Entrevista: Rita alvarez

fotografias: MIGUEL BARTOLOMEU

MIGUEL BARTOLOMEU

Colecciona corpos através da lente da sua máquina fotográfica. Procura-os com uma questão em mente: “que invólucro é este que está a ser animado por uma energia tão específica”? E mostra-nos as respostas impressas com um contraste forte de cores graves e movimentos crus - até nus. Quanto às nossas perguntas, Miguel Bartolomeu não fugiu a nenhuma.

1) MELANCIA: Quem é o Miguel?
MIGUEL BARTOLOMEU: 
Como não gosto de responder a este género de perguntas, posso dizer que tenho gostado de me sentir cada vez mais confiante no que faço.

2) M: A fotografia foi algo que sempre quiseste? Fala-nos do teu trabalho. 
MB: Nunca soube. A pergunta típica: “O que é que queres ser quando fores grande?”. Só me lembro de ter respondido uma vez e tinha 3 ou 4 anos. Queria ser cozinheiro. Desde então sempre me deram muito espaço para ir experimentando sem grandes limitações. E como não acredito numa só forma de veincular uma ideia, acabo por usar a fotografia com mais frequência que outro meio, mas tenho muitas ideias e projectos em que a fotografia não entra.

3) M: Quando e como surgiu o teu mais recente projecto “Collecting Bodies”? Em que consiste? 

MB: Surgiu enquanto dava um passeio na praia. A escolha da fotografia foi feita, mesmo que na altura ainda não tivesse consciência, para saber até onde é que podia ir como espectador. Os corpos foram-se aproximando mais e mais até ao ponto de me aperceber que retiro um prazer inexplicável desta observação.

4) M: Explica-nos o conceito do separador “SOME”, no site collectingbodies.com 

MB: Como quase todas as outras coisas na minha vida, surgiu sem aviso ou preparação. Enquanto estava a fazer uma sessão fotográfica decidi fazer “dois” trabalhos, o que me estava a ser pedido e outro para mim, com um tom mais pessoal e um ponto de vista diferente daquele que era pretendido. Muito na perspectiva de“já que aqui estou com estas pessoas mais vale aproveitar”. É incrível o que se consegue só com o acto de pedir.

5) M: O teu trabalho tem bastante nudez. Trabalhas exclusivamente com modelos profissionais? Se não, como é feita a abordagem? 

MB: Eu trabalho com toda a gente que queira ser fotografada, é aí que está a piada. Actores, bailarinos e performers, que têm uma consciência diferente do seu corpo, claro que me dão uma coisa que acaba por ser mais performativa. Mas eu quero fotografar toda a gente. Todos os tipos de corpo interessam, como é que eles se mexem. No final, a pergunta que me move nesta procura dos corpos é só esta: “Que invólucro é este que está a ser animado por uma energia tão específica?”.

6) M: Na tua opinião, qual é a maior dificuldade de um fotógrafo? 

MB: Ser honesto e verdadeiro. Não só para fotógrafos, para qualquer pessoa que crie. Acho que os medos contaminam todas as nossas escolhas. E há quem diga que estar consciente desses medos e limitações é uma forma de honestidade. Eu não critico nem discordo mas acho que nós somos veículos de algo, quanto menos “porcaria” no caminho, melhor a mensagem. Para além disto, fotografar muito, pegar na câmara e fotografar, e fotografar mais um bocado. Sou defensor que temos de trabalhar muito para atingir qualquer coisa que seja “nossa”.

7) M: Consideras o Instagram uma ferramenta essencial ao teu trabalho? 

MB: Não sei se essencial é a palavra, mas gosto da plataforma. Acho que é uma forma fácil de mostrar o trabalho e estar em contacto com pessoas, tanto aqueles que gostam do meu trabalho como aqueles de quem eu gosto do trabalho.

8) M: Existem vários Instagramers com perfis de fotografias, mas sem qualquer formação na área. Achas que esta plataforma beneficia ou prejudica o trabalho de um fotógrafo?

MB: Para achar que beneficia ou prejudica teria de achar que são fotografias. Eu lembro-me de ter lido (não me lembro onde) que hoje em dia a fotografia massificada das redes sociais é a demonstração da posse que as pessoas querem ter sobre o tempo. Gostei deste ponto de vista.

Há coisas que eu não acredito que sejam benéficas ou prejudiciais, servem só de medidores de comportamentos sociais. E há ainda outro factor que considero importante: a luta por uma voz que antigamente era o grande desafio, deixou de o ser. Hoje todos podemos ter uma conta numa rede social e expôr os nossos pensamentos, imagens, sons, o que nos apetecer. A luta já não é por ter uma voz, mas é ver quem fala mais alto. Para responder à tua pergunta, acho que há muitas pessoas a fazer trabalhos geniais e há outros a que eu não dou credibilidade para considerar que são criações, são devaneios. Não quer dizer que não os possam ter.

9) M: Quando e onde poderemos ver o teu trabalho ao vivo? 

MB: Dia 17 de Janeiro abriu a minha exposição “Território” na Biblioteca Camões. Apareçam, estão convidados para ver esta nova forma do meu trabalho.

10) M:Tens outros projectos que queiras partilhar? 

MB: Não para partilhar para já, mas gosto muito de escrever.

11) M: Próximos passos? 

MB: Existem em cima da mesa possíveis colaborações para 2019 a nível digital e merchandising.

12) M: Deixa uma mensagem à MELANCIA e aos seus leitores.

MB: Obrigado!

www.collectingbodies.com

 PREFERES 

- Analógico ou digital? Os dois.

- Cerveja ou vinho? Vinho.

- Gorro ou chapéu? Chapéu.

- Doces ou salgados? Salgados.

- Autocarro ou metro? Metro.

- Cães ou gatos? Gatos.

- P&B ou cores? Cores

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