design de moda

ENTREVISTA: JULIANA LIMA

ANA

SEGURADO

Marca que foca no design orgânico, exclusivo e sensorial. Sediada no Porto, desenvolve produtos cruelty-free. São utilizadas fibras naturais e não naturais, sendo que a qualidade e o conforto são essenciais no processo de selecção.

1) MELANCIA: Como começou o seu interesse pela moda? Conte-nos um pouco sobre a sua formação e o seu percurso profissional.
ANA: Desde muito cedo. A minha avó era uma costureira eximia, eu passava imenso tempo com ela e com Lãs e tecidos. A minha mãe raramente me comprava roupa, era comum para mim estar em provas de fitting com costureiras. Eu sempre quis seguir esse caminho, mas tive de iniciar o meu percurso profissional numa área diferente e tive de fazer escolhas para me sustentar financeiramente e criar alguma estrutura. Em 2010, consegui entrar no curso de Design de Moda no Modattex- Centro Profissional da Industria Têxtil, no Porto.

2) M: Como foi a sua decisão de seguir a carreia de estilista independente?
A: Após ter terminado o curso, decidi trabalhar na indústria têxtil para adquirir experiência e aprofundar conhecimentos a nível técnico, produtivo e comercial. Acho que é fundamental haver um equilíbrio entre a visão/criação de um designer e a forma de o vender ao público-alvo para o qual trabalha. Durante esse meu percurso, senti que a indústria é massificada e muito efémera, falta-Lhe a individualidade, a criação e o detalhe. No meu trabalho, enquanto criadora independente, eu posso explorar esses aspectos e fazer uma evolução paralela à indústria massificada, além de ter uma liberdade de decisão e controlo sobre uma marca que é minha.

3) M: Explique-nos a sua perspetiva sobre esta frase que usa na sua descrição: "Na moda não se pretende uma tendência de momento, mas a individualidade; é feita por cada um de nós."

A: Uma coisa que me fascina e que está presente no meu trabalho é o processo de observar as pessoas; na rua, no metro, na TV, quando vou em viagem, e ver o que vestem. Questiono-me sempre o porquê de terem escolhido aquela peça de roupa, qual a história que está por detrás. Acho que este interesse desenvolveu-se principalmente pelas investidas que eu fazia ao armário da minha avó, agarrar peças dos anos 50/60/70 e analisar os materiais, as cores e perguntar quem vestiu e em que ocasião. A história do vestuário está directamente ligada à evolução do ser humano e todos nós estamos sempre em busca da nossa individualidade e do papel que desempenhamos no mundo. Todos temos histórias que queremos dar a conhecer. As minhas criações destinam-se a compartilhar as minhas experiências, a minha maneira de ver o mundo, e acima de tudo a individualidade.

4) M: Da forma mais sucinta possível: qual a essência da marca ANA SEGURADO?

A: Design de Look orgânico, exclusivo e sensorial, focado num conceito cruetty-free.

5) M: Conte-nos um pouco sobre o seu conceito "cruelty-free". O que a motivou a criar e oferecer produtos com design orgânico e exclusivo?

A: Desde criança que me lembro de questionar de forma muito efetiva as touradas, o abandono de animais, os animais em circos, zoológicos e a forma como eram tratados. É uma questão muito importante para mim, portanto, à partida, qualquer matéria-prima que usasse no meu trabalho não poderia estar diretamente relacionada com o sofrimento ou morte de um animal para esse efeito. A exceção é a lã, que é retirada através do processo de tosquia e que até contribui para o bem-estar dos animais. A marca foca-se também na procura de respostas mais sustentáveis e ecológicas com fibras naturais e também com fibras não-naturais de qualidade e conforto, sendo que, cada vez mais, a tecnologia de investigação oferece alternativas de grande qualidade.

6) M: Onde é feita toda a criação, confeção e produção das vossas peças?

A: A marca só trabalha com quantidades exclusivas, sendo que a criação, confeção e produção é feita em atelier.

7) M: Conte-nos um pouco sobre os principais desafios e as dificuldades que tem para manter-se fiel a este conceito sustentável?

A: Ainda existem poucas empresas em Portugal a desenvolver este tipo de produtos e as que o fazem, apesar da grande qualidade, limitam o acesso, sendo que trabalham para quantidades de grandes produções. Temos de estar constantemente a reinventar-nos e a procurar.

8) M: Como idealiza os modelos? Quantas coleções tem planeadas por ano e qual o seu público-alvo?

A: O processo criativo passa sempre por inspiração e pesquisas reunidas em moodboard, tem de existir sempre um tema, uma emoção. Eu trabalho com duas colecções Outono/ Inverno e Primavera/Verão. Neste momento estou no processo produtivo da colecção de Primavera/Verão 2016. Eu desenvolvo colecções womenswear, essencialmente para as pessoas que tenham um estilo transversal, que se interessem pela moda que não seja massificada. Que velam as peças de vestuário como sendo confortáveis, uma segunda pele mas sofisticadas e femininas. Acima de tudo que valorizem um estilo mais individual e que não tenham receio de arriscar vestir uma peça diferente do habitual.

9) M: Onde são comercializados os produtos ANA SEGURADO?

A: As colecções estão à venda em três pontos na zona do Porto. Também é possível adquirir através da loja online do site.

10) M: Gostaríamos de perceber as suas inspirações e influências criativas. Fale-nos um pouco sobre o seu processo criativo.

A: A Natureza está sempre nas entrelinhas do meu trabalho, seja na seleção dos materiais, seja no look. Cada coleção que desenvolvo tem sempre catarse, emoção e introspeção por detrás. A influência japonesa também marca sempre presença, seja de uma forma mais ou menos subtil, mas sempre em dualidade: a suavidade, a sabedoria e a atmosfera mais austera e racional. Mesmo quando pretendo trabalhar um tema mais concreto, existem sempre estes "ingredientes" por detrás.

11) M: Consegue eleger apenas um fashion designer (pode ser nacional ou internacional) que você admira? Quem seria e porquê?

A: Sem dúvida alguma, Yoh¡i Yamamoto. A forma como ele trabalha a dualidade feminino/ masculino, alfaiataria e desconstrução, o seu foco pelos detalhes e a "degustação" da moda, rejeitando totalmente a "fast fashion". Admiro o amor que ele tem pelo seu trabalho e a intemporalidade e individualidade da sua marca.

12) M: Como é ser estilista independente em Portugal? Tem algum recado para quem está a começar ou tem interesse em seguir este caminho?

A: É extremamente difícil, mas é nessa dificuldade que vamos evoluindo e nos vamos reinventando. Para quem está a começar é muito importante uma boa auto-estima pessoal e profissional, sem nunca descurar a predisposição para aprender e o respeito pelas pessoas envolvidas na área, estar atento e aprender com elas, porque, no final de contas, trabalhamos para pessoas. É necessário entender que não é um trabalho individual nem que somos a última "coca-cola do deserto".

12) M: Ficamos muito felizes pelo seu interesse em rechear a nossa revista com o seu trabalho. Agora é a sua vez de deixar um recadinho seu para a MELANCIA mag.

A: Adoro a diferença, adoro melancia, por isso vejo com muito bons olhos a combinação dos dois nesta revista. Continuem a marcar a diferença.

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