ilustração & Escrita

Entrevista: mafalda jesus

clara não

foto: Flux Sofia Borba

Nós dizemos “sim” - mil vezes se for preciso - à Clara Não e à sua arte atenta, reivindicativa e igualitária. E vocês? Uma mulher do norte que anima o feed do instagram com cores lisas e ilustrações de que saltam palavras a bold que não nos deixam indiferentes. A tudo isto Clara Silva ainda junta a música e anima as noites da invicta com as Shuggah Lickurs. “Sou muito 8/80”, disse, mas nós tendemos mais para afirmar que é cem.

1) MELANCIA: Quem é a Clara?
CLARA: 
A Clara é uma mulher que nasceu à volta das freiras, na Ordem do Carmo. Era mesmo muito boa menina, não falava do que a incomodava até ao dia em que havia tanta coisa que lhe fazia comichão que se passou e começou a fazer desenhos sobre isso. Sou uma pessoa que pensa em todas as opções e em tudo o que uma situação pode gerar ou que é impulsiva - sou muito 8/80. Não lido bem com coisas novas, levo o meu tempo a adaptar me. Tenho vindo também a tentar preocupar-me tanto comigo como me preocupo com os outros. Mas o principal é que estou num processo de perceber como eu mesma e o mundo à minha volta funcionam.

2) M: Porquê “não”? 
C: O meu nome de Cartão de Cidadão é Clara Silva. Como “Silva” é o apelido mais comum de Portugal e Brasil, decidi arranjar um novo. Fiz uma lista de opções, mas não gostava de nenhuma. Riscava cada uma e dizia “não”. Depois de vários “nãos”, pensei: Porque não?

3) M: Ultimamente a escrita tem tido um grande peso no teu trabalho. Como surgiu esta paixão e quando decidiste que querias partilhar os teus sentimentos e preocupações com o público? 

C: Sempre gostei de escrever. Quando era pequena, até ao 6º ano, queria ser professora de Português. Depois mudei para pediatra, depois designer de interiores, depois para designer gráfica, depois para ilustradora, mas isso é outra história. Tive vários diários que nunca acabei e nem me lembro como comecei, nem onde estão. A verdade é que no 11.o ano a minha professora de Português insistiu e eu acabei por participar num concurso literário nacional, na categoria B (<18 anos). Ganhei o primeiro lugar da categoria. Depois, fui escrevendo umas coisitas aqui e ali, mas sem dar grande importância a isso. Já no mestrado decidi tentar perceber o meu cérebro num workshop com o Professor Philip Cabau. Para o fazer escrevi pequenos textos durante 4 horas seguidas. Quando o workshop terminou, continuei com o hábito de escrever pequenos textos conforme me lembrava deles. Desde aí que tenho sempre um bloco comigo para isso.

4) M: Focas-te em temas da atualidade e do dia- a-dia. Qual é o critério de seleção dos conteúdos? Como funciona esse processo criativo? 

C: Converso muito com os meus amigos sobre o que se passa no mundo e leio muitos artigos online (demasiados), por isso posso dizer que a minha procrastinação se tornou a minha fonte de inspiração. Então, o primeiro passo é ver o que se passa, informar-me e debater o assunto. Depois, penso sobre eles, na mensagem que quero transmitir, e faço a ilustração e o texto que a acompanha. No caso das redes sociais esse texto fica visível, no caso de exposições e freelance, esse texto, normalmente, faz parte do “behind the scenes”.

5) M: O que pretendes despertar nas pessoas? 

C: O que eu mais quero é que as pessoas se sintam bem com elas mesmas; que se respeitem umas às outras, independentemente de género/identificação de género, orientação sexual, nacionalidade, poder económico ou cor de pele; que tenham um nível saudável de auto-estima; e que pensem no que se passa à volta delas no mundo. Antes de qualquer pessoa, quem pode e deve lutar por ti és tu, sempre. Além disso, no âmbito da igualdade exploro o tema da sexualidade da mulher, que é tão natural quanto a do homem. 

6) M: Na tua performance escrita, escreves com as duas mãos. Porquê aprender a escrever com a mão esquerda? 

