tatuagem

Entrevista: juliana lima

nouvelle

rita

Apesar de fazer parte das artes desde cedo, Nouvelle Rita começou a tatuar por um acaso. Sorte a nossa! Entretanto o seu trabalho tem ganho cada vez mais reconhecimento, não só em Portugal, mas internacionalmente. Dona de traços firmes e cheios de sensibilidade, Rita conta-nos um pouco sobre si e o seu percurso nesta deliciosa entrevista. 

Nouvelle Rita começou a tatuar há pouco mais de 2 anos e, apesar de pouco tempo, a artista vem a destacar-se cada vez mais na arte da tatuagem pelo seu estilo autêntico. Foi a paixão pela arte e a admiração pelos traços firmes e sensíveis desta tatuadora, que nos levou a querer saber mais sobre as suas técnicas, referências e sobre o que a motivou a espalhar por aí as suas lindas ilustrações em forma de tatuagem.

 

1) MELANCIA: Antes de mais, gostaríamos de conhecer um pouco mais a Rita, por isso vou fazer algumas perguntas mais pessoais. Vamos lá! Quantos anos tens e de onde és?
RITA: 
Tenho 27 anos e sou de Setúbal.

2) M: Sabemos que a profissão de tatuadora surgiu por acaso, em função da tua vida e proximidade com a Tânia CatClaw. Por seres tão boa ilustradora, com um traço tão único e um trabalho tão autoral, gostaríamos de saber qual a tua formação e como o teu gosto pelo desenho começou. Conta lá!
R: Acho que o meu gosto pelo desenho começou desde que tive destreza suficiente para, simultaneamente, agarrar num lápis de cera e esfregá-lo numa folha de papel para cá e pra lá. Estive três anos em Pintura na Faculdade de Belas Artes de Lisboa. Entretanto fui-me direcionando mais para o desenho digital e para a animação e acabei por mudar de curso para Arte e Multimédia, na vertente de animação, onde me arrastei mais um pouco e finalmente me licenciei. 

3) M: Como te descreverias de forma breve? Fala-nos um pouco da tua personalidade, gostos pessoais, a tua forma de ver e lidar com a vida...

R: Essa é uma pergunta complicada, não sei bem o que responder... Sou uma pessoa direta, awkward e sarcástica... Gosto de chocolate, gatos, comida confortável, dias de sol e café forte. Aprendi a viver a vida um passo de cada vez. Assusto-me se olhar demasiado para o futuro, por isso deixei de fazer planos a longo prazo. Sei que hei-de chegar onde tenho de chegar, no meu tempo, e preocupar-me com o que está para vir só vai fazer com que azede o que estou a fazer agora. Tento ser sempre o mais compreensiva e justa possível com toda a gente e recebo o mesmo em retorno.

4) M: E o teu trabalho? Toda a gente fala sobre ele, mas gostaríamos de ter a tua descrição. Como vês os teus traços e como poderias explicar-nos, de forma mais assertiva, o teu estilo? 

R: Na verdade não sei bem como o explicar. É algo que surgiu quando comecei a tatuar. Não desenhava desta forma antes de começar a explorar esta arte. Foi um ciclo que nasceu entre tatuagem e ilustração que, até então, nunca tinha sido possível. Inicialmente queria fazer desenhos com bastante linhas, para as treinar na tatuagem, antes de passar a qualquer outra coisa. Portanto comecei a fazer desenhos em que todo o volume e sombra era dado através da linha. Na altura foi uma construção de conveniência e aprendizagem mais do que tudo. Mas apercebi-me de que era um tipo de desenho que funcionava bastante bem por si só, que não precisava de mais nada para se destacar. E comecei a ter feedback muito positivo de quem o via, o que para mim foi a confirmação disso mesmo.

5) M: Também queremos saber a tua visão sobre o teu percurso profissional, a tua evolução nestes anos de atuação, a tua visão sobre ser tatuadora em Portugal.

