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Entrevista: JULIANA LIMA

miguel

carvalho

O carioca Miguel Carvalho é designer e ilustrador. Apesar de ter ensinado as suas técnicas a outros jovens universitários por muitos anos, está sempre a estudar e a trocar experiências por aí. Para além de ser mestre em ilustração infantil, também criou uma personagem para si na vida real, o palhaço Zin. Passou recentemente por Lisboa e por entre garrafas de bons vinhos e conversas sobre a vida, Miguel aceitou o convite de participar na MELANCIA mag #2 para contar-nos um pouco mais sobre seu trabalho e toda a sua experiência. Vamos lá!

1) MELANCIA: Durante muitos anos, deu aulas na universidade, fez workshops de ilustração, é artista. Qual é a sua formação?
MIGUEL: A minha formação inicial é em Comunicação Visual pela Escola de Belas Artes da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Depois especializei-me em Literatura Infanto-Juvenil pela Universidade Federal Fluminense e atualmente sou Mestre em Design pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. A minha investigação é sobre narrativas visuais.

2) M: Como e quando decidiu seguir esta área das Artes?
M: Acho que desde pequeno que eu gostava de criação. Lembro-me que reinventava as brincadeiras de criança. Frequentei cursos de Teatro, Dança, Música e Circo. O processo de criação sempre me encantou. Mesmo quando fui trabalhar em Design Gráfico, procurei desenvolver as áreas criativas, fazendo programação visual para peças de teatro, espetáculos de dança, shows, capas de livros, CD’s, etc. Sempre me senti confortável dentro da área artística e cultural, não sei dizer quando decidi, simplesmente segui por esta via.

3) M: Ainda muito novo já dava aulas. Com quantos anos começou?

M: Comecei a dar aulas a estudantes que queriam entrar na universidade e precisavam fazer a prova de Desenho. Tinha 20 anos quando dei minha primeira aula num curso pré-vestibular [curso realizado antes do exames de acesso ao Ensino Superior]. Depois aos 28 anos entrei para o Mestrado e comecei a dar aulas na PUC-Rio - Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro.

4) M: Quanto tempo deu aulas na universidade e por que decidiu fazer uma pausa?

M: Estive lá quatro anos e depois decidi fazer uma pausa para viajar, conhecer outras culturas, fazer projetos paralelos, desenhar mais... Para voltar e retomar as aulas mais enriquecido com essas experiências. Eu nunca consegui trabalhar muito tempo no mesmo lugar, a cumprir carga horária. Sentia-me preso. Então, apesar da flexibilidade de horário da universidade (eu não dava aulas todos os dias) precisei dessa pausa. Mas agora creio que chegou a hora de voltar.

5) M: Conte-nos um pouco da sua experiência de ensinar os mais jovens.

M: A universidade foi um espaço muito bom de aprendizagem e troca. Eu dei aulas de Design e Ilustração. Criei uma disciplina chamada Ilustração Narrativa, que foi aceite pela universidade e pude dar aulas sobre aquilo em que eu acreditava, sobre o que eu tinha investigado. Foi muito enriquecedor colocar em prática o aprendizado da investigação. Coloca-nos à prova também. Tive alguns alunos talentosíssimos e foi muito interessante. Ver que tive a oportunidade de contribuir para a formação, orientando os caminhos de pessoas com muito potencial, mas não sabia como direcioná-los para a produção.

6) M: Quais são os seus atuais projetos?

M: Continuo a minha investigação no Laboratório de Design de histórias da PUC-Rio. Lá investigamos a construção de narrativas pela Metodologia do Design. Neste momento, estamos com dois projetos: o primeiro trata-se de uma parceria com a UNICEF na capacitação de uma equipa em São Tomé e Príncipe, para a produção de um programa infantil de TV. Estive a formar atores e manipuladores de fantoches. O segundo projeto é uma pesquisa sobre os grupos de jovens do Rio de Janeiro nas últimas décadas, como se vestiam, os locais que frequentavam e principalmente como era o seus aspecto. Um mapeamento visual das “tribos” de jovens da cidade desde o princípio do século XX. O resultado pretende ser uma exposição e um livro no final do ano.

7) M: E fora da universidade?

M: Tenho ilustrado livros para crianças e jovens, além de animação e teatro. Recentemente, finalizei um livro para jovens editado pela Leya, que adapta o clássico “A Volta ao Mundo em 80 Dias” de Júlio Verne. E estamos a produzir uma animação no Brasil sobre a proposta parlamentar de redução da maioridade penal no país de 18 para 16 anos. Além disso, continuo a trabalhar com Design Gráfico para shows, festivais, peças de teatro e dança, música, etc. Gosto sempre de lidar com várias coisas ao mesmo tempo, de preferência, diferentes.

8) M: E, destes muitos anos de carreira, qual o trabalho de que mais se orgulha?

