Entrevista: mafalda jesus

ILUSTRAÇÕES: alecrim

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“Um explorador de sonhos” assim se descreve Nuno Alecrim, street artist e autor da nossa capa. Com grandes influências no design gráfico, área de formação, apresenta-nos trabalhos monocromáticos e geométricos com uma forte identidade artística. Em constante crescimento, participou recentemente na Moda Lisboa e no Festival Muro, onde desenvolveu dois grandes murais em que incluiu a tipografia, um elemento que está a explorar nas suas novas intervenções.

1) MELANCIA: Quem é o Nuno?
ALECRIM: 
Um explorador de sonhos...

2) M: O design é uma grande paixão na tua vida. Como surge a ideia de passar do ecrã para a parede?
A: Já fui mais apaixonado por design gráfico, neste momento design gráfico é o meu trabalho, a minha paixão são as artes plásticas, é aí que consigo ser livre e realmente fazer aquilo que quero e gosto. Claro que grande parte da minha inspiração e composição advém dos meus conhecimentos como designer gráfico. Passar do ecrã para a parede!? É engraçado, porque essa parte da história é um ciclo que se fechou. Começa primeiramente na parede, em seguida passa para o ecrã e volta de novo a parede. Em 97/98 com o graffiti puro e duro, letras tags e muitas latas. E foi isso que me levou ao design, em 2004 tenho a minha primeira abordagem ao design onde aprendo alguns programas da área e onde começo a desenvolver os meus primeiros trabalhos como designer gráfico. Deixo de pintar na rua e vou tirar o curso de design gráfico de comunicação, passado alguns anos de muito ecrã e de várias experiências, a nível profissional e pessoal, como serigrafia, gravura, block print, têxtil... Mas sempre com aquele bicho das pinturas dentro de mim. Em 2016 volto as paredes com uma abordagem e conhecimento completamente diferente da inicial, dai dizer que é um ciclo que se fechou. Por muita voltas que possamos dar, as nossas raízes são sempre as nossas raízes, de uma maneira ou de outra são elas que nos vão guiar ao longo da vida.

3) M: A geometria, a repetição e o preto e branco caracterizam as tuas intervenções e tornam-nas facilmente identificável. Fala-nos do teu trabalho e das tuas inspirações. 

A: A geometria faz parte da minha metodologia e enquadramento em quanto designer gráfico, onde se usam bastantes grelhas e formas geométricas para se obter composições gráficas. A repetição e os padrões vêm também dessa fonte, mas também das minhas viagens e de outras culturas, adoro viajar e tomar contacto com novas culturas, obtendo inspiração e conhecimento de novas técnicas e grafismos. De momento estou a tentar quebrar um pouco com essa estrutura rígida e fechada que é a geometria, vou continuar a usá-la, mas quero explorar novos elementos, mais orgânicos e livres. Um dos elementos que usei nas minhas duas últimas peças e que quero aprofundar melhor, o meu conhecimento e técnica, é a tipografia. A natureza também ela tem uma grande influência em mim...O preto e branco... São cores simples, básicas, minimalistas... O preto foi uma das primeiras cores usadas pelo homem para criar, comunicar. Gosto muito de cores, de trabalhos coloridos... Mas neste momento vejo a cor como uma distração para o observador, no meu trabalho quero dar primordialmente preferência à forma, à composição, daí trabalhar muito com positivo/negativo, usando somente duas cores. Talvez um pouco influenciado pela fotografia a preto e branco, que é outra das minhas grandes paixões ou mesmo pela técnica do block print que explorei em têxtil. Tenho pensado e estudado a possibilidade de colocar pontualmente uma cor mais no meu trabalho, gostei bastante do resultado da cor vermelha na minha última obra no festival Muro, é uma cor com uma grande carga simbólica.

4) M: Foste convidado recentemente para o desfile “Awaytomars” na Moda Lisboa, como foi essa experiência? 

A: Intensa, desafiante, rápida! 25 minutos numa intervenção ao vivo passam a voar... Desassossegada, não sabíamos bem como as tintas se iriam comportar no pano cru, fiz uns testes em casa, mas de resto, foi tudo na hora que tomei o verdadeiro contacto com os materiais. Mas foi fantástica a experiência! Fazer uma intervenção ao vivo para cerca de 400 pessoas na moda lisboa foi sair um pouco da minha zona de conforto, mas correu muito bem e gostei muito do resultado final do desfile. Foi uma honra poder partilhar o espaço e momento com tão bons artistas, obrigado a todas, obrigado Awaytomars.

5) M: E o Festival Muro? Como foi partilhar esta experiência com grandes nomes da street art? 

A: Muito gratificante, participar num evento com as dimensões do Festival Muro, conhecer e partilhar experiências com artistas de tão elevado nível e experiência é muito bom. Foi onde, e citando um amigo meu (Heitor), coloquei fermento no padrão, foi o meu primeiro trabalho a uma escala daquela dimensão, foi um bom desafio, onde aprendi muito, tanto a nível pessoal como com o colectivo de artistas e produção. Dias FunTásticos!

6) M: No leque de artistas portugueses, quais destacas? 

A: Não quero dar destaque a nenhum em particular, para o fazer teria de colocar aqui uma lista infindável de nomes. Acho que Portugal tem artistas fora de série, não só na chamada street art... em tudo! Aprecio e dou valor a qualquer tipo de arte e ao trabalho de cada artista, mesmo quando não percebo ou gosto menos do trabalho, tento sempre buscar alguma boa ilação nisso. Claro que tenho artistas que me inspiram mais! Não só pelo seu trabalho, mas também pela sua maneira de ser e de ver as coisas. Artistas que me levam a auto desafiar, a querer melhorar e a explorar novas técnicas... Como o uso de raízes de plantas e cordas em alguns dos meus trabalhos!

7) M: Neste momento a street art está cada vez mais presente nas cidades e na sociedade. Como vês esta evolução? 

A: É muito bom está revitalização, da arte, da pintura de mural! Falando particularmente da pintura mural, é bom termos espaços onde as pessoas possam apreciar e levar consigo algo diferente no seu dia a dia, quebrar a rotina, pôr as pessoas a pensar e se questionarem sobre o que estão a observar, experienciar, fazê-las parar! Tirar um pouco o preconceito que a arte pertence a um determinado espaço, suporte ou público. “Sab kuch milega” é uma frase Hindu que quer dizer, tudo é possível!

8) M: O que é essencial no teu dia-a-dia? 

A: Ter um objectivo, um desafio, conhecer e explorar novas coisas, ter um trabalho em andamento... a minha família, a Eva.

9) M: Deixa uma mensagem à MELANCIA mag e aos seus leitores. 

A: O importante é criar, e não parar...

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