R: Sinto que tenho sido uma sortuda desde o início. A tatuagem surgiu, para mim, na altura certa, salvou-me e esteve no inicio de uma reviravolta gigante. O facto de estar próxima da Tânia fez com que o processo inicial de aprendizagem fosse mais rápido para mim. Quando me dedico a alguma coisa que acho interessante aprendo muito rápido e facilmente (já coisas chatas... É uma verdadeira luta... Por exemplo, demorei três anos para tirar a carta de condução, acho que foi a coisa mais aborrecida da minha vida).  Quando comecei a tatuar dei-me conta de que já tinha bastantes conhecimentos técnicos que vinham da observação do trabalho da Tânia. Eu gosto de tatuar em Portugal, temos um público bastante crítico e que cada vez mais procura coisas novas e originais. Os meus clientes são na sua grande maioria pessoas espetaculares, que me deixam bastante à vontade para criar peças que funcionem bem (também já sabem mais ou menos o que esperar). Ainda que tatue maioritariamente em Lisboa, não sinto que esteja assim tão cingida a Portugal, já que quase metade dos meus clientes não são de cá. É um fenómeno que tem vindo a crescer: o turismo de tatuagens. As pessoas procuram o estilo que preferem, o/a artista que querem e viajam para conseguirem tatuar com ele/ela. Acho que faz todo o sentido e faz com que haja lugar para todo o tipo de diferentes estilos e abordagens à tatuagem. Tenho sentido que esses clientes, que vêm de longe, valorizam ainda mais a tatuagem que levam com eles e eu fico contente por fazer parte da viagem e da história deles.

6) M: Sabemos que todos os artistas têm as suas referências. Conta-nos um pouco das tuas. Quais são os tatuadores ou ilustradores que mais admiras e que de alguma forma inspiram o teu trabalho?

R: A minha maior influência inicial foi o trabalho do ilustrador Luke Dixon. Admiro imensos tatuadores e tatuadoras e quase todos os dias descubro alguém que ainda não conhecia e não deixo de ficar surpreendida. Posso deixar aqui alguns nomes (sou péssima com nomes e vou estar aqui meia hora a tentar lembrar-me deles... A minha memória é maioritariamente visual) Alex Tabuns; Diana Severinenko; Nomi Chi; Kelly Violet; Joe Frost; Fredão Oliveira... Entre muitos outros nomes, que a minha memória já varreu para debaixo do tapete.

7) M: Gostaríamos de saber se consegues indicar-nos uma tatuagem que, particularmente, gostas muito e que te orgulhas de a ter feito. Mostra-nos e conta-nos o porquê. 

R: Todas as minhas tatuagens me são bastante queridas por uma razão ou outra. Mas gosto bastante do resultado final desta sereia. Foi um desafio, normalmente não faço figura humana de corpo inteiro, porque não há espaço suficiente para dar o pormenor necessário e a cara perde todo o impacto. Felizmente o meu cliente tinha um braço grande, que deu para me alargar um pouco mais. Quando estava a fazê-la queria conseguir dar a ideia de que era uma sereia, mas sem ter que desenhar a cauda toda, para poupar espaço. E fiquei bastante contente com o resultado final, a cara não perdeu o seu impacto porque não é do tamanho de uma ervilha e ninguém fica em dúvida de que é realmente uma sereia e isso para mim quer dizer que cumpri o meu objetivo para esta peça.

8) M: E o teu processo criativo? Como funciona tudo para ti? Gostaríamos de saber como fazes a gestão de tudo desde a marcação, os desafios de criar a ilustração e responder às vontades do cliente, até realizar e finalizar a tatuagem em si.

R: O que acontece habitualmente é que o cliente me contacta através do e-mail ou da página de facebook, falamos sobre a sua ideia e a zona que pretende tatuar, vejo o que posso fazer para tornar aquela ideia numa tatuagem exequível e funcional e marcamos uma data para a tatuagem. Depois, um ou dois dias antes, envio o desenho ao cliente. O processo de desenho é normalmente mais demorado que a tatuagem em si (também porque sou a rainha da procrastinação). Quero ter a certeza de que faço o meu melhor sempre e isso leva algum tempo. Pensar na melhor composição/posição para a área que vai ser tatuada, pesquisar imagens de referência (imagens reais na sua maioria), fazer o sketch e finalmente o desenho final.