C: Quando comecei o meu processo de entendimento do meu cérebro, apercebi-me que tudo andava à volta da memória e da escrita. Reflecti sobre o tempo em que estava a aprender a escrever, o que me fez lembrar que eu nunca tinha pensado na possibilidade de ser esquerdina na altura, embora eu tenha sempre comido com o garfo na mão direita e assoado o nariz com a mão esquerda. Então, como uma forma de entender fisicamente o acto de escrever, decidi ensinar a mão esquerda a fazê- lo, segundo o mesmo método pelo qual aprendi a escrever com a mão direita.

Num acto de rebeldia pela normalização protocolar social, copiei, segundo o tal método, o de Jean Qui Rit, o livro da primeira classe do Estado Novo. As crianças eram proibidas de escrever com a mão esquerda, porque o lado esquerdo estava relacionado com o diabo, o errado, o pecado. Além disso, as mulheres eram vistas como escravas do lar, como obrigação, e os homens como os deuses terrenos que suportavam economicamente as famílias, isto, sem opção. Não teres opções de caminho de vida só porque nasceste com determinado género faz-me muita confusão e deixa-me enraivecida, especialmente por esta visão da sociedade ainda não ter sido totalmente dissolvida.

7) M: Tens uma vida paralela enquanto dj. Fala- nos das “Shuggah Lickurs”. 

C: As Shuggah, eu e a Carolina Grilo Santos, apareceram há 4 anos com uma brincadeira de faculdade. Precisavam de alguém que tocasse numa festa da Associação de Estudantes. A festa era no Maus Hábitos, no Porto, e tocaríamos apenas uma hora ou duas. Como correu bem, o Salgado, programador musical do Maus Hábitos, convidou-nos a tocar lá uma quarta por mês. Depois passou para quinta, depois para sexta, e depois bimestralmente ao Sábado. Desde o princípio, nas quartas-feiras, que somos a Anita contemporânea — “Shuggah Lickurs vão (...)”. Já fomos a imensos sítios: à Praia, às Caraíbas, a Hollywood, ao Circo... Temos sempre connosco o melhor performance-dançarino, o João Viana, e a DJ Jane na sala do restaurante/bar. Além disso, por causa das festas, acabamos por fazer imensos amigos que nos são muito queridos! Nos meses em que não tocávamos no Maus, tocámos noutras grandes casas do Porto: Plano B, Café Rivoli, Pitch (agora encerrado), Zoom, Radio. Recentemente, ficámos também residentes no Zoom, em conjunto com a Pyrats, com o Peter Castro e a Matilde Castro, com uma festa bimestral, intercalada com a do Maus. Chama se “Bounce” e a temática é sempre uma cor diferente.

8) M: Na tua opinião, que noção é que um artista não deve perder? 

C: Para viveres da tua arte tens de trabalhar muito e estar sempre preocupado/a em fazer melhor e evoluir. 

9) M: O que é essencial no teu dia-a-dia? 

C: Desenhar, rir-me, ver pessoas de quem gosto, música e pão. Adoro pão.

10) M: Qual é o teu lema? 

C: Para além do “tens o direito a dizer não”, tento ter sempre em mente este: “se fizeste o melhor que podias, nas circunstâncias que tinhas, a mais não és obrigada”.

11) M: Deixa uma mensagem à MELANCIA e aos seus leitores.

C: Visualizem os vossos desejos deste novo ano e façam uma lista de passos para os alcançarem. Cumpram-na ao máximo, sem esquecerem que se devem respeitar a vocês e aos que vos rodeiam com igualdade, e que errar, mesmo se se esforçarem ao máximo, é normal. Se nunca falharem é que é esquisito.

claranao.com

 PREFERES 

- Soutien ou "free the nipple"? Free the nipple, ou um soutien que seja confortável e aconchegante, sem tirar liberdade.

- Chá ou café? Chá (deixei de beber café porque o meu coraçãozinho batia muito, muito, rápido, e para isso já chega o amor).

- Noite ou dia? Dia.

- Manual ou digital? Manual.

- Cerveja ou vinho? Vinho.

- Selfies ou retratos? Retratos (not millennial enough, sorry).

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