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Entrevista: JULIANA LIMA

CAIO

LESKA

O Caio Lekecinskas, mais conhecido como Leska, é um jovem profissional com larga experiência em agências publicitárias de renome. Em Setembro de 2015, enquanto o conteúdo da MELANCIA mag #2 era preparado, fui visitar o Brasil e surgiu a vontade de o convidar para rechear as nossas páginas. Publicitário, criativo, artista plástico, aprendeu a lidar e usar o daltonismo a seu favor. Leska não tem medo de arriscar (e errar) e partilhou connosco o seu sorriso entre as palavras e o seu jeito de menino.

1) MELANCIA: Antes de abordarmos o seu percurso artístico, gostaria que revelasse qual é a sua formação e explicasse a sua profissão. Fale um pouco da sua carreira.
CAIO: Eu tirei o curso de Publicidade e Propaganda na Universidade Metodista, em São Paulo, Brasil. E aparte da minha vida como artista, sou criativo numa agência de publicidade. Redator, há 8 anos, já trabalhei em grandes agências como Leo Burnett Lisboa, Leo Burnett São Paulo, JWT, Lowe e Santa Clara.

2) M: Este seu percurso profissional, passou por Lisboa. Então, conte-nos quando e por quanto tempo lá esteve e como foi viver na capital portuguesa?
C: Saudades de Lisboa. Eu vivi a comer bifanas por lá em 2009. Ainda era muito novo, com 19 anos, foi a primeira vez que morei sozinho, e logo noutro país e a trabalhar. Lisboa acolheu-me muito bem, mesmo chegando no inverno, com o vento do Tejo a cortar os meus pulmões todos os dias. Podia ter dado errado na segunda semana, quando o prédio vizinho do meu se incendiou de madrugada. Mas amo Lisboa, não é por acaso que voltei uma vez por ano nos últimos três. Só pra dar um “olá”.

3) M: No seu trabalho, as palavras. Nos seus projetos artísticos, as cores e os desenhos. Como é conciliar a sua profissão com os seus projetos pessoais e independentes?

C: A parte fácil é que tudo é criação, não importa se a escrever ou a pintar. Vivo num intenso processo de criar. A parte difícil é o tempo. Infelizmente, eu não consigo abrir uma tela e pintar no meio do trabalho. Então preciso de fazê-lo noutros horários. Mas já pintei escondido.

4) M: Como é que começou a desenhar e pintar? Tem alguma relação com o facto de ser daltónico?

C: Não tem, não. Comecei desde criança, mas foi a desenhar que descobri que era daltónico. Sem saber, os dois lados já davam as mãos desde os 7 anos.

5) M: Quem sabe desta sua peculiaridade deve ter curiosidade em perguntar como é trabalhar com as cores e ser daltónico. A MELANCIA também quer saber. Fale-nos um pouco sobre isso e das suas experiências (únicas) com as cores.

C: A pergunta que me deixa mais confuso é, depois de eu responder o que estou a ver, alguém me dizer: “Mas se você vê ‘errado’ como sabe que isso é azul?” Eu troco muito castanho com verde. Azul com roxo. Laranja com amarelo. Vermelho com castanho. E uma vez ou outra um tom a mais. Eu estou habituado a isso e gosto de fazer as minhas combinações, do meu jeito. Já que não sei as cores do jeito “certo”, prefiro pintar como eu sinto que elas se comportam bem umas ao lado da outras.

6) M: O seu daltonismo “dá graça” ao seu trabalho. Neste seu percurso, já conheceu outras pessoas na mesma situação?

C: Já, sim. Mas nunca vi alguém que usava isso como eu. Não deliberado. Dizendo que essa é a intenção.

7) M: Já são dois anos seguidos que tem uma exposição com um tema de Verão. A MELANCIA também tem uma relação muito próxima com esta estação, afinal, foi nas noites quentes do mês de agosto que o projeto da revista nasceu. Mas, e o Caio, tem algum motivo especial fazer sempre fazer as suas coleções “Alto Verão”?

C: Foram duas edições. Mas, na verdade, a ideia era existir só a primeira. Eu não gosto muito de repetições. Gosto de coisas únicas. Por isso, por exemplo, não gosto de produzir tiragens de uma obra. Para mim elas são únicas. O sentimento que eu expressei ali não se vai repetir para vender mais. Coloco uma vez e, para mim, é assim que é natural. Só que a primeira edição foi muito bem aceite e bem vista. Repercutiu-se muito bem. E fui chamado por uma marca no Rio de Janeiro para expôr de novo. Como eu tinha vendido tudo e não queria repetir as mesmas obras, decidi que iria fazer a segunda edição. E rolou.

