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Entrevista: juliana lima

douglas

cardoso

O jovem designer brasileiro  Douglas Cardoso veio para Lisboa com objetivo inicial de ficar apenas 4 meses para estudar, e já cá está há 4 anos. Na entrevista exclusiva para a MELANCIA mag #3, Douglas conta-nos  um pouco sobre a sua adaptação,  as suas experiências profissionais e a o processo de decisão de seguir o seu lado mais artístico, assumindo-se tatuador profissional.

1) MELANCIA: Antes de falarmos sobre o teu trabalho, gostaríamos de saber algumas coisas relacionadas com as tuas origens. És de uma cidade do interior de São Paulo, quais as influências desse facto na tua vida?
DOUGLAS: 
Costumo dizer que sou de Piraju porque fui criado lá, mas na verdade eu nasci numa cidade chamada Itaberá, ainda mais pequenina. São todas localidades com nomes de influência indígena, mesmo genuínas, uma vida bem simples de interior. Foi em Piraju que comecei a fazer os primeiros trabalhos, sem receber nada em troca, era acordar aos sábados e desenhar por gosto, só porque tinha vontade. O interior de São Paulo, hoje, é uma das coisas que busco em Lisboa. Sempre costumo dizer que Lisboa é meu Pirajuzão. A mistura perfeita da vida genuína, natureza, rio, praia, tudo pertinho e cheia de ladeiras.

2) M: Qual é a tua formação? Onde estudaste e o que fazias antes de ires viver para Lisboa?
D: A minha formação é em Design Gráfico, estudei no interior de São Paulo, numa cidade chamada Marília, onde também iniciei a minha segunda formação, desta vez em Publicidade e Marketing. Eu já trabalhava numa agência e juntamente com os estudos surgiu a oportunidade de trabalhar e estudar na capital. A minha vida mudou da noite para o dia com a oportunidade de trabalhar numa agência maior em São Paulo. Aceitei a proposta e mudei de faculdade. Três dias depois já estava a viver na capital, um novo começo. O tempo passou muito rápido, eram praticamente cinco conduções por dia, duas horas para ir, duas para voltar e assim foi durante uns três anos e meio, a estudar e trabalhar na capital. Até que vi, num folheto da faculdade, vagas para um intercâmbio em Portugal. A minha vida mudou outra vez da noite para o dia.

3) M: O que te levou à capital portuguesa?

D: Depois do tal folheto na faculdade, calhou ir jantar com um antigo chefe, o Cristiago Canguçu. Falámos sobre viagens e sobre a oportunidade de viver fora do Brasil. E ele disse-me que eu devia poupar algum dinheiro durante uns três anos, talvez, e tentar ir trabalhar no estrangeiro. Também me contou que conhecia a Luciana Cani (minha futura chefe) que vivia em Portugal e era diretora criativa da Leo Burnett. Fiquei com isso na cabeça, vi ali uma oportunidade e na mesma noite fiz as contas e percebi que era possível arriscar. Não demorou muito para eu pedir a demissão e todos os meus amigos e colegas de trabalho me incentivaram.

4) M: Há quanto tempo vives em Lisboa? Como foi a adaptação?

D: Embarquei numa viagem para ficar, supostamente, quatro meses a estudar, e aqui estou há quatro anos. Adaptei-me rapidamente. Na verdade apaixonei-me logo por Lisboa. Nunca me tinha sentido tão em casa, numa cidade tão “minha” em tão pouco tempo. Todas as vezes que deixo a capital portuguesa e vou viajar, tenho saudades de casa, e quando isso sucede, sinto que meu verdadeiro lar é Lisboa.

5) M: Trabalhavas numa grande agência de publicidade em Lisboa. Recentemente ganhaste prémios e tudo. Conta-nos um pouco sobre esta tua experiência.

D: A Leo Burnett é uma longa história… Muitas coisas boas aconteceram ali, na verdade, quase tudo. Passava mais tempo dentro da agência do que em qualquer outro lugar e naturalmente acabámos por tornar-nos uma família. Foi lá que conheci os meus melhores amigos e a mulher da minha vida. Tive a oportunidade de fazer de tudo um pouco. Pusemos a mão na massa e durante esses anos a trabalhar lá, tive o maior prazer em dividir todas as horas do dia e muitas noitadas com aquele pessoal.

6) M: Mas houve uma reviravolta na tua vida e enveredaste por uma área diferente. Como começou o teu gosto por tatuagens? Há quanto tempo já fazes este tipo de trabalho?

