ilustração & street art

Entrevista: MAFALDA JESUS

MY NAME

IS NOT SEM

Inspirado principalmente pela música eletrónica, onde os módulos, as repetições e as oscilações são uma constante, Filipe aka mynameisnotSEM, fala-nos sobre o seu percurso no mundo da street art. Os seus trabalhos estão colados em todas as esquinas nas ruas do Porto e é impossível ignorá-las. Segundo o artista, ilustram o que o rodeia e espelham a sua visão da cidade. “Um eco citadino, uma sinestesia.”

1) MELANCIA: Conhecemos muito pouco da pessoa por trás deste projeto. Como te descreves em poucas palavras?
MY NAME IS NOT SEM: 
Activo, proactivo. Activista, artista, designer. 1,80m e 90kg de maus caminhos.

2) M: Como chegaste à street art?
M: Por volta de 2003, contacto com o mundo das claques de futebol, o que me levou à pintura (na altura de bandeiras, estandartes e lonas). Nesse mesmo contexto começo a ver tags nas paredes e apercebo-me que autores são meus amigos. Em 2004, entro de pé esquerdo no secundário e com os dois no graffiti. É então que me apresentam Matosinhos Sul, uma zona industrial mais para lá do que para cá, com uma data de fábricas ao abandono, que se transformam em autênticos laboratórios criativos. Torno-me rapidamente frequentador regular destes espaços para desenvolver letterings sob vários pseudónimos. Quase em simultâneo, exploro outras linguagens como o stencil e o cartaz, em anonimato. O curso geral de artes não corria bem, levando-me a mudar de curso e de escola. Isto somado com outros factores e novos interesses, como a música, fizeram com que gradualmente parasse de pintar. Em 2012, na faculdade voltei a experimentar técnicas e linguagens ligadas à street art, culminando no projecto Deslembrados, que foi o pontapé de saída para esta nova fase. Posso não saber exatamente para onde vou, mas tenho bem gravado de onde venho... Manos Douro Crew, Matosinhos!

3) M: Quais são as tuas influências no mundo artístico? Provêm apenas do graffiti ou procuras inspiração noutras vertentes? 

M: O graffiti foi o ponto de partida, sem dúvida. No entanto, actualmente busco inspiração e influências noutros campos. A formação superior em design teve um papel importante nesse aspecto, abriu-me alguns horizontes. Além do design, no universo visual, a Op Art e o património português são grandes inspirações, por mais que pareçam paradoxais. A música eletrónica, por sua vez, assume um papel essencial no processo criativo, explico como mais à frente.

4) M: Tens um estilo muito característico, onde as formas e a cor dominam. O que está por trás desta abstração? 

M: Uma condição que não me assiste é desenhar, também nunca me pareceu crucial. Alia-se um horror nato pelo figurativo e um fascínio por novas técnicas e tecnologias, que não me canso de experimentar. Soma-se a música e, daí vêm os módulos, as repetições, as oscilações, as refracções, o minimalismo, o psicadelismo e o abstracionismo. Enquanto experiência de vida, a música condimentada com substâncias que não vou discriminar, levou-me a viajar por outros universos, a experienciar sinestesias e visões em caleidoscópio. Abertas as portas da percepção, o mote é criar imagens com base em sons que ouço, ouvi ou imagino, lançando ao público o desafio inverso, de na sua mente convertê-las de novo em som.

5) M: Ainda pintas “às escondidas”? Ou só atuas em paredes legais? 

M: Os dois, tendo abordagens ligeiramente diferentes consoante o contexto. Em paredes legais, por norma, prevê-se uma certa permanência, pelo que o cuidado é redobrado. As ações ilegais, pela sua efemeridade, tendem a ser mais descomprometidas e de menor investimento. Para mim, é essencial o exercício de ambas as vertentes para o meu desenvolvimento enquanto artista.

6) M: Na tua opinião que noção é que um artista nunca deve perder? 

M: Para um artista que actue na rua, a noção de espaço. Porque o espaço público não é público, é uma utopia! Na realidade é concessionado à circulação de pessoas e bens. É de todos, do ponto de vista funcional, e nesse mesmo sentido deve ser respeitado. No entanto, é inevitável ser gerido pelos seus utilizadores, e que as vontades e abordagens destes se dispersem. Cabendo às entidades competentes fazer uma triagem responsável, pela saúde da paisagem urbana.

7) M: Se tivesses uma parede livre agora, com quem gostavas de fazer uma parceria? 

M: Esta é fácil! Com os Manos Douro, foi com eles que comecei a pintar e já não fazemos uma parede juntos há uns anos. A parede está livre, as disponibilidades é que não se conjugam. Pode ser que esta entrevista lhes toque. Também tenho sentido necessidade de fazer algo com o GODMESS. É o artista com quem mais contacto e já fizemos algumas colaborações interessantes, mas há algum que tempo que não produzimos nada em conjunto.

8) M: Deixa uma mensagem à MELANCIA mag e aos seus leitores. 

M: Não contribuam para o aquecimento global, mantenham-se frescos. Comam Melancia fresquinha, bebam sumo de Melancia gelado. Um truque que um grande amigo me ensinou, a Melancia ao sol, fica fria. (Não sei se resulta, mas experimentem!)

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