MÚSICA

Entrevista: MAFALDA JESUS

RUSSA

foto: Super Bock em Stock

Não lhe faltam jogos imensos de palavras, mas para trás ficaram os jogos de bola nos pés e baliza em frente. Russa sempre teve a paixão do futebol e agora são os “atletas de alta competição, seja de que modalidade forem” que a inspiram. Uma mulher cheia de garra e ambição a quem não faltam grandes objetivos com atenção sagaz ao mundo que a rodeia.

1) MELANCIA: Quem é a Russal?
RUSSA: 
Palavra portuguesa que será no futuro sinónimo de rap em qualquer dicionário.

2) M: Sabemos que a tua grande paixão sempre foi o futebol e o que o rap foi um amor tardio. Quando é que percebeste que investir tempo na música era o caminho a seguir?
R: Desde que nasci que queria ser jogadora de futebol. No entanto, nunca tive “lata” suficiente para lutar pelo sonho. Não havia equipas onde pudesse jogar durante o meu crescimento e quando finalmente tive oportunidades senti que era tarde e não lutei mais. Dediquei-me cada vez mais aos estudos e o meu foco era apenas tirar um curso superior que pudesse dar-me uma vida confortável. No entanto, o futebol era mesmo o sonho. Só no final da licenciatura é que comecei a minha caminhada enquanto rapper. Foi a melhor coisa que me podia acontecer porque o futebol era um sonho perdido e o rap veio mesmo dar cor a tudo. Pode parecer cliché, mas é a maior verdade. No rap eu nunca senti que fosse tarde demais. O desporto tem esse problema porque normalmente para vires a ser uma referência tens de desenvolver a skill desde cedo e se não estiveres no sítio certo é difícil vir a acompanhar o ritmo de alta competição mais tarde. Mas no rap sempre acreditei que pudesse correr lado a lado com os melhores atletas dos Jogos Olímpicos do HipHop (risos). Desde o primeiro poema que sempre acreditei no meu potencial e foi essa confiança que me trouxe até aqui.

3) M: O que te inspira? 

R: Tudo me inspira. No entanto, se quisermos ser mais específicos e apontar figuras que me motivem, posso dizer que atletas de alta competição, seja de que modalidade forem me motivam a ser cada vez mais exigente comigo própria.

4) M: A pergunta básica: como é ser mulher no mundo do rap? 

R: Quando surges, descriminação positiva. Sejas boa ou má, maioritariamente vão dizer que és boa e ter muitos comentários positivos só porque não é comum haver muitas mulheres neste meio. A longo prazo, discriminação negativa. Mesmo que faças o melhor rap do mundo, maioritariamente vão dizer que “é bom para rapariga” ou usar expressões semelhantes que limitam ou reduzem o teu potencial. No entanto, acredito que maioritariamente isto aconteça inconscientemente e seja uma questão de tempo até que pare de acontecer. Pessoalmente, diria que nunca me senti muito descriminada. No entanto, o meu grande objectivo é suprimir a expressão “rap feminino”.

5) M: Que objetivos pretendes cumprir com a tua música? 

R: Além de suprimir a expressão rap feminino? (risos) Acho que isso resume bem tudo o que eu quero. Pode parecer meio utópico, mas no fundo a mudança de crenças e preconceitos é muito lenta. Precisamos de esperar que passem gerações e gerações até que isso aconteça. Dou-te um exemplo: o racismo. O racismo pode ser menos evidente agora, mas ele existe. Aliás num mundo ideal se não existisse nem haveria uma palavra para tal coisa. Além de “rap feminino” há muitas outras palavras/ expressões que gostaria de suprimir, no sentido em que gostaria de contribuir para reduzir o problema levando à sua erradicação e posterior esquecimento. De qualquer das formas sabemos que era preciso viver centenas e centenas de anos para que qualquer mudança fosse efectivada de tal forma.

6) M: Moraste em 5 países diferentes. Qual deixa mais saudades? E porquê voltar a Lisboa? 

R: Austrália deixa mais saudades, sem dúvida. Todos os dias! Voltar a Lisboa... sempre e vezes sem conta. É a cidade em que sinto que “cumpri mais metas”. Foi a cidade onde morei sem a família pela primeira vez, a minha primeira faculdade era lá, etc. Foram muitos marcos em Lisboa.

7) M: Lançaste este ano o teu primeiro álbum “Catarse”. Como foi recebido pelo público? 

R: Sinto que devia ter apostado mais em marketing/comunicação do álbum. A maneira como fiz tudo pode não ter sido a aposta mais racional, mas tinha muita pressa em mostrar que existo e já estava há anos a trabalhar sem que ninguém soubesse deste meu lado. Era como se estivesse a sufocar e precisasse de mostrar ao mundo que sou mais do que um single. Queria mostrar que consigo fazer um projecto com relevância. No geral, “Catarse” foi bem recebido. Recebi bastantes mensagens de apoio e reconhecimento dentro do meio HipHop. Não me posso queixar. Continuo super orgulhosa do projecto e principalmente ao vivo dá para perceber o peso desta “Catarse”.

8) M: O que é essencial no teu dia-a-dia? 

R: Lentes de contacto.

9) M: Qual é o teu lema? 

R: Sem cunhas até ser a cunha.

10) M: Deixa uma mensagem à MELANCIA e aos seus leitores.

R: O projecto está brutal. Eu já o conhecia e acompanhava há algum tempo. Espero que muitos leitores mantenham o projecto vivo por longos e bons anos. O apoio do público é fundamental para que o que merece reconhecimento se mantenha no topo.

Instagram: @rap.russa​

 PREFERES 

- Cerveja ou vinho? Cerveja.

- Tatuagens ou Piercings? Tatuagens.

- Jogar à Defesa ou ao Ataque? Ataque.

- Soutien ou "Free the Nipple"? "Free the Nipple".

- Noite ou Dia? Noite.

- Leite nos cereais: Antes ou Depois? Antes.

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