D: Estou a tatuar há quase três anos. Começou tudo sem ambição, foi mesmo por osmose. Primeiro comecei a seguir o trabalho de imensos tatuadores por gosto e a querer o que eles faziam na minha pele. Depois de ter feito uma tatuagem pela primeira vez, pude observar de perto que esta arte era ilustração pura. Fiquei cada vez mais “vidrado” e, durante uns anos, o meu olhar ficou voltado para aquilo. Quase sem querer, os meus desenhos foram ficando parecidos com tatuagens e os meus amigos reparam logo e começaram a pedi-me ilustrações para tatuar. Sendo assim comecei a ganhar confiança e interesse em aprender mais sobre essa arte e ao fim de um ano dei um presente a mim mesmo. Comprei um kit de tatuagens, tatuei algumas frutas e uma pele de porco. A seguir, um grande amigo meu, o Pablito, viu a pele de porco recém-feita e ficou maluco para tatuar. No início, fui resistente, achei que não era capaz e depois da insistência dele, investi em novo material e fiz minha primeira tatuagem nele. Fotografei, pus na internet, e desde então passei a tatuar quase todos os amigos, virou uma bola de neve e, quando percebi, estava a tatuar praticamente todos os fins-de-semana, madrugadas e feriados.

7) M: Percebemos que tens um estilo muito próprio ao tatuar. Traço mais grosso, pontilhismo, sombras... Como descreverias este teu estilo? Como o encontraste?

D: Não sei exatamente como descrever o meu estilo, mas costumo dizer que faço um trabalho de linhas e pontilhismo nas sombras, sempre a uma cor só, tudo a preto. Isso começou logo na primeira tatuagem que fiz, como eu tinha medo de agarrar na pele a valer e fazer uma linha sólida, experimentei fazer tudo pontinho por pontinho e ir limpando para ver como pigmentava. Cicatrizou bem e naturalmente. Comecei a ilustrar da maneira que tatuava e vice-versa.  Também desde criança que eu tinha uma tendência para não colorir os meus desenhos e trabalhar as sombras num único tom.

8) M: Gostaríamos de saber como sentes a tua evolução como tatuador?

D: Sinto-me privilegiado em agora poder ilustrar todos os dias e trabalhar em algo que antes eu fazia quando estava bastante cansado e com pouco tempo. Agora estou a gastar todas as energias no que mais gosto de fazer e sinto que estou sempre a aprender e a experimentar algo novo todos os dias.

9) M: Decidiste seguir o teu lado mais artístico e dedicar-te a serio a esta carreia. Conta-nos como tudo aconteceu.

D: Foi tudo muito natural. Já andava a ter cada vez menos tempo para fazer as duas coisas. Uma sequência de ideias levou-me a tomar a decisão de deixar meu emprego fixo na Agência de Publicidade e a levar a cabo algo que o meu coração me dizia para fazer há muito tempo. O facto do pai da minha namorada,  Francisco El Diablo, também ser tatuador, foi uma grande inspiração. Poder ver de tão perto um dos pioneiros da tatuagem a viver da arte, em Portugal, desde 1990, foi uma grande influência e fez-me criar coragem para poder fazer da tatuagem profissão.

10) M: Como é o teu processo criativo, desde a marcação até a finalização da tatuagem?

D: Geralmente, os clientes enviam-me mensagens com pedidos, a explicar qual é a ideia, tamanho e local. Depois de agendarmos, e quase sempre dois ou um dia antes de tatuar, eu agarro na ideia, junto uma referência de foto ou direccionamento do cliente e faço a ilustração da tatuagem. Depois de pronta, envio a apresentação a explicar o trabalho de linhas, sombras e encaixe.

11) M: Onde é que atendes os teus clientes? 

D: Na loja El Diablo e também no meu atelier com atendimento privado.

12) M: Qual foi a tatuagem mais desafiadora que fizeste até hoje? Porquê?

D: Acho que nenhuma foi tão desafiadora quanto a primeira, foi uma mistura de medo e descoberta, a minha cabeça virou-se do avesso, depois de ver a tinta por baixo da pele, não consegui parar de pensar naquilo.

13) M: E a que mais gostaste? Por que é que foi essa a preferida?

D: Há imensas, é difícil escolher, mas uma das que mais gostei foi um mocho em homenagem a uma querida amiga que já partiu. Mexeu comigo, fiquei mesmo emocionado. Além do significado, o resultado estético, modéstia à parte, deixou-me muito feliz.

13) M: E a que mais gostaste? Por que é que foi essa a preferida?

D: Há imensas, é difícil escolher, mas uma das que mais gostei foi um mocho em homenagem a uma querida amiga que já partiu. Mexeu comigo, fiquei mesmo emocionado. Além do significado, o resultado estético, modéstia à parte, deixou-me muito feliz.

14) M: Quais as tuas expectativas para o futuro? Os teus planos? Como é que te tens sentido com os desafios que já estás a enfrentar?

D: Estou mesmo contente, tenho bebido mais café do que deveria, andado pouco de skate, mas,  entretanto, mantenho-me otimista com os novos desafios. Os meus planos passam por poder tatuar cada vez mais e experimentar todo tipo de arte sempre que possível. O tempo é curto e temos de estar sempre a escolher. Infelizmente, não consigo, mas adorava poder estar em dois lugares ao mesmo tempo. Amo viver!

15) M: Para fechar, deixa um teu recadinho à MELANCIA mag e a todos os que desejam seguir um caminho mais artístico mas a quem muitas vezes falta coragem.

D: Deitar mais tarde, levantar mais cedo do que o de costume, tomar aquele banho e meter as mãos à obra com muito amor.

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