8) M: Na coleção do ano passado tinha lá a sua versão de melancia. Nós adorámos! Fale-nos um pouco sobre estas suas interpretações e inspirações na estação mais quente do ano.

C: Eu gosto de verão. Praia. Mar. Essa alegria do sol. E o verão inspira muito o uso de cores fortes, vibrantes. Felizes como o verão. Ah! Amo o tubarão-melancia! Divirto-me com ele! (ri alto)

9) M:  Já está a trabalhar no seu próximo projeto e a exposição não tarda. A MELANCIA está ansiosa e curiosa para ver o que vem por ai. Vai continuar com as edições da coleção “Alto Verão”? Consegue antecipar-nos algo?

C: Coleção “Alto Verão” é um dos meus “xodós” [tema que lhe é querido, pelo qual tem apreço]. Mas acho que se fizer mais, deixa de ser única. Foi um tempo tão bom que vivi produzindo e expondo esses trabalhos. Essa coleção conseguiu nascer, ganhar vida, e ter sucesso, então vai existir para sempre :) Referi, anteriormente, que não gosto de repetições. O que vem por aí é bem diferente. Mas é grandioso, como conceito. Espero que gostem. Ou até que desgostem. Mas vejam.

10) M: Este ano, também fez um projeto muito interessante com um amigo, a exposição inspirada na textura dos animais marinhos, de cores fortes e chamativas, realizada no fundo do mar. Fale-nos um pouco sobre “8 Pés”.

C: Misericórdia! Esse ano passou tão rápido que me assustei quando ouvi que “8 Pés” foi este ano. Eu aprendi muito com esse projeto. Evolui apenas a pintar. A gente colocou a exposição debaixo do mar. Desculpem-me a expressão, mas foi do cara***. No dia da exposição, tínhamos uma equipa inteira no veleiro: eu, Taira, o diretor de cena, o assistente de cena, o operador do drone, o da câmara submersa, o mergulhador, o capitão do veleiro e mais alguns amigos de alma caridosa a ajudar. Deu um trabalho enorme. Deixar as obras paradinhas, na profundidade exata. Alinhadas. Quanta cãibra (essa palavra é muito esquisita) eu tive e achei que ia me afogar. Não porque não conseguia nadar, mas a cada cãibra, eu ria-me e engolia água. Houve muitos momentos tensos, do tipo “não vai correr bem”. Mas no fim, “rolou”. Ufa!

11) M: Profissão, palavras, carreira, arte, projetos, viagens... Como é que se vê daqui uns anos?

C: Como artista, eu espero errar demais. Fazer coisas que nunca fiz, para poder errar mais ainda e aprender de tudo um pouco. Acumular skills. Debaixo do mar, no céu, numa tela, tatuando, no espaço.

12) M: Sabemos que a capital portuguesa representou um momento muito especial na sua vida. Além da experiência profissional e de vida, ganhou bons amigos e a cidade ocupou um espaço no seu coração. Por isso, gostaríamos de saber se tem alguma viagem marcada para visitar a “sua” Lisboa?

C: Muito, muito, muito. Amo Lisboa. Como sofri quando sai dai. Nunca quis. Mas aconteceu. Não tenho, não, mas pode ter certeza de que, como sucedeu nos últimos três anos, não importa o meu destino nas férias ou em trabalho, eu vou sempre dar um jeitinho de passar por lá. Voo pra Venezuela? Escala em Lisboa.

13) M: E mais, já pensou em fazer algum projeto artístico em terras portuguesas?

C:  Muito. Pensei nisso hoje, sabia? Coincidência. Que loucura! Primeiro porque amo Lisboa, segundo porque tenho muitos amigos de coração e talentosos por lá: diretores de arte, fotógrafos, tatuadores, redatores, artistas, ilustradores. Muita gente boa. Mas está demorando para isso sair...

14) M: Deixe uma mensagem para a MELANCIA mag

C: Ganhe o mundo logo. Vire versão impressa. Venha para o Brasil. Só de ler o nome da revista já dá vontade de ler!

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