredo, sempre pesquisei muito e tento absorver muita cultura visual, sou um observador nato, dou por mim muitas vezes a olhar para coisas que para muita gente são insignificantes. Neste momento, posso ter um estilo definido, mas se formos a ver as minhas produções há, por exemplo, três anos, acho que não têm muito a ver com o que faço agora, gosto de ir evoluindo com o tempo, não gosto de ficar “confortável” num só estilo, gosto de explorar... Até porque me canso de fazer sempre a mesma coisa. E essa é a luta, não pela perfeição, mas sim pela evolução.

11) M: Conta-nos como funciona o teu processo criativo na construção de um graffiti.

O: Como referi, tudo passa pela pesquisa. Antes de fazer algo gosto sempre de ver formas, cores, texturas, etc. Depois “colo-me” a desenhar e, primeiro que surja algo que me agrade, demora o seu tempo. Risco e apago, mil vezes, se for preciso até que por fim tenho o desenho pronto e uma folha massacrada que mais parece braille.

12) M: Além de pintar, o que fazes mais?

O: Neste momento, trabalho a full-time como operário semi-especializado na empresa Ach.Brito, em Vila do Conde, é uma marca de sabonetes muito conhecida e das mais antigas em Portugal. Não é de todo a minha área mas foi o que consegui arranjar para pagar as minhas despesas. Fora isso, tenho os meus trabalhos como freelancer e aí já faço o que realmente me dá prazer. Por vezes, chega a ser complicado conseguir conciliar tudo, mas tenho de acreditar e lutar para que um dia surja uma oportunidade melhor. Não podemos baixar os braços.

13) M: A música também faz parte da tua história enquanto artista. Fala-nos sobre isso. 

O: Sim, acompanhou-me imenso e por vezes sinto falta dela. Foi algo que ia fazendo por curtir, não fazia para ter futuro ou ser muito bom, apenas servia para libertar as minhas opiniões do que via e do que vivia. Tanto a música, na altura, como o graffiti, agora, faço porque são uma terapia. O tempo pára e entro na minha imaginação. Assim, os problemas desaparecem por instantes.

14) M: Que objetivos gostarias de alcançar no futuro?

O: Claro que um dos objetivos que todos deste meio têm e eu não sou exceção, é viajar pelo mundo para espalhar as minhas criações. Mas, sinceramente, adorava trabalhar para uma marca de streetwear ou algo do género. Desta forma, o graffiti era algo que faria com um significado ainda mais puro, ensinado pelas suas raízes, pintar para os meus, para quem realmente percebe e sente o mesmo feeling, deixar para trás as opiniões de pseudo-artistas e pseudo-apreciadores. Imaginem voltar à infância, em que éramos livres de fazer o que queríamos.

15) M: Quais são as tuas referências e inspirações?

O: Tudo o que seja relacionado com graffiti, street art, ilustração, pintura, textura, tipografia, música, design, oldschool, abandonado, velho, etc. Neste conjunto de influências existe muita matéria inspiradora.

16) M: Elege o trabalho que mais te marcou e diz-nos porquê

O: Foi, sem dúvida, o que fiz para o evento da “Redbull Street Galery”, em 2008. Foi um mês intensivo a fazer uma obra grande, toda ela num estilo muito diferente do que faço agora, não houve estudo nenhum, apenas ia fluindo com as memórias do dia-a-dia, num freestyle em que o erro seria “a morte do artista”. Considero o trabalho que me marcou mais também porque foi a partir daí que comecei a ficar “viciado” nisto, conheci imensa gente, fiz laços de amizade para a vida e foi o primeiro grande evento da minha história.

17) M: Deixa uma mensagem à MELANCIA mag e a todos os seus leitores.

O: Continuem a valorizar os nossos artistas nacionais.

www.behance.net/okerland

www.instagram.com/okerland

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