M: Recentemente, finalizei um livro que ainda não foi publicado, chama-se “Filosofia de Menino”. É um dos projetos de que mais me orgulho. Um texto primoroso: delicado e lindo, para falar de um tema tabu: sexo. Outro projeto que me fez sentir realizado foi levado a cabo através da parceria com um escritor português chamado Luís Filipe Cristóvão. Fizemos um livro sobre um menino que gostava de ficar em casa, chama-se “Pedro Gosta” e tem o apoio da Editora Raquel. São duas obras das quais tenho muito orgulho porque nelas pude construir um tipo de livro que me encanta: aquele em que a ilustração e o texto constroem a história juntos! Ambos se tornam absolutamente imprescindíveis para a compreensão da narrativa.

9) M: Esteve na Europa no ano passado, e em 2015 voltou e ficou por aqui mais de um mês. O que é que o trouxe cá?

M: A viagem para a Europa, dessa vez, teve um propósito que foi tentar viajar e trabalhar ao mesmo tempo. A intenção era prolongar a viagem o máximo possível. Ilustrar livros, dar aulas e viajar. Foi interessante, mas alguns percalços no caminho fizeram os planos mudar.

10) M: Como, quando e por que motivo criou o palhaço Zin?

M: Estudando Circo e Mímica, acabei por investigar o universo do Palhaço e apaixonei-me. É um universo encantador. O palhaço é uma personagem criada para mostrar o que o ator é, na essência, mas que não pode demonstrar perante a sociedade, por medo, vergonha, etc. Assim, reflete uma pesquisa de auto-conhecimento, em que o mais importante é a sinceridade consigo mesmo e com o público. É uma descoberta dos seus medos e vergonhas, uma forma de lidar com eles. De torná-los objeto de cena. Objeto de graça. É um trabalho de muita coragem. Os bons palhaços são muito corajosos e honestos em cena.

11) M: Conte-nos mais sobre a sua experiência com o teatro.

M: Sempre fui apaixonado pelo teatro. A fantasia sempre me encantou. Assumir personagens, viver as suas vidas, entender os seus medos, desejos, é uma aprendizagem incrível. É compreender como somos iguais e ao mesmo tempo distintos, as nossas particularidades, defeitos, forças. O palhaço é um extremo disso. É o olhar totalmente para si. Tanto que ninguém pode fazer o palhaço de uma outra pessoa. Só o Charlie Chaplin pode fazer o Vagabundo, ninguém mais pode.

12) M: Existe alguma ligação entre seus trabalhos de ilustração e as atividades com o teatro e o palhaço Zin?

M: Existe sim. O meu mestrado foi investigar como contar histórias sem texto. A narrativa sempre foi estudada através do texto, da literatura: como os escritores contam histórias. Mas o que me interessava era como as histórias são contadas sem o texto. Nessa minha investigação, procurei perceber como o mímico conta histórias e como a ilustração faz o mesmo. Depois comparei-os com a narrativa textual. Por fim, analisei livros de imagens, que são obras que contam histórias somente através de imagens. Assim, o meu trabalho no teatro, com o palhaço, e o trabalho de ilustração sempre são investigações de como contar histórias sem o uso do texto. Essa é a ligação entre eles.

13) M: Como é viver e trabalhar com arte no Brasil, especificamente, no Rio de Janeiro?

M: No Brasil, temos alguns incentivos governamentais que fomentam a produção artística e cultural no país. Esses estímulos, em diferentes artes, são muito importantes e fazem com que o campo de produção cultural seja bastante rico. Mas, apesar disso, temos problemas muito grandes a enfrentar. A Educação é deficiente, o que torna a formação de público um problema, muitas vezes. Falta estímulo à leitura, apesar de alguns bons projetos estarem em andamento. O Rio de Janeiro nesse sentido é um ótimo lugar dentro do país para se trabalhar com arte e cultura. É uma cidade muito rica artística e também turisticamente. Esse contacto com diferentes culturas faz do Rio um local muito interessante para a criação.

13) M: Quais são suas principais referências artísticas e as suas inspirações?

M: São muitas referências e inspirações. Digo que elas são de momentos. Atualmente tenho pesquisado muito a forma de trabalhar com a luz de um artista franco-americano chamado Pascal Campion, o uso das cores do italiano Lorenzo Mattotti, as composições e o trabalho do argentino Poly Bernatenne. Já foram também investigados Pablo Amargo, Linieres, Carlos Nine, Isidro Ferrer, Bill Watterson, André Neves, Ivan Zigg, Shau Tan... Nossa, são muitos! E Rui de Oliveira que foi meu primeiro mestre da ilustração e com quem sempre aprendo mais um pouco... Em outros campos também tenho referências como: Guimarães Rosa e Manuel de Barros na Literatura brasileira, Michael Dudok de Wit na Animação, Philippe Genty e Pina Bausch na Dança e Charlie Chaplin no Cinema, por exemplo...

14) M: Deixe uma mensagem para a MELANCIA mag

M: (mando a ilustração de recado :))

miguelcarvalho.com.br

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