9) M: Sabemos que já tens a agenda lotada meses e meses no estúdio em Lisboa, onde atualmente atendes os teus clientes. Como te sentes com o teu grande sucesso?

R: Sinto-me muito feliz claro, é sempre bom ver o nosso trabalho reconhecido e nunca imaginei, quando comecei, que ia ter tanta aderência e que ia crescer tanto em tão pouco tempo. Ao mesmo tempo parece-me tudo bastante irreal, como se a Nouvelle Rita fosse um alter-ego meu. Apesar de ter a apreciação de tanta gente como tenho tido, é como se estivesse a olhar para tudo isto de um círculo exterior muito próximo. Como quando acompanhamos alguém de que gostamos muito, suceder naquilo que gosta de fazer e isso deixa-nos felizes.

10) M: Começaste a tatuar por influência e convivência com a Tânia, entretanto tens um estilo completamente diferente do dela. Hoje em dia, as duas têm projetos juntas, que nós particularmente adoramos! Gostaríamos de saber como surgiram as tatuagens em conjunto e qual a tua visão sobre esta parceria. 

R: Os projetos em conjunto surgiram quando alguém me falou na possibilidade de adicionar pintura a uma das minhas tatuagens. Visto que a Tânia é a “boss” da pintura e que os nossos estilos têm bastantes semelhanças (ainda que sejam completamente diferentes) pareceu-nos ser a melhor opção. Estamos habituadas a trabalhar juntas já antes das tatuagens começarem, portanto temos uma comunicação bastante fácil entre as duas. Além disso ela deixa-me ser mandona e “control freak” (como sou) e faz-me as vontades. Não confiaria a mais ninguém a continuação/complementação do meu trabalho (pelo menos por enquanto). Penso que resultam sempre peças muito interessantes das nossas parcerias. É verdade que o meu trabalho funciona por si só, mas quando a Tânia entra ao barulho, dá-lhe outra profundidade e outras possibilidades de leitura que não seriam possíveis.

11) M: Já tiveste experiências internacionais? Como foram e quais os planos sobre as próximas viagem em trabalho? 

R: Sim já. Este ano comecei a fazer guest spots. Estive em Roma, Londres (duas vezes) e Berlim. Este ano já não tenho mais planos, mas no início do ano irei novamente a Londres e espero ir a outras cidades, mas ainda não tenho programas concretos por isso prefiro não revelar mais. É uma das desvantagens de não querer fazer planos a longo prazo. Viajar é uma oportunidade ótima, que me permite, não só conhecer lugares e pessoas novas, como retribuir um pouco o amor que recebo das pessoas que seguem o meu trabalho e ser eu a ir ter com elas. Até agora tem sido sempre muito positivo.

12) M: Quais as tuas expectativas? E o teu maior sonho?

R: Deixei de criar expectativas quando deixei de fazer planos a longo prazo. Estou a viver o que me surge e até agora estou-me a dar bem com isso e só me tenho surpreendido. O problema das expectativas é que normalmente são sempre um pouco romantizadas e mais facilmente nos desiludimos. Desta forma é tudo lucro. Na verdade acho que estou a viver o meu maior sonho: fazer algo de que gosto, ser reconhecida pelo meu trabalho e esforço, viajar e conhecer sítios e pessoas novas... Acho que foi sempre o que pensei que gostaria de fazer quando fosse grande.

13) M: Para fechar, deixa a tua mensagem para a MELANCIA mag e para os nossos leitores. 

R: Tudo acontece por uma razão. Sei que parece um grande cliché, mas é verdade. Aquilo que nos faz perguntar na altura “porquê eu?” é o que nos leva a agradecer mais tarde que tenha acontecido. Por isso não se preocupem... Tudo é passageiro e tudo melhora. E se a coisa estiver mesmo difícil, enrosquem-se num gato e comam uma tablete de chocolate... Na verdade, esta é uma boa opção para qualquer estado de espírito. Gatos e chocolates para todos/as!

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